Para além do Fado ou do Cozido à Portuguesa...
«O amor e a amizade conhecem a possibilidade de um fim, de uma queda; a fraternidade não, porque somos irmãos e irmãs para sempre, e ninguém escolhe os seus irmãos e irmãs. Mas este estatuto de fraternidade é simultaneamente um dom e uma tarefa; estamos na mesma ordem que a communitas, o lugar do cum-munus, no duplo sentido de "dom" e "dever" comum: como a comunidade, a fraternidade é também a partilha do dom, do dever e da responsabilidade, e na fraternidade também existe uma dívida que cada pessoa sente para com as outras.»
Enzo Bianchi, in: “Fraternità”, Einaudi 2024
Para além do Fado ou do Cozido à Portuguesa, existe uma marca de excelência do Made in Portugal: a Solidariedade!
Tanta generosidade partilhada por estes dias na região afetada pela depressão Kristin, é a expressão máxima desta característica do ser português. Podemos apontar falhas ou até aproveitamentos, mas o facto de milhares de pessoas doarem o seu tempo e as suas coisas de uma forma espontânea, mais ou menos organizada, à ajuda a esta população é a evidência da fraternidade gratuidade que, no fundo, sentimos da própria vida.
Embora seja verdade que temos pouca influência nos jogos diplomáticos globais, é igualmente verdade que, se se disser "Portugal" em muitos cantos remotos do mundo, o nosso país é associado a "Fátima, Amália, e ultimamente, Ronaldo e boa comida," mas também à generosidade e ao altruísmo.
Esta solidariedade está, em muitos casos, enraizada na fé católica. No passado, os protagonistas destas iniciativas de caridade eram sobretudo instituições religiosas e missionárias. Hoje, são leigos, associações e movimentos. O problema é que este exército desarmado e desarmante tende a diminuir. Como Portugal, temos a responsabilidade de manter viva esta história. Não falo de um privilégio: é uma dádiva recebida. Um talento que, como tal, não deve ser ostentado nem reivindicado, mas antes colocado ao serviço de todos.
A solidariedade é um requisito essencial para a comunhão. A solidariedade, ou seja, o cuidado e a proteção mútuos, é talvez a experiência mais comprovada da fraternidade verdadeiramente vivida. A começar na família, que é o principal espaço de solidariedade, o lugar em que cada gesto ou comportamento exige reciprocidade, para que cada um possa sentir o cuidado e a proteção do outro, passando pela escola até alcançar a comunidade local, nacional e global.
E por escrever este texto no dia de Nossa Senhora das Candeias, 30º Dia Mundial da Vida Consagrada, quero fazer notar que há um Portugal que muitas vezes esquecemos, mas que deveria ser recordado. Refiro-me ao Portugal formado por missionários, voluntários e trabalhadores humanitários. Certamente, não partem para as periferias do mundo para afirmar a superioridade portuguesa. Pelo contrário, tendem a identificar-se tão profundamente com os povos com quem convivem que adotam as suas expressões e até os seus gestos. Independentemente dos seus erros e fraquezas, é um facto que a sua presença deixa o mundo um pouco melhor do que o encontraram.
____________________________
