Manifestação
«O QUE ME PREOCUPA NÃO É O GRITO DOS MAUS, MAS O SILÊNCIO DOS BONS»
Martin Luther King
A 6 de Janeiro é a Epifania, ainda que em Portugal o tenhamos celebrado no domingo passado.
O episódio da visita dos magos ao Menino em Belém, contado no evangelho de Mateus, é de grande beleza, que se tornou muito popular entre os cristãos. Ao longo dos séculos foram acrescentados pormenores que nada têm a ver com o texto de Mateus. O evangelista não pretende descrever a visita destas personagens a Belém, se a houve, mas sim apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação a todos os seres humanos. É a Manifestação de Jesus.
Manifestar significa agarrar a realidade com as mãos e mostrá-la. A etimologia de manifestus, quer dizer evidente, claro, literalmente "apanhado com a mão". É o ato concreto de arrancar algo à invisibilidade, tornando-o manifesto. Toda a manifestação — nas ruas, de fé, de indignação ou de esperança — é este gesto claro: aqui está!
Em tempos em que o conflito parece normal, em que o desrespeito pelo bem comum notório, manifestar-se torna-se um ato de liberdade e consciência, até mesmo de responsabilidade. Não é garantia de pureza de intenções ou objetivos. Sabemos que, por vezes, os métodos degeneram, a ideologia manda, o extremismo e os excessos mancham a causa. Mas, mesmo com todos estes riscos, manifestar-se continua a ser uma escolha que rompe com a apatia e mina o individualismo que nos faz ser meros espetadores distraídos. Como disse Martin Luther King: «O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.»
É fácil cair no isolamento. Concentrá-mo-nos nos nossos interesses, nos nossos medos, convencemo-nos de que nada pode mudar. Manifestar é o antídoto. É um "estou presente" que supera a sensação de impotência, de incapacidade.
A própria palavra transporta um gesto essencial: apreender uma verdade fugaz e trazê-la à luz. Assim, cada vez que uma voz se ergue numa praça, uma marcha atravessa uma cidade, uma oração de esperança ressoa num país em guerra, algo que de outra forma permaneceria oculto é revelado: a necessidade de paz, a sede de justiça, a possibilidade do bem comum.
Manifestar é lembrar que a verdade ainda pode ser revelada. É uma declaração, individual ou em grupo, de que a bondade não se perde enquanto houver quem tenha a coragem de a tornar visível.
E não é isto que Mateus pede aos seguidores de Jesus Cristo, no episódio dos Magos?
p.s. Hoje encerra-se o Jubileu da Esperança. Obrigado, Papa Francisco.