Os Jovens, a Ansiedade e os Adultos
«Venho, não sei de onde. Sou, não sei quem. Morro, não sei quando. Vou, não sei para onde. Estou surpreso por ser feliz».
Martinus von Biberach
Não é novo o que vejo. Não é a primeira vez que ouço. Os nossos jovens andam pouco felizes. A pressão é enorme. Os resultados que lhes exigem são bastante altos...
Numa pequena pesquisa na net, encontramos notícias de jovens à beira de um ataque de nervos. A saúde mental nunca esteve na ordem do dia como hoje. Há estudos que apontam para índices inéditos de ansiedade, depressão e insatisfação com a vida. Num só dia leio que na mesma cidade, um jovem de 13 anos e uma jovem de 23 tiraram a própria vida: o primeiro pulando de uma varanda, deixando um bilhete dizendo que estava cansado da escola; a segunda caindo de uma escada na véspera de uma falsa formatura, pois na verdade havia abandonado a universidade e estava há muito, a fingir que a frequentava.
A cultura dominante, que adotou aquela interpretação da humanidade moldada pela máquina, educa-nos para funcionar por padrões e resultados, fazendo com que as crianças e os jovens se sintam objetos de expectativas em vez de sujeitos de possibilidades. O sujeito age, o objeto reage; o sujeito cria, o objeto consome-se; o sujeito é livre, o objeto é dependente; o sujeito transforma-se, o objeto descarta-se...
Não sei os motivos ou as circunstâncias destes suicídios, bem como de outros que venho lendo nos últimos dias, mas eles demonstram o efeito fatal da combinação de pressão e solidão no desenvolvimento psicológico.
«Durante décadas, interrogámo-nos sobre se a escola preparava os jovens para o futuro. Estamos a prepará-los para o emprego? Para a cidadania? Para a tecnologia? Para a competição global? Hoje, talvez as perguntas certas sejam outras: Que futuro lhes estamos a apresentar? E esse futuro ainda é “psicologicamente habitável”?» Frederico Fezas Vital
Educar é ajudar a desenvolver algo que já existe, mas precisa ser estimulado, provocado. O resultado não deve ser o que eu pretendo, mas o que a criança ou adolescente já é. O processo de amadurecimento é o tornar visível o que a pessoa já é, porque ser único e irrepetível, se lhe forem dadas as condições para tal. Essas condições, que devem ser dadas pela família e só depois pela escola e por toda a sociedade, são as relações afetivas, que promovem a responsabilidade e autonomia, que protegerão contra a pressão ou a mentira.
Os bons relacionamentos despertam a criança, o adolescente para que assuma a sua vida e se realize a si próprio, enquanto os relacionamentos tóxicos buscam o controle do outro, forçando-o a uma forma externa a si mesmo. O primeiro tipo de relacionamento gera pessoas ativas e responsáveis, o segundo, reativas e submissas.
As vidas não desaparecem na solidão, na raiva, no cansaço ou na desilusão se encontrarem alguém que personifique a alegria de viver e a transmita. Como diz Paolo Crepet: «As crianças não precisam de pais perfeitos, mas sim de adultos felizes».
Voltando às palavras de Frederico Fezas Vital:
«Há uma dimensão que raramente nomeamos com a coragem necessária. O exemplo dos adultos. Pedimos serenidade aos jovens enquanto lhes oferecemos um espaço público cada vez mais inflamado. Falamos-lhes de cidadania, mas normalizamos a agressividade como método. Ensinamos-lhes cooperação, mas a vida coletiva espraia-se como uma sucessão de trincheiras. Nós contra eles, vencedores contra vencidos, indignados contra inimigos. (...) Mas é difícil imaginar que uma geração possa crescer confiante se o mundo adulto lhe apresenta o futuro como uma ameaça, o adversário como inimigo e a diferença como um perigo.»
Talvez a crise educacional não se trate tanto da fragilidade das crianças, mas dos adultos que não amam a vida. Só aqueles que nunca param de crescer podem-nos ajudar a crescer, porque é inesgotável o que só eles podem ser e fazer e isso inspira a vida dos outros.