Tempo gerado

Crónicas 1 dezembro 2022  •  Tempo de Leitura: 6

«Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.» — dizia Antoine Lavoisier, um cientista do século XVIII que percebeu o modo como podemos chegar ao tempo gerado. O filósofo grego Aristóteles terá sido o primeiro a ponderar o problema do tempo e a formular que o tempo é a medida da mudança. Depois, no seu livro sobre "A Ordem do Tempo", o físico Carlo Rovelli desenvolve uma ideia relacional de tempo reconhecendo que — «o mundo não é como um pelotão que avança ao ritmo de um comandante. É uma rede de eventos que se influenciam reciprocamente.»Portanto, damo-nos conta do tempo na medida em que nos relacionamos com os outros (cada um com o seu tempo próprio), e com tudo à nossa volta. Mas a ideia mais desconcertante li durante as férias de 2021 no livro "O Fim do Tempo" do físico Julian Barbour — «A física deve ser refeita sob uma nova fundação na qual a mudança é a medida do tempo, e não o tempo a medida da mudança.» Por isso, a ideia subjacente é simples — Queres gerar tempo? Muda. — Porém, isso é o que acontece ao longo da vida.



Adrian Bejan é professor na Universidade de Duke no EUA e criador da Teoria Construtal, um dos meus tópicos de investigação. Em 1982, aos 33 anos, Bejan rompeu um dos tendões de Aquíles durante um jogo de basquetebol e ficou um semestre inteiro numa cadeira de rodas. Forçado a escrever as aulas que iria leccionar em transmissão de calor para serem projectadas aos alunos, uma vez que não o conseguia fazer no quadro, tornou-se o ponto de viragem que o levou a escrever um livro de referência na minha área de ensino. Dizia que — «Havia tanto tempo e criatividade durante a Primavera de 1982, tudo por causa de um acidente. A mudança é a chave. A mudança impressiona. A mudança impulsiona a mente criativa. (...) Mudança é o modo como desaceleramos o tempo da mente.» — Por "tempo da mente", Bejan refere-se a uma sequência de imagens que aparecem na nossa cabeça estimuladas pelos orgãos sensoriais. Cheira-te a canela, surge a imagem de um belíssimo arroz doce. Como a velocidade com que estas imagens mentais aparecem na nossa cabeça diminui com a idade (frequência dos movimentos sacádicos, o tamanho do corpo, envelhecimento das redes neuronais), a sensação que as pessoas com mais idade tem é a de os dias parecem mais curtos. Pelo contrário, as pessoas que mais experimentam eventos de mudança são a que sentem viver durante mais tempo. No seu livro "Tempo e Beleza", Bejan afirma que — «Novas experiências são a receita para desacelerar o tempo e fazer mais com o tempo que temos. (...) A mudança é a fonte do sentimento de que vives mais tempo.» — Ou seja, quem não muda, tem a sensação de que morrerá antes do tempo dos outros. Mudança ou transformação (termo que prefiro) é o segredo do tempo gerado.


Todos os dias, o facto de tudo estar relacionado com tudo, significa que ser transformado interiormente, e por tudo o que acontece à nossa volta, tornou-se numa situação inescapável. Porém, como muitos estão ainda alinhados com o sentido proposto pelo pensamento aristotélico de que o tempo é a medida da mudança, centram-se mais no tempo de fazer (ou não) as coisas, do que naquilo que queremos ver transformado na nossa vida e que nos leva a experimentar o tempo. Por isso, viver o tempo gerado implica uma inversão de sentido.



Se como diz Barbour, a mudança é a medida do tempo, e pela experiência que temos, sabemos que as transformações são cumulativas, quanto mais nos deixarmos ser transformados, melhor e mais intensa será a experiência do tempo gerado. 



Quando chegamos a um ponto da nossa vida em que deixamos de desejar fazer experiências novas que nos podem transformar, abrir horizontes, mudar de perspectiva sobre as coisas, conhecer coisas novas ou desenvolver novas capacidades, acabamos por "parar no tempo". Não evoluímos e há quem esteja conformado com isso. Se estiveres a rever-te mais nesta situação, peço-te um favor, desconforma-te. Tens ainda tanto tempo para viver.



A crisálida que se vê alberga a borboleta que não se vê, mas habita no seu interior enquanto se transforma. A borboleta que cada um de nós, metaforicamente, sempre tem a possibilidade de ser. Quem trabalhar pouco o tempo gerado pela diminuição ou recusa das oportunidades de viver transformações, viverá menos tempo ou, pelo menos, será isso que sente. — «Estou velho.» — Não é preciso mexer-se muito para "rejuvenescer" e deixar-se transformar. Basta por de lado aquilo que na vida é trivialidade e focar-se no desenvolvimento da criatividade. Essa é uma das maiores fontes de transformação humana interior e exterior.

 


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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