Atenção devota

Crónicas 27 outubro 2022  •  Tempo de Leitura: 6

«A atenção é o início da devoção.» — Mary Oliver

A poetisa Mary Oliver não é a única a ligar a atenção a uma postura orante e de devoção. Mas todos reconhecemos como as pessoas podem ser devotas de outras coisas que não sejam de teor espiritual. Podemos ser devotos à família, ao trabalho, a uma actividade artística, mas o traço comum nessas pessoas é a qualidade da sua atenção. Uma atenção devota. 

Num mundo em que todos sentimos a necessidade de atender a tantas coisas ao mesmo tempo, podemos não nos dar conta de como isso pode ser impossível ou desastroso. Por exemplo, é impossível estar em duas reuniões Zoom ao mesmo tempo e ter uma atenção devota a cada uma. Um outro exemplo será o desastroso acto de conduzir um carro e estar simultaneamente a enviar mensagens através do smartphone, sabendo que a muitas pessoas, isso custou a vida de outros ou a sua própria vida. Uma cultura humanizante na Era Digital exige, de cada um, o desenvolvimento para a capacidade de uma atenção devota. Porém, essa é particularmente importante nos relacionamentos com os outros quando aliada à psicologia do interesse

psicologia do interesse é uma área do conhecimento relativamente recente onde existe, ainda, pouco trabalho. É distinta da psicologia da auto-estima porque essa dirige-se ao próprio, enquanto o interesse implica sempre um relacionamento com outra pessoa ou um grupo. Quando no interessamos verdadeiramente pelo outro, estamos atentos ao que diz, sente, ou faz, despertando a nossa curiosidade pela sua pessoa. Uma atenção devota neste caso não se dirige ao outro, propriamente dito, mas ao relacionamento com ele. Porém, será que numa cultura permeada de distracções, ainda é possível prestarmos, realmente, atenção seja ao que for?

«Ama o próximo como a ti mesmo.» - O interesse próprio é a direcção mais natural para a atenção devota. Mas se se ficar por aí, cai-se no egoísmo. Aprender a prestar atenção às nossas necessidades é somente uma experiência que nos deveria sensibilizar para as necessidades dos outros e imaginar o que seria colocarmo-nos na sua pele. Ninguém gosta de se sentir insignificante ou esquecido pelos outros. Por isso, o modo como prestarmos atenção à nossa pessoa será o modo como prestaremos atenção à pessoa do outro. A atenção devota pode ajudar-nos a compreender o outro como um terreno sagrado. Dentro de si habitam realidades que vão para além de si mesmo, e que só uma atenção devota permite descobrir.
Uma vez ouvi — «Quem ama a sua comunidade, destrói a comunidade. Mas quem ama as pessoas, constrói a comunidade.» — Ter uma atenção devota à comunidade passa pelo olhar e sentir que reconhece o valor da diversidade daqueles que dela fazem parte. Quando alguém não está bem, todos notam. E se isso não acontece, significa haver um défice de interesse uns pelos outros que se reflecte na vida de toda a comunidade. A atenção devota a cada um, praticada por todos, faz de todos, um só e mesmo coração. É a atenção como forma de generosidade mais pura e rara como dizia Simone Weil. Porém, a atenção devota pode ter um lado negro.

A atenção devota pode levar ao exagero quando se converte numa “adoração” desequilibrada dirigida a alguém em particular, ou quando associamos o empenho à pessoa. Isto é, quantos de nós não tínhamos os olhos e sorrisos daqueles que nos rodeavam quando desempenhávamos um papel de destaque na nossa comunidade, e ver o desviar dos mesmos olhos e sorrisos quando deixámos esse empenho? Parece-me que deveríamos estar mais atentos a essas situações e evitá-las. Todos nascemos para amar e ser amados, não adorados ou “endeusados”. E, talvez, olhar para o ambiente que nos rodeia nos ajude a ser equilibrados na atenção devota.

Existe um exercício matinal de pausa que me ajuda a treinar a atenção devota: olhar pela janela. Para quê? Por ser um gesto exterior cujo o fim último acaba por ser um olhar interior. 
A contemplação do ambiente e vida que nos rodeia através da janela é como se toda a luz reflectida pelos objectos trouxesse à vista as cores, a serenidade, e a oportunidade de sincronizar o nosso interior com os valores que realmente importam. O vaguear da mente parece ser o oposto da atenção devota àquele momento, mas isso reflecte apenas que a direcção do olhar para a interioridade que não se vê, ou se faz sentir pelo nosso silêncio contemplativo, é aquela que permite explorar a natureza dos nossos pensamentos. Diz o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi que «existem, literalmente, milhões de potenciais coisas interessantes para ver no mundo, para fazer e aprender. Mas essas não se tornam realmente interessantes até que lhe dirijamos uma atenção devota.»


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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