Escreveu-me um jovem...

Crónicas 27 janeiro 2026  •  Tempo de Leitura: 4

«Frequento o quinto ano da universidade e terminei a época de exames no cume de uma crise que se arrasta há meses. Não estou feliz, triste, zangado ou nervoso. Nada disso. É-me indiferente o que aprendo. Sinto-me desumanizado. Sinto-me um computador que atingiu um resultado, escravo de um sistema que nos diz para fazer as coisas num determinado tempo e nós fazemo-las, sem grandes perguntas. Mas o problema não é o sistema ou a faculdade, é que, aos 23 anos, sinto-me inútil para mim e para os outros. É verdade que, pela primeira vez, o meu mal-estar não é culpa de alguém ou de alguma coisa, mas é minha e do que faço. É a primeira vez que me pergunto o que realmente quero fazer».

 

Tanto como professor ou como animador de grupos juvenis, venho encontrando muitos jovens que mergulharam nesta apatia. Como sair dela?

 

A resposta já está nas suas palavras. Ele sabe que, pela primeira vez, a sua dor não se projeta para fora, mas é interior. E é aqui que devem ter origem as mudanças reais e duradouras na nossa vida. Tornar-se apático, ou seja, sem paixão, significa ter perdido aquilo por que vale a pena viver. Apático é quem, à pergunta "por quem ou pelo que estarias disposto a dar a vida?", responde: nada ou ninguém.

 

Não saber ou não poder dar a vida é uma das origens da apatia de tantos jovens. Outros reagem com a raiva. Os pensamentos suicidas, típicos do adolescente, nascem precisamente do sentir que a própria vida é supérflua, inútil. Não têm um porquê e, ou um para quê.

 

A pergunta do jovem: “o que é que eu quero realmente fazer” significa “o que é que eu quero realmente fazer de mim”. A cultura em que estamos mergulhados, onde as imagens da pobreza do mundo passam no mesmo tempo em que somos convidados a comprar o que não nos serve, repete-nos obsessivamente o que nos falta... E como pode valorizar a vida quem se convence de que não tem nada para dar?

 

Com a ajuda dos adultos, os jovens podem dar a volta. Em vez de se encaminharem para a autodestruição, podem caminhar para a construção do seu eu. 

 

A verdadeira fragilidade da nossa sociedade reside na incapacidade dos educadores, a começar na família, em proporem valores verdadeiros às novas gerações. Nesta ausência de valores, reina o relativismo.

 

Por esta razão, parece-me essencial que os adultos eduquem as gerações mais jovens a questionar e a abrir os olhos para a essência da vida. Ao reconhecer o bem, o belo e o justo, a pessoa é chamada a tomar uma posição e a abraçar ou rejeitar os valores propostos, a reconhecer a dignidade do outro.

 

Existo uma só vez, então vale a pena tornar-me quem sou. Este é o caminho a propor a estes jovens. Caminho interior. Caminho de descoberta do eu: conhecer e valorizar as suas qualidades; reconhecer e trabalhar as suas imperfeições. É um caminho que começa por dentro, e só depois os leva aos outros. Quem sou eu e por quem ou pelo que vale a pena eu existir? Quem precisa de mim?

 

Então perceberão verdadeiramente o “ama o próximo como a ti mesmo”.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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