Entre ramos e silêncio: as tradições que antecedem a Páscoa

Crónicas 22 março 2026  •  Tempo de Leitura: 3

À medida que a Páscoa se aproxima, multiplicam-se por todo o país sinais visíveis de uma tradição que atravessa séculos e continua a marcar o ritmo espiritual e cultural de muitas comunidades. Entre celebrações litúrgicas e expressões de religiosidade popular, os chamados domingos de preparação — Lázaro, Paixão e Ramos — revelam-se como etapas de um percurso que une fé, memória e identidade.

 

O Domingo de Lázaro, ainda hoje particularmente valorizado nas tradições cristãs orientais, tem vindo a ganhar redescoberta no Ocidente como um “anúncio antecipado” da Páscoa. A narrativa evangélica da ressurreição de Lázaro volta a colocar no centro a pergunta decisiva: o que significa acreditar na vida para além da morte? Em algumas localidades, persistem gestos simbólicos como o uso de ramos verdes ou flores, numa linguagem simples mas expressiva: a vida começa a despontar, mesmo antes da cruz.

 

Já o Domingo I da Paixão, na liturgia tradicional, que historicamente marcava o início do período mais intenso da Quaresma, conserva práticas que continuam a impressionar pelo seu impacto visual e espiritual. Em muitas igrejas, imagens e crucifixos são cobertos com véus roxos — um costume antigo que, longe de cair em desuso, tem sido retomado como forma de provocar silêncio e interioridade. Num tempo dominado pela imagem e pela pressa, este “esconder” torna-se uma forma de comunicar: é preciso parar para compreender o essencial.

O ponto alto deste percurso chega com o Domingo de Ramos, que abre oficialmente a Semana Santa. As ruas enchem-se de fiéis com ramos de oliveira ou palmeira na mão, numa tradição que mistura celebração litúrgica e expressão comunitária. As procissões recriam a entrada de Jesus em Jerusalém, num ambiente que oscila entre a alegria festiva e a consciência do drama que se aproxima.

 

Os ramos benzidos, levados depois para casa, continuam a ser um dos símbolos mais enraizados na cultura popular portuguesa. Colocados atrás das portas, junto a cruzes ou em campos agrícolas, são vistos como sinal de proteção e bênção — uma prática que resiste ao tempo e atravessa gerações.

 

Mais do que rituais repetidos, estes domingos funcionam como uma narrativa progressiva: da promessa de vida (Lázaro), ao aprofundamento do mistério (Paixão), até à entrada solene no coração dos acontecimentos (Ramos). Num contexto contemporâneo marcado por mudanças rápidas e alguma perda de referências, estas tradições continuam a oferecer um ponto de ancoragem, ligando comunidades ao seu património espiritual e cultural.

 

Entre fé vivida e herança coletiva, os domingos que antecedem a Páscoa permanecem como um dos mais fortes testemunhos de continuidade na sociedade portuguesa — onde o sagrado e o quotidiano ainda caminham lado a lado.

Sérgio Carvalho

Cronista

Professor e Jornalista (CP 7993)

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