A Criação precisa de 𝘾𝙪𝙞𝙙𝙖𝙙𝙤!

Crónicas 12 setembro 2023  •  Tempo de Leitura: 6

A destruição provocada pelo terramoto em Marrocos é assustador. É a imagem real da nossa fragilidade. E isso assusta-nos... Mas o que dizer daquela destruição que depende de nós?

 

Por vezes, tenho a sensação que já andamos um pouco cansados de tanto falar sobre os cuidados que temos de ter com a nossa casa comum. No entanto, os temporais; as tempestades; os furacões que foram notícia nestes últimos dias, ou os incêndios deste verão, dizem-nos mais uma vez que temos de mudar!

 

É urgente uma transição, uma conversão ecológica; uma mudança que faça caminho para o equilíbrio; um estilo de vida verdadeiramente sustentável.

 

Não é por falta de comunicação! Não há dia em que, nos mais variados contextos, não encontremos informação sobre as mil e uma mudanças que temos de operar no nosso quotidiano. Mas ao mesmo tempo, e talvez à força de repeti-lo, permanecemos nas palavras em vez de iniciarmos paulatinamente os passos nesse sentido. É quase depressivo concluir que: pouco se mudou! Ou pior ainda, nada mudou e que, portanto, é melhor nem tentar...

 

A mudança para a sustentabilidade integral, que muitas vezes é tema dos nossos debates, corre o risco de se tornar uma espécie de discurso culto, mas vazio. Falta-nos a coragem de ligar a necessidade de mudança à coragem de realmente mudar. Em nós mesmos, na nossa comunidade e no nosso estilo de vida social.

 

Quando a sociedade está sob stress, como foi a Pandemia, é claro para todos que vivemos além das possibilidades que a natureza nos permite. Sabemos também que, na base de tudo está a relação entre o homem e a natureza que parece doente. Doença essa, provocada pela atitude violenta e opressiva do ser humano. O sofrimento da natureza é evidente e deve ser escutado, mas a escuta deve transformar-se numa vida sóbria, justa e amorosa para com a Criação. 

 

Muitas vezes, pensamos que é suficiente fazer duas coisas: mudar a forma como abastecemos os nossos carros ou alterar o material usado nos nossos objetos. Ainda não percebermos realmente da extensão do que está em jogo. E que tudo tem a ver com o nosso futuro próximo e com o dos nossos filhos e netos.

 

O Papa Francisco, na “Laudato si”, destacou que o cuidado da Criação não está separado da justiça social. Tudo está conectado, tudo está em relação. A conversão ecológica passa, portanto, pelo “sentir-se responsável”pelos temporais, tempestades ou furacões, por aquilo que o Papa define como um grande vírus. A justiça social é crucial para uma mudança ecológica. Estamos num ponto de viragem e a humanidade é chamada a discernir e a planear o seu próprio futuro. Muito depende das escolhas que serão feitas pelos governantes e da responsabilidade de cada um de nós.

 

Percebe-se assim o lançamento da segunda parte da encíclica, anunciada à dias pelo Papa, para o próximo 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis: «Juntemo-nos aos nossos irmãos e irmãs cristãos no compromisso de proteger a criação como um dom sagrado do Criador. É necessário estar ao lado das vítimas das injustiças ambientais e climáticas, esforçando-nos por pôr fim à guerra sem sentido na nossa casa comum, que é uma terrível guerra mundial. Peço a todos vocês que trabalhem e orem para que ela possa voltar a abundar em vida».

 

Para Francisco, e para todos os de boa vontade que o apoiam neste tema, a ecologia integral continua a ser a pedra angular da atualização necessária e que deve ser prosseguida com todas as energias e recursos possíveis.

 

«Transformar os nossos corações, os nossos estilos de vida e as políticas públicas – propõe o Papa – que regem as nossas sociedades. Voltando a falar da conversão ecológica e da necessidade de não mais considerar a criação como um objeto a ser explorado, mas uma realidade a ser preservada como um dom sagrado do Criador».

 

O livro do Génesis diz: «O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e guardar» (Gén. 2,8). Por isso, o Criador confiou à humanidade a tarefa de cultivar e cuidar deste maravilhoso jardim!

 

O cultivo e o cuidado são uma bela síntese da missão do ser humano na terra, do sentido do seu trabalho, do seu compromisso ao longo da história, da finalidade do progresso, da tecnologia.

 

“Cultivar”, isto é, promover a nossa casa comum, tornando-a cada vez mais bonita, rica, funcional. “Cuidar”, isto é, defendê-lo de qualquer tentativa de manipulação, de apropriação egoísta, de exploração para fins económicos que penalizem sobretudo as camadas mais pobres e mais fracas do nosso planeta.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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