A Bíblia sempre pôde ser usada para tudo?
A Bíblia serve para tudo? Esta reflexão vem a propósito do que ouvi ao longo destas últimas semanas por causa das eleições presidenciais.
A Bíblia sempre pôde ser usada para tudo. Para amar ou para odiar. Quem o faz pode ser crente ou não crente. E a pregação fundamentalista ou o evangelho do ódio, tão predominantes hoje em dia, visam tanto os crentes como os não crentes.
Se for feito pelos cristãos, ditos de praticantes, cabe à Igreja a preparação para uma verdadeira interpretação das Escrituras Sagradas. Quanto mais robusta for a sua capacidade de compreender estas, melhor se poderão imunizar os seus fiéis contra tendências extremistas ou segregacionistas.
Não é verdade que, seja qual for o uso que se faça das Sagradas Escrituras, seja sempre algo bom. Porém, ao mesmo tempo, não há nada como a Bíblia que, ao ser lida, liberte o leitor de uma certa adolescência a que os biblistas normalmente chamam de espiritualidade infantil. Para crescermos na fé e na adesão pessoal a Deus, temos que nos relacionar com a Sua Palavra.
O uso e abuso político da Bíblia, é um problema teológico e eclesiológico. A catequese, a partilha da Palavra, a oração e meditação da Palavra. tem que ser mais frequente para quem se diz crente. Os nossos ministros mais bem preparados, Teólogos, Bispos, Sacerdotes, Consagrados e Catequistas, têm que proclamar mais e melhor a Palavra sem tantos moralismos e tantos fatalismos. Essa seria a verdadeira vacinação para os surtos virais da Política.
«A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo. Sempre as considerou, e continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; elas, com efeito, inspiradas como são por Deus, e exaradas por escrito duma vez para sempre, continuam a dar-nos imutàvelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir a voz do Espírito Santo através das palavras dos profetas e dos Apóstolos. É preciso, pois, que toda a pregação eclesiástica, assim como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura. Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Por isso se devem aplicar por excelência à Sagrada Escritura as palavras: «A palavra de Deus é viva e eficaz» (Hebr. 4,12), «capaz de edificar e dar a herança a todos os santificados», (Act. 20,32; cfr. 1 Tess. 2,13).» Dei Verbum 21
Não se pode ignorar as Escrituras e contentar-se com a espiritualidade. O oposto de ouvir a Palavra não é o agnosticismo, mas a tentativa de improvisar construções espirituais do tipo “Do it yourself”, faça você mesmo.