Quando é que a vida está viva?
Como é que encaramos a morte? Não só a nossa mas também a do outro. A razão desta minha interrogação está bem fresca. Ontem fui ao funeral de um bebé. Só estava eu e o diácono permanente. Não tinha lá os pais e nem sabia o nome. Não interessa o nome! Foi o primeiro assim. Incomodou-me. Já o esperava, mas não estava, não estou pronto...
Encaramos a morte alheia com medo, luto, tristeza, resignação e, muitas vezes, raiva. Quando são crianças ou jovens, parece que nos falta a emoção, o sentir anda perdido. Crianças ou jovens, todos, não deveriam morrer antes daqueles que os geraram.
Existe uma palavra para quem perde os pais: órfão. Não há para quem perde um filho. Conheço tanta gente que vive assim, num vazio emocional. Num vazio de palavra, de semântica. Num vazio de existência.
É verdade que a longevidade não é de modo algum sinónimo de felicidade, mas a morte prematura interrompe essa ideia quantitativa que temos da vida: “Desejo-te uma vida longa e feliz!”...
Mas como compreender esta realidade? Como viver esta ausência? Como aceitar esta tragédia?
Creio, como ouvi numa homilia de um funeral de uma criança de dois anos, que temos que nos agarrar ao tempo vivido com o ser que partiu. Não se trata de anos, mas da vida dentro dos anos que partilhamos; que demos; que recebemos. Esta vida conforta-nos, porque vida, porque viva.
E quando é que a vida está viva?
Quando não tememos a morte, ou seja, quando nos apropriamos de uma vida que já é eterna.
E como se alcança esse nível?
Quando nos conectamos com o nível ao qual ela pertence: o espiritual.
O que é isso? Onde se encontra?
Os animais são pura natureza, não possuem vida espiritual, não desejam a imortalidade nem compreender a vida. Simplesmente vivem. Há algo mais em nós. Não agimos por instinto, mas por escolha, a ponto de podermos sacrificar as nossas vidas para salvar outras. Isso porque, para nós, viver não é apenas respirar. Queremos sentir a vida, queremos que ela tenha significado, queremos arriscá-la, partilhá-la. Não nos basta fazê-la durar até nos cansarmos. Há algo mais profundo em nós do que a simples natureza, preservar e reproduzir. Somos "à imagem e semelhança de Deus", É uma forma de dizer que dentro de nós existe uma vida espiritual da qual depende a nossa vida biológica.
Amar como Deus ama é o caminho. O caminho da Graça. O caminho do amor. O caminho para estar vivo em qualquer idade, e é um dom que Deus dá a todos, mas que se ativa somente naqueles que livremente o acolhem.
Creio ser este o caminho para compreender, aceitar e continuar a viver.