Método psico-físico

Crónicas 18 agosto 2022  •  Tempo de Leitura: 6
Existem algumas pessoas preocupadas com aquelas que fazem “yoga cristão”. Eu também estaria, mas não pelos mesmos motivos. A filosofia subjacente ao yoga difere da cristã em muitos aspectos. Por isso, o cristão que faz yoga centra-se no seu aspecto ginástico. É curioso que a maior parte dos cristãos que fazem yoga vivem num contexto urbano, logo, a utilidade do yoga como exercício de ginástica psico-física deve-se à perda do contacto com uma vida natural. Não seria de ponderar recuperar essa vida natural em vez de fazer yoga? Nem sempre é possível. Porém, sabiam que muitos dos exercícios do yoga eram já praticados pelos monges da antiguidade? Chamavam-lhe de hesicasmo.

hesicasmo é um método psico-físico de oração pessoal cuja palavra grega que lhe dá origem — ἡσυχία (hesychia) — significa calma, paz, quietude, tranquilidade. Os hesicastas viviam em solitude (não em solidão) por estarem imersos num ambiente natural e praticavam o controlo dos pensamentos no sentido de uma vigilância interior. Nicéforo, um monge de origem italiana inventou um método psico-físico para facilitar a oração que utiliza algumas posições do corpo e centra-se na oração de Jesus. Diz Nicéforo —
«Em seguida, sentado numa cela tranquila, num canto, faz o que te digo: fecha a porta e eleva o teu intelecto para além de todos os objectos vãos e temporais, de seguida, apoiando o queixo sobre o peito e focando o olho corporal, juntamente com todo o intelecto, sobre o meio do ventre ou no umbigo, comprime a passagem de ar que passa pelo nariz, de modo a restringires a respiração, e explora, com o intelecto, o interior das entranhas, para aí encontrares o lugar do coração, onde todas as potências da alma gostam de permanecer. No início, encontras uma treva e uma resistência, mas perseverando e praticando esta ocupação dia e noite, tu encontrarás, ó maravilha, uma felicidade sem limites. Logo que o intelecto encontre o lugar do coração, vê aquilo que nunca havia conhecido; porque vê o ar que existe no centro do coração, e ver-se-à a si mesmo todo luminoso e repleto de discernimento e, doravante, logo que um pensamento desponte, antes que se complete e tome uma forma, pela invocação de Jesus Cristo será perseguido e anulado.» (cit. in “Metafísica da luz e a absorção do corpo pelo Espírito no pensamento de Gregório Palamas”, tese de Doutoramento de Patrícia Calvário, UP, 2019, pp. 103-104)
Um método de controlo dos nossos pensamentos e da nossa atenção, mas como adaptar esta experiência à vida urbana para que se naturalize? «Orai sem cessar» (1 Tes 5, 17).

Existem uma oração intemporal e incessante que nos ajuda sempre a reconhecer a nossa pequenez e o quanto desejamos estar unidos a Deus. É uma oração que pode-se dividir em quatro partes — ”Senhor” — “Jesus Cristo” — “tem piedade” — “de mim.”
  • Se estiveres num espaço e momento com alguma privacidade, seja em que lugar for, recita com a boca esta oração fazendo um pausa entre cada parte.
  • Se estiveres com outras pessoas, mas podes estar em silêncio (por exemplo, num transporte público), sem moveres os lábios, recita a oração com a língua.
  • Se estiveres num ambiente silencioso e tranquilo (por exemplo, numa Igreja), identifica o teu batimento cardíaco e cada batimento pensa em cada parte da oração. 
Neste método psico-físico adaptado, o significado é profundo, pois, ligado a cada batimento cardíaco, a oração torna-se inseparável da vida.

Os hesicastas possuiam uma vivência espiritual mais associada a uma cultura oriental. Como diz o cardeal Tomás Spidlík no seu livro sobre a “Arte de Purificar o Coração” — «O ocidental, em qualquer evento, concentra a sua atenção na descoberta da relação entre causa e efeito. A atitude dos orientais é diferente. Diante daquilo que acontece, esses questionam-se: “O que pode significar aquilo que estamos a observar? De qual realidade escondida pode ser um símbolo?» (“L’arte di purificar il cuore”, Lipa, 1999, p. 71). É por este motivo que o “yoga cristão” pode tornar-se numa cultura ginástica para contemplativos, mas, e se pudesse ser algo mais como no método psico-físico dos hesicastas? Algo mais profundo?
Ao experimentarmos o método psico-físico dos hesicastas na vida quotidiana podemo-nos perguntar: que significado pode ter o batimento cardíaco? Que realidade profunda se esconde em cada respiração? Quando sinto calor, que significado pode ter? 

Nem sempre podemos estar imersos em ambientes naturais. Passeamos pelas ruas da cidade, andamos de metro ou autocarro, estamos sentados na mesa do escritório à espera que um processo acabe no computador ou estamos numa fila de espera. 

Inúmeras são as situações onde o nosso corpo e a mente (juntos fazem o coração, ou seja, todo o nosso ser) encontram um momento de solitude, ainda que estejamos rodeados de pessoas. E se deixássemos o telemóvel no bolso e aproveitássemos para “orar sem cessar”?


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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