Os padres também “choram”?

Crónicas 3 março 2026  •  Tempo de Leitura: 4

Nos últimos dias tivemos notícias de dois sacerdotes que terão posto fim à própria vida. Muitas questões se levantam sobre a saúde mental quer dos leigos, quer dos consagrados a Deus. Muitas questões sobre a ideia que temos dos padres e da sua felicidade. Questões que abarcam a sua humanidade, a sua espiritualidade e a própria fé.

 

Mas foi a ouvir e a meditar sobre o episódio da Transfiguração do Senhor, que cheguei a algumas respostas, essencialmente, para mim.

 

Se já decidi quem é Jesus, é pouco provável que dê mais algum passo para conhecê-lo melhor… O problema de muitas das nossas dificuldades com a fé é que teorizamos e reprimimos certos conceitos, certas práticas, certas dúvidas... Não estamos dispostos a discuti-los novamente, e é quase inevitável que o divino se torne tão importante na nossa vida como um ritual antigo que está ali (“Fui ensinado desta forma”; “Sempre foi assim”), mas que não consegue surpreende-me em nada...

 

Deus é aquilo de que me falavam quando era criança: objeto de uma oração quando estou preocupado; a superstição quando vou enfrentar obstáculos; o sagrado nos momentos felizes da festa; a bênção para o Batizado, Primeira Comunhão, Casamento ou Funeral...

 

O acontecimento no Monte Tabor é, acima de tudo, uma surpresa. Na Transfiguração é um Jesus diferente, inesperado. Pedro luta para compreender. Mas, tal como ele, todos nós somos chamados a confrontar-nos com um Deus que não é aquele que construímos com a nossa razão, com a nossa vontade.

 

Pedro, Tiago e João pensavam que conheciam Jesus. Afinal já o seguiam há dias. Tinham-no visto comer, dormir, falar com eles... Acreditavam, no final de contas, que o possuíam

 

O problema de Pedro e dos seus companheiros, e também o nosso, é talvez este: têm uma ideia muito clara de quem é Jesus e selecionam tudo com base nessa imagem. É normal, quando entramos numa realidade, mesmo que nova, tendemos a rotulá-la, a classificá-la. Não há nada de errado nisso, desde que as nossas categorias sejam flexíveis. Na verdade, o problema surge quando tendemos a substituir a realidade pelas nossas categorias e a protegê-las, de modo a que a realidade não tenha mais nada a dizer-nos.

 

No Monte Tabor, os apóstolos talvez tenham percebido que ainda não conheciam Jesus muito bem. E se ainda houvesse algo de diferente a descobrir?!

 

A escolha também é nossa: "Já sei quem é Jesus", ou deixo que a pergunta tenha espaço dentro de mim?

 

Poderemos derivar estas mesmas questões para os nossos padres. Já sei tudo sobre eles? Conheço-os bem para com eles caminharmos juntos? Que preconceitos tenho sobre o ser sacerdote?

 

Um padre pode chorar porque vive numa época em que também ele pode sentir que o céu está fechado, que as suas orações não chegam a Deus, que Deus não tem tempo para ele. 

 

Há uma ideia completamente errada de que o sacerdote, sendo homem de Deus e de fé, pode enfrentar as dificuldades de maneira mais eficaz. Essa conceção esconde uma noção mágica do ministério sacerdotal, como se o sacerdote tivesse uma espécie de canal privilegiado com Deus, graças ao qual, caso surja um problema, receberia imediatamente uma solução vinda do alto.

 

Nós, padres e leigos, devemos ter a coragem de abandonar os preconceitos e sermos procuradores constantes da Verdade.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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