A história de Charlotte Leader

Crónicas 17 fevereiro 2026  •  Tempo de Leitura: 4

Construímos um mundo que sabe tudo sobre nós, exceto a nossa fragilidade. Um mundo onde os algoritmos prevêem os nossos gostos, mas ninguém se apercebe que estamos a sofrer.

 

Precisamos de regressar a uma educação baseada na relação pessoal. Ensinar as pessoas a reconhecer a diferença entre uma resposta mecânica e uma escuta genuína, entre um clique e um abraço. As palavras não bastam se não atravessarem um corpo, se não se transformarem em gestos, atenção, cuidado e proximidade.

 

Fiquei chocado ao saber da história se Charlotte Leader.

 

Charlotte tinha vinte e três anos e um talento natural para a música. Vivia sozinha em Inglaterra e há muito que deixara de procurar a companhia de outras pessoas. Quando morreu, no verão de 2024, ninguém deu por isso. 

 

Charlotte sofria de problemas de saúde mental e distúrbios alimentares, bulimia, desde muito jovem. Com o tempo, afastou-se da família e dos serviços de saúde, tornando-se, uma estranha para os seus.

 

O seu corpo foi encontrado em agosto de 2025, durante uma verificação da polícia, porque a empresa de gestão do condomínio não conseguia entrar no apartamento para inspeções de rotina. As autoridades estimaram que ela estaria morta há cerca de um ano. O seu corpo foi encontrado num estado de mumificação natural, deitada na cama sob o edredão, como se estivesse a dormir.

 

O detalhe que mais chocou o público foi a análise do seu telemóvel. Os investigadores descobriram que, no seu isolamento final, as únicas conversas que Charlotte mantinha eram com o ChatGPT.

 

Ela usava a IA para desabafar sobre a sua relação difícil com a comida. Numa das últimas mensagens, ela escreveu algo como: «Ajuda-me, fui buscar comida outra vez». O chatbot respondeu: «Pareces conflituosa em relação a comer», ao que ela replicou: «É comida que eu não queria e isso é frustrante».

 

Não há nada de espetacular nesta história. Apenas a  tristeza de um mundo onde alguém pode desaparecer sem que ninguém se aperceba. Charlotte não é apenas uma vítima da solidão: é também um sinal de alerta. O seu triste destino reflete o risco de uma era que perdeu a essência das relações para se refugiar em relações digitais.

 

Vivemos na era do eu híper conectado e inabitado. Dizemos que somos próximos, mas raramente nos tocamos. Trocamos palavras continuamente, mas sem que estas criem raízes ou relações verdadeiras e valiosas. As ferramentas criadas para expandir as nossas capacidades de comunicação construíram, em vez disso, um universo paralelo onde a voz humana acaba por se perder num zumbido, e onde até a dor corre o risco de se tornar apenas mais um dado a ser inserido no sistema.

 

A inteligência artificial não é o problema em si. Reflete as nossas deficiências emocionais, as nossas fugas. Charlotte falou com ela como se fala com alguém, um amigo, de quem se espera compreensão. Não era loucura. Era uma fome de presença, mal resolvida.

 

Porque nenhuma inteligência, por mais artificial que seja, poderá jamais substituir o mistério frágil e insubstituível de um ser humano a escutar outro.

 

Na Quaresma que agora iniciaremos, sejamos capazes de ser escuta genuína.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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