Ritmar juntos

Crónicas 24 setembro 2022  •  Tempo de Leitura: 6

As coisas do espírito serão somente imateriais? Há quem pense que sim, mas talvez seja incompatível com o facto de sermos materiais e da impossibilidade de separar a percepção das coisas do cérebro que as percepciona. Se o corpo afecta o nosso espírito (e todos sentimos isso), por que razão não haveria Deus agir no nosso corpo pelo Seu Espírito? Corpo e espírito estão intrinsecamente ligados e os neurónios ajudam a compreender essa ligação. Basta pensar quando cantamos juntos na missa. 

Se ao cantarmos juntos na missa e alguém começar a movimentar-se ao ritmo do cântico, o mais comum é ver quem está ao seu lado a movimentar-se também. É um fenómeno com um nome muito comum em mecânica dos fluidos, mas cuja palavra se adapta bem a este aspecto — arrastamento. Mas existe um segundo fenómeno físico — a sincronia interacional que diz, especificamente, respeito a um gesto espelhado. Por exemplo, se durante o cântico, alguém sorrir para ti, é natural começares também a sorrir. E tanto o arrastamento, como a sincronia interacional são expressão de algo que está a acontecer fisicamente dentro das nossas cabeças.

O neurcientista William Benzon no seu livro ”Bethoven’s Anvil” diz que — «quando duas pessoas fazem música juntas, e realmente escutarem o que cada uma está a fazer, elas partilham o mesmo padrão de actividade neuronal. (…) O que torna possível esta comunhão sonora é que todos os sistemas nervosos distintos são feitos a partir do mesmo molde, e todos estamos sintonizados aos mesmos padrões de som.» — O que sentimos nestas experiências resulta da libertação de oxitocina que elevam o nosso sentido de amizade recíproca e das nossas ligações sociais. É como se ajudasse a baixar algumas barreiras da nossa timidez para abrir o que sentimos ao que o outro sente, despertando nos dois a empatia.

O conhecido axioma de Hebb diz que os neurónios que disparam juntos, conectam-se juntos. Por isso, quando estamos juntos a cantar para Jesus, os nossos cérebros começam a sincronizar e a alterar-se reciprocamente. Não deixa de ser curioso que esta experiência não se consegue fazer por Zoom. E, de facto, recordo-me de quando procurámos em comunidade rezar juntos o terço e cantar, mas a incapacidade de manter o som que provém do computador de todos ligado, levava a assincronias que perturbavam o momento. Mas o mesmo pode acontecer se estivermos com alguém ao telefone. O som é melhor, mas não é a mesma coisa do que se estivessemos fisicamente juntos. Os estudos apontam para a dificuldade (ou impossibilidade) da mediação digital levar-nos a experiências autênticas de arrastamento e sincronia interacional. Mas isto parece dizer-nos algo mais sobre a acção do Espírito.
Ao contrário da ideia de que as coisas do Espírito afectam apenas o que é imaterial, o que parece estar a acontecer é que o Espírito encontra através dos nossos cérebros uma forma de nos fazer sentir e sermos transformados em “um só corpo”. A experiência de ligarmos juntos e reciprocamente os nossos neurónios, por exemplo, através do dito cântico, une-nos corporeamente e realiza em nós transformações profundas e irreversíveis porque, depois de cantarmos juntos, o nosso cérebro já não é o mesmo. 

É claro que muitas pessoas podem tentar manipular-nos fisicamente usando o axioma de Hebb, exercendo pressão sobre nós e, por isso, importa estarmos vigilantes. Isto é, o que fazemos juntos quando cantamos pode incomodar-nos e não condizer bem com a nossa personalidade. Por exemplo, quando um cântico tem gestos e não gostamos de nos expôr assim. Porém, se estivessemos num campo de futebol e se fizessem os mesmos gestos, não entraríamos na onda?

Ritmar juntos pode abrir uma janela de oportunidade para que o Espírito de Deus trabalhe o nosso coração e o cérebro, e através delse, o coração e cérebro daqueles que nos rodeiam. E o ritmo que vivemos juntos constrói os laços relacionais que geram ondas culturais que mudam realmente o mundo. É Deus a agir no mundo através do nosso ritmar juntos. 
Numa era da individualização digital, cantarmos juntos, nem que seja desafinados (podemos fazer isso juntos também) é um sinal para o mundo de que somos corpos espiritualizados pela relacionalidade vivida presencialmente. Durante a pandemia, ou quando estamos doentes e, necessariamente, mais isolados, a comunicação digital ajuda, mas é um subsídio. Não pode tornar-se a norma como parecia (ou parece) estar (ainda) a acontecer. 
Ritmar juntos sincroniza os nossos corpos e, misticamente, sincroniza tudo quanto somos porque juntos seremos sempre mais autênticos, melhores e sentiremos a inequívoca presença de Jesus entre nós.

 


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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