Oceano

Crónicas 26 maio 2022  •  Tempo de Leitura: 7
«Que inapropriado chamar a este planeta de Terra quando é, claramente, Oceano» — uma frase atribuída a Arthur C. Clarke. Se 71% do nosso planeta é coberto de água, não terá lógica? Talvez por não vivermos no oceano, mas em terra, chamamos ao planeta em que “vivemos” de “Terra”. Mas os nossos oceanos são muito mais do que uma questão de nome ou quantidade. São um elemento fundamental na vida planetária e nesta semana dedicada à Laudato Si’, pensar nos oceanos é reconhecer que o nosso planeta azul vai muito para além da sua cor. 

No final de Junho de 2022, em Lisboa, as Nações Unidas terão a sua conferência dedicada aos oceanos. Esses abrigam 80% de toda a vida na terra, geram 50% do oxigénio que precisamos para respirar, absorvem 25% de todas as emissões de dióxido de carbono e (de modo impressionante) absorvem 90% do calor gerado por essas emissões. Daí que os furacões aumentem de intensidade, pois, é nos oceanos que se alimentam da energia que precisam para rodopiar e, infelizmente, fragmentar tudo à sua passagem. Mas ouvem falar nos oceanos para além do plástico que neles abunda? Temos tanto os olhos colocados sobre o espaço quando o universo aquático imenso parece que passa ao nosso lado. Não estará na altura de dar um mergulho criativo para conhecermos melhor os nossos oceanos e que impacte produzem da vida profunda?

Imaginem viver a maior parte do dia e da noite numa feira onde a cacofonia é uma constante. Não vos parece insuportável viver assim? Nos oceanos, a poluição sonora representa uma ameaça à sobrevivência de inúmeras espécies. Num artigo publicado em janeiro de 2020, uma equipa de investigadores coordenada por Jean-Baptiste Jouffray do Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade em Postdam na Alemanha, mostra como o crescimento exponencial desde os anos 1970 da aquacultura, exploração mineira, tráfego de contentores, cabos submarinos, turismo de cruzeiro, parques eólicos entre muitas outras actividades humanas, justifica estarmos em plena Aceleração Azul(Blue Acceleration). Esta expressão assemelha-se à “Grande Aceleração” que marca a influência decisiva da acção humana sobre as transformações ocorridas na face do planeta. Ou seja, as expectativas que as nações têm de fazer dos oceanos a nova fronteira de desenvolvimento económico é preocupante e devíamos estar cada vez mais cientes disso. Mas esta preocupação não é nova.

Em setembro de 2019, o papa Francisco pedia como intenção do mês que rezássemos pelos políticos, cientistas e economistas para que trabalhassem juntos na protecção dos mares e oceanos do mundo, ou seja, uma tomada de consciência antes da publicação do artigo referido anteriormente.
 
O papa chegou mesmo a propor uma oração específica pelos oceanos, mas nela vemos ainda a ideia de que Deus nos confia a criação como seus administradores ou guardiões. Creio que estas não são as expressões mais próximas da realidade profunda que representa sermos parte da família da criação. O cuidado da criação, incluindo os oceanos, como expressa o papa na Laudato Si’ no âmbito de um espiritualidade ecológica, implica não fazer do mundo natural um objecto de uso e abuso sem escrúpulos (LS, 215). E uma conversão ecológica que nos sensibiliza para o cuidado da criação não faz de nós seus administradores ou guardiões, mas cuidadores.
A melhor forma de cuidar de uma pessoa é conhecê-la bem por dentro e por fora, isto é, na interioridade do seu coração como da exterioridade do seu corpo. Assim, ser cuidador de um oceano significaria conhecer bem esse espaço relacional entre o vento, o sol, a água, os corais, as correntes, e todas as espécies que nele habitam. A interioridade dos oceanos provirá da experiência da presença de Deus que podemos fazer no relacionamento com esses, tal como experimentamos diante de um riacho e do cintilar da luz solar nas gotículas de água.

Contudo, não é fácil compreender o que pode ser uma experiência da presença de Deus somente pela contemplação de um oceano. É muito difícil vislumbrar qualquer sentido mais elevado para aquilo que nos parece ser, meramente, matéria. Mas isso pode dever-se ao modo materialista como concebemos os fenómenos evolutivos no mundo, mesmo que sejamos os mais convictos cristãos. No jesuíta Teilhard de Chardin talvez encontremos uma inspiração.

Em “A minha fé” (Editorial Notícias, 1998), Teilhard de Chardin diz —
«Uma Evolução à base de Matéria não salva o Homem: com efeito, todos os determinismos acumulados não são susceptíveis de dar uma sombra de liberdade. Em contrapartida, uma Evolução à base de Espírito conserva todas as leis verificadas pela Física, ao mesmo tempo que conduz directamente ao Pensamento: em boa verdade, uma massa de liberdades elementares em desordem equivale a algo de determinado. Ela salva, em simultâneo, o Homem e a Matéria.» (A Minha Fé, p. 123).
Antes de haver um ser vivo que pensasse, haviam oceanos. E todos recordamos, de um modo ou de outro, a imagem de como os seres vivos provieram dos oceanos. Nesse sentido, dentro dos oceanos estava o gérmen do pensamento. Daí que esta ideia perturbadora de Teilhard de que o Espírito seja a base da Evolução, enquanto se preserva tudo o que a Física verifica, aponte para a dimensão espiritual como intrínseca à História do Mundo, cujo aprofundamento pode levar-nos a experimentar a Unidade do Mundo através de uma Consciência que é material, mas assente numa base espiritual. Cuidar do oceano, mergulhando nos níveis mais profundos de significado que nele se escondem, talvez nos dê uma melhor percepção de que Espírito e Matéria são um só.


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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