Maria escolheu a melhor parte?!

Crónicas 19 julho 2022  •  Tempo de Leitura: 4

Nas minhas últimas crónicas tenho-me referido, por diversas vezes, à coerência de vida. O evangelho do passado domingo, suscitou-me novamente este desejo de seguir Jesus à séria.

 

Ser coerente é colocar em prática as ideias ou valores que defendo. Um cristão coerente é aquele que vive na realidade, ou procura viver no seu quotidiano, a mensagem de Jesus Cristo em quem acredita e quer seguir.

 

«Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada». (Cf. Lucas 10 41-42)

 

O dilema de Marta e Maria alerta-nos para a necessidade de haver um equilíbrio entre o ser e o ter - neste caso, ter de fazer. Ou seja, Jesus ao responder a Marta da forma que o fez, não estava a dizer que as tarefas do dia a dia não eram importantes, mas que essas tarefas não nos podem tolher a razão por que as fazemos. Por isso, Maria escolheu a melhor parte.

 

De facto, não se trata de fazer menos para rezar mais, mas de fundamentar o caminho que percorremos pessoalmente e em comunidade, seja familiar, paroquial ou social, na relação com o Jesus, para que toda atividade seja uma necessidade irresistível do coração que, preenchido por Jesus Cristo, deseja celebrá-lo, conhecê-lo, anunciá-lo e testemunhá-lo com a sua vida, tornando visível a alegria de amar e de estar juntos, crescendo em humanidade e fé.

 

Precisamos de ir à nascente constantemente. O Papa Francisco tem alertado tantas vezes que a Igreja não é uma ONGD (Organização Não Governamental para o Desenvolvimento), que se dispersa em múltiplas atividades e serviços, mas "uma comunidade de pessoas encorajadas pela ação do Espírito Santo, que viveram e vivem a maravilha do encontro com Jesus Cristo e desejam compartilhar esta experiência de profunda alegria". (Cf. Discurso por ocasião da Jornada Mundial das Missões de 2013)

 

Há em nós, muito de Marta e de Maria. Porém, temos que começar por este encontro com Jesus. É preciso estar com Ele primeiro. O chamamento dos primeiros discípulos, no evangelho de João, é muito interessante.

 

"No dia seguinte, João estava lá de novo, com dois discípulos. Vendo Jesus que passava, apontou: «Eis o Cordeiro de Deus». Ouvindo estas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. Jesus virou-se e, vendo que o seguiam, perguntou: «Que procurais?» Eles disseram: «Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?» Jesus respondeu: «Vinde ver». Então eles foram e viram onde Jesus morava." Cf. João 1, 35-39)

 

Para sermos coerentes jamais poderemos esquecer onde nos alimentamos! E a vida de oração, a vida de contemplação não é fácil mas exigente. Por isso é que tantas vezes não somos levados a sério no nosso ter de fazer. Não porque o que tem de ser feito não seja importante ou necessário - não podemos esquecer a parábola do Bom Samaritano ou o envio dos 72 discípulos em missão, mas porque não anunciamos quem deveríamos anunciar e ficámos por uma autopromoção, uma procura de fama ou reconhecimento, que tantas, mas tantas vezes é motivo de escândalo para os gentios.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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