Os loucos que guiam os cegos

Crónicas 25 março 2023  •  Tempo de Leitura: 2

Sei que todos temos um pouco de loucos, e outras vezes somos possuídos pela loucura que nos transforma os pensamentos e atitudes. Mas recentemente ouvi a expressão” um louco a conduzir cegos” e dei por mim a identificar um punhado de situações em que sinto que isso acontece e, não propriamente no sentido positivo.

 

Sabes quando temos alguém num grupo que fala mais alto que os outros e impõe o seu ponto de vista? Que seja um louco! Mas não será pior os cegos que não conseguem unir-se e dizer- “não está bem, não é assim”! E os poucos cegos que ousam tentar ver melhor são obrigados a desistir e a sair do grupo porque o louco não quer ouvir e os outros cegos não querem ver. E assim vai o mundo - feliz e contente.

 

Os loucos que dominam um conhecimento, e que por tal, acham que devem ser os pensadores e impõem a sua sabedoria. Os outros cegos, com comodismo e para não importunar o poder preferem seguir a liderança medíocre do que tentar aprender o mesmo que o outro faz e tentar fazer melhor. Preferimos ser cegos! “Deixa lá- não te chateies”, dizem uns cegos para os outros, deixa-o fazer, ele faz tão bem! “E o resto? Deixa lá- depois vê-se”. E assim vai o mundo-feliz e contente.

 

Têm de ser loucos os que assumem grupos, presidências, equipas, têm de ser loucos de amor. Que sejam loucos, ao pôr ao serviço dos outros o que bom sabem, sem medo de perder estatutos ou posição.

 

Que sejam loucos na busca, nos outros, de talentos melhores que o seu e o ponham a render, e a ser luz dos outros sem medo de perder o seu próprio brilho.

 

E os cegos? Esses são os mais culpados das loucuras de tantos, porque se calam, consentem e não procuram ver mais longe. Preferem a miopia ao trabalho. Preferem a mediocridade ao confronto de ideias. Preferem perder um cego, que é mais capaz, do que a lutar contra um louco incompetente. E assim vai o mundo-feliz e contente.

 

Pois eu prefiro um cego, que quer ver, do que um louco que não quer ouvir. Eu prefiro um humilde, que pouco sabe mas quer aprender, do que um mestre que não quer ensinar.

 

E tu amiga, que loucos e cegos conheces?

Raquel Rodrigues

Cronista "Cartas a uma amiga"

Raquel Rodrigues nasceu no último ano da década 70 do século passado. Cresceu em graça e em alguma sabedoria, sendo licenciada em Gestão, frequenta o mestrado em Santidade: está no bom caminho!

Aproveita cada oportunidade para refletir sobre os sentimentos que as relações humanas despertam e que, talvez, sejam comuns a muitas pessoas. A sua escrita é fruto da vontade de partilhar os seus estados de alma com a “amiga” que pode bem ser qualquer pessoa que leia com disposição cada uma das suas cartas.

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