“Família que educa e evangeliza: o futuro dos Salesianos Cooperadores”
No ano em que se assinalam os 150 anos da fundação dos Salesianos Cooperadores por São João Bosco, a família salesiana vive um tempo de memória agradecida e renovação missionária. Na Província de Santo António de Portugal e Cabo Verde, esta celebração ganha um significado particular ao convergir espiritualmente para Santuário de Fátima, no dia 9 de maio, onde o Rosário rezado na Capelinha das Aparições se tornará sinal de comunhão e entrega.
Nesta edição do Decálogo, conversamos com Rosa Mateus, coordenadora provincial dos Salesianos Cooperadores, leiga, casada e mãe de família, que nos conduz ao coração desta vocação laical: uma fé vivida no quotidiano, feita de proximidade, alegria e compromisso. Entre desafios contemporâneos e a herança viva de Dom Bosco, esta entrevista revela como o carisma salesiano continua a ser resposta concreta para os jovens e para a Igreja de hoje.
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Notas Biográficas:
Rosa Mateus, 42 anos, é casada há 21 anos e mãe de quatro filhos. Salesiana Cooperadora desde 2015, assume atualmente a missão de Coordenadora Provincial, serviço que iniciou em 2025. A partir da sua vida familiar e profissional, procura viver de forma concreta o carisma de São João Bosco, com uma atenção especial aos jovens e às suas realidades. Acredita numa fé vivida no quotidiano, feita de proximidade, escuta e compromisso, e numa Igreja que caminha com as pessoas, com simplicidade e esperança.

1. Celebrar 150 anos dos Salesianos Cooperadores é celebrar uma história viva. Que memória essencial deve ser preservada neste jubileu?
Para mim a peça principal desta história, é o amor que D. Bosco tinha aos jovens, sempre num sentido de proximidade e acompanhamento conseguia educar com valores sempre com o objetivo de formar para uma vida em comunidade.
2. Que atualidade encontra hoje o carisma de São João Bosco num mundo tão diferente do século XIX?
Sinto que o carisma de D. Bosco continua vivo, em diferentes contextos da atualidade há uma força que se mantém, a familiaridade de D. Bosco. Cada um doa seus meninos eram acolhidos por ele e pela mãe Margarida como família. Acho que ainda hoje cada menino que entra numa casa Salesiana sente-se acolhido e envolto no manto de Nossa Senhora Auxiliadora.
3. Esta celebração em Fátima tem um forte carácter espiritual. O que representa rezar o Rosário na Capelinha das Aparições neste contexto jubilar?
Para mim, rezar o Rosário na capelinha das Aparições é o culminar de um ano em festa, em alegria e oração. Faz todo o sentido que o culminar deste ano seja junto da Mãe, neste momento toda a missão, com as suas fragilidades, com os seus objetivos, com a sua história será posta nas mãos de Deus.

4. Os Salesianos Cooperadores são leigos no coração do mundo. Que papel específico têm hoje na missão evangelizadora da Igreja?
Eu vejo o nosso papel no dia a dia, no quotidiano. Na família, no trabalho, nos ambientes comuns, somos chamados a ser a diferença sem grandes discursos e moralidades, mas com exemplo e coração.
5. Vivemos tempos desafiantes para a transmissão da fé às novas gerações. Como responde a família salesiana a esta realidade?
Acredito que respondemos com proximidade. Hoje os jovens tendem a valorizar momentos de experiência e relações em detrimento das palavras. Um gesto vale muito mais do que isso, e os jovens hoje precisam de gestos que os façam sentir acolhidos e participantes desta família.
6. A missão educativa é central no espírito salesiano. Que desafios concretos se colocam hoje à educação cristã dos jovens?
A concorrência com o mundo digital é um desafio grande, até pela dificuldade em criar relações duradouras. Mas vejo aqui uma oportunidade de ajudar os jovens a encontrar sentido, a fazer escolhas e acrescer como pessoas.
7. Como é que este jubileu pode ser mais do que uma celebração e tornar-se um verdadeiro ponto de renovação espiritual e pastoral?
Os jubileus são momentos de transformação, no sentido de parar, rever o caminho e renovar a paixão pela missão. É uma oportunidade de recomeçar, pessoalmente e em comunidade, com uma maior consciência na nossa entrega.
8. A família salesiana é marcada pela alegria e proximidade. Como traduzir hoje este estilo num contexto social muitas vezes marcado pela indiferença?
Há gestos simples que fazem a diferença. Simplesmente a presença, a escuta com atenção e acolher sem julgar. A alegria Salesiana é contagiante, nasce o coração e só faz sentido se partilhada com os outros.
9. Que mensagem deixa aos jovens que procuram sentido e missão, mas que ainda não encontraram o seu lugar na Igreja?
Não desistam de vos encontrar. São normais as dúvidas, as distâncias, as inseguranças, o importante é não fechar a porta. A Igreja precisa de todos vós e há sempre um caminho para ser descoberto, com calma, passo a passo.
10. Se tivesse de resumir este jubileu numa palavra-chave para o futuro, qual escolheria — e porquê?
FAMÍLIA. É assim que sinto a experiência de ser cooperadora, não é algo individual, mas um caminho vivido junto, localmente, na província, na região. Cada uma das pessoas que intervém no nosso caminho passam a ser família. Família que acolhe, que cuida e caminha lado a lado, um lugar onde ninguém se sente sozinho.
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Conclusão:
A partir de uma experiência profundamente enraizada na vida familiar, profissional e eclesial, Rosa Mateus recorda-nos que a missão salesiana não se constrói com grandes discursos, mas com gestos simples que geram encontro, confiança e esperança. Num tempo marcado por mudanças rápidas e desafios na transmissão da fé, o testemunho dos Salesianos Cooperadores surge como um convite a redescobrir o valor da presença, da escuta e da educação pelo coração.
Celebrar este jubileu é, por isso, mais do que recordar o passado: é renovar o compromisso de ser “família” — palavra-chave que sintetiza um estilo de Igreja próxima, acolhedora e missionária. Uma Igreja que, à maneira de Dom Bosco, continua a acreditar nos jovens e a caminhar com eles, transformando o quotidiano em espaço de evangelização.