DECÁLOGO - Não nos podemos habituar à pobreza

Decálogo 1 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 14

Dom Roberto Mariz, Bispo auxiliar do Porto e recém-eleito presidente da Comissão da Pastoral Social da Conferência Episcopal Portuguesa

 

1. Como recebeu esta eleição para a Pastoral Social da Igreja em Portugal?

domroberto3

 

Humildade; Gratidão e Compromisso.

Iniciarei a missão nas Jornadas Pastorais do Episcopado em junho do corrente ano.

 

Humildade perante esta importante e imensa missão da Igreja. Sabemos da relevância e importância da ação social e da caridade na Igreja e na sociedade. Como ela é estruturante para a construção de uma “humanidade humanizada”. Sou um “pequeno elo nesta engrenagem” na qual todos estamos comprometidos.

 

Gratidão e reconhecimento a todas as instituições, a todas as pessoas comprometidas generosa e abnegadamente nesta dimensão da pastoral. Sou sempre reconhecido aos que me antecedem e se empenham comigo. A pastoral social não começa comigo, não se esgota em mim, nem termina comigo. Há um património fraterno e solidário que acolhemos e damos continuidade.

 

Este sentimento é estendido as todas as instâncias civis, publicas e estatais, a todas as pessoas de boa-vontade que agem nesta dimensão.  

 

Compromisso dedicado e esforçado junto de todas as fragilidades sociais do nosso país; de todas as pessoas e entidades que são rosto da pastoral social e da ação social.

 

2. O que representa hoje liderar esta área numa sociedade em mudança?

 

A sociedade está sempre em mudança. Os tempos atuais aceleram as mesmas mudanças sociais.

 

Considero fundamente acautelar quarto atitudes: 

 

Sensibilidade (sempre atentos e despertos para ver as fragilidades e problemas de hoje) – Articulação (entre todos agentes) – Cooperação (juntando forças, vontades e meios) – Complementaridade (todos são necessários na realização do bem solidário).

 

Com estas atitudes estaremos todos mais aptos para chegarmos a todos.

 

Ninguém faz tudo; ninguém exclui ninguém; importa crescer no trabalho em rede. Deste modo mais rapidamente perceberemos as mudanças que precisam da nossa atenção e ação.

 

3. A Igreja está próxima das novas pobrezas ou ainda distante?

 

Pelos dados que conheço, a Igreja está, esteve e estará junto das novas pobrezas de cada tempo. Veja-se o que aconteceu nas últimas tempestades (sobretudo com a Kristin): a ação social da Igreja, nomeadamente pelas Cáritas, fez um trabalho imediato para ser resposta efetiva aos que foram atingidos. Trabalho este articulado com outras entidades e a sociedade no seu todo.

 

Não quer dizer que ao longo da história se tenha conseguido responder a tudo e atempadamente. Há sempre mais e melhor a fazer.

 

Nunca se pode descansar à sombra do trabalho realizado.

 

É necessário uma vigilância continua e disponibilidade imediata.

 

domroberto1

 

4. Quais são hoje as situações sociais que mais o inquietam?

 

São imensas. No contexto mundial que vivemos, com a guerra que se prolonga na Ucrânia, temos a atual guerra no Irão, com o bloqueio do estreito de Ormuz, verificamos como isto afeta a economia na globalidade. Quando os preços sobem e os bens escasseiam, os mais frágeis e pobres são os mais afetados. Temos de estar todos muito despertos e atentos a esta realidade. Além do inferno que é a guerra em si, são as consequências que nos afetam diretamente. As consequências estão aí.

 

Não nos podemos habituar à pobreza. Não podemos normalizar as condições de indignidade em determinados âmbitos da sociedade. Habitação; idosos; solidão; luto; violência doméstica; naturalização da violência; sem-abrigo; prisões; migrantes, entre muitas outras situações. Temos de rejeitar toda a discriminação com base na “origem”, na “cultura” e na “condição social”. A mortes nas estradas em torno da Páscoa não nos podem deixar alheios: há um caminho cívico que nos implica a todos.

 

5. A pastoral social é central ou ainda marginal na vida da Igreja?

 

CENTRAL. Não há história do cristianismo sem história da pastoral social.

 

Somos cristãos, professamos a fé em Jesus Cristo ressuscitado – afirmamos a Sua divindade, tendo presente a maior prova de amor: deu a vida por nós. Não por sermos bons ou merecedores, mas porque nos ama e quer o nosso bem, a nossa salvação. Somos mandatados pelo Senhor para fazermos como Ele fez.

 

Encontramo-nos do lado da fecundidade do Evangelho; do lado certo da Igreja e da história.

 

Tenhamos presente o último documento do Papa Francisco (Carta Encíclica "Dilexit nos" [Amou-nos]) e o primeiro do Papa Leão XIV (Exortação Apostólica «Dilexi te» [«Eu te amei»]). É uma prova desta centralidade.

 

Como refere: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação: o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história” (DT 5). “Portanto, ao ouvir o clamor do pobre, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus, que está atento às necessidades dos seus filhos, especialmente dos mais necessitados” (DT 8).

 

6. O que falta para mobilizar mais leigos na ação social concreta?

 

A evangelização efetiva e completa coloca a dimensão da pastoral social na sua real importância, ao lado da dimensão profética e litúrgica. Há caminho feito. Há caminho a ser percorrido.

 

Sentimos uma generosidade imensa do povo português quando surgem problemas de catástrofes. Quando se carateriza sociologicamente a sociedade atual pelo isolamento, comodismo, pensar só no bem-estar de cada um, pela digitalização do espaço e das relações, também não faltam sinais de solidariedade e fraternidade. Os jovens, adultos e idosos, quando interpelados para esta realidade, dizem “presente” pela ação.

 

Evangelizar; criar iniciativas; dar espaço a iniciativas novas.

 

Igualmente é importa termos bem presente que crescemos com aqueles que cuidados; somos cuidados por eles. “Nesta perspetiva, torna-se clara a necessidade de «que todos nos deixemos evangelizar» pelos pobres e reconheçamos «a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles». Crescidos em extrema precariedade, aprendendo a sobreviver nas condições mais adversas, confiando em Deus com a certeza de que mais ninguém os leva a sério, ajudando-se mutuamente nos momentos mais sombrios, os pobres aprenderam muitas coisas que guardam no mistério dos seus corações. Aqueles de entre nós que não fizeram experiências semelhantes, de viver à margem, certamente têm muito a receber da fonte de sabedoria que é a experiência dos pobres” (DT 102).

 

7. Como pode a Igreja responder ao crescimento das desigualdades?

 

Estar onde é necessário; estar onde é preciso.

 

Através de cada batizado; pela ação de cada instituição.

 

Cada instituição deve ser um “observatório social”, ter o “radar social” continuamente ligado para perceber as fragilidades e debilidades que aparecem.

 

Em dadas situações, é necessário denunciar, sensibilizando e despertando a atenção para que a ação aconteça.

 

Lutarmos todos por uma sociedade justa e solidária, por uma sociedade que cresce na dignificação da vida das pessoas e não na ampliação das desigualdades e pobrezas. As desigualdades não são realidade do passado. Antes fosse. Temos de ser agentes hoje para a construção de sociedades mais justas e fraternas.

 

A pastoral social liga-se com a amplitude da Doutrina Social da Igreja, tocando todas as dimensões do ser humano. Fermentarmos as estruturas da sociedade pelos valores do evangelho.

 

8. Que papel têm hoje a Cáritas Portuguesa, as IPSS ligadas à Igreja e a Sociedade de São Vicente de Paulo no terreno?

 

Central e essencial.

 

Não mero papel ou palavra simbólica, mas ação real e concreta em favor das pessoas.

 

Conseguimos imaginar a ação social do nosso país sem estas entidades? Conseguimos imaginar a Igreja portuguesa sem a ação destas entidades?

 

Não. São fundamentais com presença capilar na atenção às diversas solicitudes.

 

Pela ação destas entidades, os últimos e as preferias existências, ganham primeiros lugares e centralidades no cuidado; sentem como as suas vidas ficam melhores. Sabemos que não chegamos a todos e do modo que sempre queríamos.

 

Uma certeza: somos mais e melhor Igreja com a pastoral social.

 

domroberto2

 

9. Que prioridades define para este novo mandato?

 

Na pastoral social a prioridade é o bem do outro, o bem dos outros realizado e concretizado. Coloco três dimensões importantes.

 

Primeiro, valorização e reconhecimento dos agentes da ação social. “Uma árvore a cair na floresta faz muito mais barulho que toda a floresta inteira a crescer”. Quando acontece algo de mail, também na ação social, tem imediatamente um grande impacto comunicacional; quando o bem é realizado, ninguém fala; se um mal que foi anunciado é desmentido, ninguém liga ao desmentido. Importa destacar e salientar o imenso bem que é realizado. Valorizar e reconhecer. Estamos juntos. Cuidar dos cuidadores.

 

Segundo, termos a sensibilidade afinada, pela presença concreta dos agentes da pastoral social (em comunhão todos agentes da ação social), para reconhecermos as situações de fragilidade social que perduram no tempo, percebermos as novas pobrezas que surjam, encontrarmos as causas de umas e outras, de modo a sermos resposta efetiva e eficaz.

 

Terceiro, sermos potenciadores efetivos para a ação; coordenação; cooperação com toda a pastoral social e todo setor social.

 

São referidas, por exemplo, muitas vezes as preocupações das IPSS, entre elas as das IPSS Canónicas. Com as entidades que agregam estas entidades, total solicitude para se encontrarem as melhores opções e decisões.

 

10. Entre denunciar e agir, onde deve a Igreja colocar o acento hoje?

 

Agir é central. Fazer.

 

Denunciar, quando necessário, impõe-se e é uma forma de agir.

 

----

Notas biográficas

Dom Roberto Rosmaninho Mariz é uma das figuras de referência da Igreja em Portugal na área da pastoral social. Natural de Rates, Póvoa de Varzim, nasceu em 1974 e foi ordenado sacerdote em 1998, após formação nos seminários da Arquidiocese de Braga e estudos de Teologia na Universidade Católica Portuguesa (Braga).

 

Aprofundou a sua formação académica com uma licenciatura em Sociologia pela Universidade do Minho e um doutoramento em Estudos de Religião, centrado na dimensão social das organizações católicas, revelando desde cedo uma forte ligação entre fé e ação sociocaritativa.

 

No plano pastoral, exerceu o ministério como pároco em várias comunidades do Arciprestado de Vila Verde e, desde 2006, na paróquia de São José de São Lázaro, em Braga. Foi também arcipreste, capelão dos bombeiros e da misericórdia local, e assumiu responsabilidades relevantes na vida diocesana, como ecónomo da Arquidiocese, membro do Cabido da Sé e vigário episcopal para o Desenvolvimento Humano Integral.

Destacou-se ainda no setor social como presidente da UDIPSS de Braga e membro da direção da CNIS, bem como coordenador da pastoral sociocaritativa arquidiocesana, evidenciando uma forte capacidade de articulação entre Igreja e sociedade civil.

Nomeado bispo pelo Papa Francisco em 2023, é atualmente bispo auxiliar do Porto e presidente eleito da Comissão da Pastoral Social da Conferência Episcopal Portuguesa. O seu percurso revela um pastor próximo, com sensibilidade social apurada e um compromisso firme com a dignidade humana e a ação concreta da Igreja junto dos mais frágeis.

Sérgio Carvalho

Cronista

Professor e Jornalista (CP 7993)

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail