Níveis

Crónicas 19 maio 2022  •  Tempo de Leitura: 9

Não consigo conceber o mundo sem palavras. Mas também não consigo conceber o mundo sem o espaço ou a pontuação. As palavras  transformam-nos por dentro e por fora. As palavras emocionam-nos e tornam visível todo o universo invisível e infinito dentro de nós através dos pensamentos que atravessam a nossa mente.


Cada palavra pode ser uma fonte de inspiração transformativa da nossa vida. Um simples “de” pode significar “de onde?”, “de quem?”, “de quê?” Cada palavra abre um horizonte de possibilidade, sentido e significado.


Muitos pensam que as palavras começam e acabam com a primeira e última letra, mas existem palavras que continuam a actuar dentro de nós. O seu ressoar suscita questões que nos intrigam e revela como a realidade possui muitos e diversos níveis.


Ao nível da sintaxe são um bloco de letras que pode, ou não, fazer sentido, ou até diversos sentidos, como quando jogamos ao Scrabble e com “a, g, l, o” podemos escrever “algo” ou “galo.” E mesmo o “galo” pode ser dois sentidos: o animal que se faz sentir em cada manhã; ou o inchaço na cabeça que nos dói se lhe tocarmos. O matemático francês Émile Borel questionou se seria possível a um macaco teclar, aleatoriamente, numa máquina de escrever durante muito tempo e escrever uma obra de Shakespeare. A Lei que Borel propôs é a de que os “eventos com uma probabilidade suficientemente baixa nunca ocorrem.” Porém, uma probabilidade ínfima não é nula. E a simples ideia de misturarmos letras ao acaso pode, a um dado momento, revelar-nos uma palavra. Mas essa palavra só fará sentido se a contextualizarmos. Para isso precisamos de um novo nível.


Ao nível da semântica, as palavras encontram-se entre si para que, juntas, possam dar sentido a algo que queremos transmitir e tenha significado para nós. Mas, como na metáfora do macaco, também neste caso não chega juntar as palavras ao acaso. É preciso uma linguagem para que as palavras dêem corpo a uma ideia. Ninguém sabe bem como nasce a linguagem porque essa não tem ossos ou fósseis, mas em 1977 algo de inesperado aconteceu. O governo da Nicarágua abriu uma escola para crianças surdas que viviam socialmente isoladas. Como tinham pouco contacto com a linguagem escrita, e as escolas não ensinavam com linguagem gestual, as crianças inventaram a sua própria linguagem. E cada geração ensinava a linguagem inventada à geração seguinte. Aquilo que hoje se conhece como a Linguagem Gestual Nicaraguense é um exemplo actual daquilo que poderá ter acontecido há 500 000 anos com os nossos antepassados. Talvez a forma mais primitiva de uma palavra que perdura no tempo seja mesmo o gesto. Mas o que é o gesto senão quebrar uma ideia complexa em partes mais simples e concretas que nos permitam comunicar? Eleva-se o nível.


Ao nível da comunicação, as palavras são transmitidas pela forma e conteúdo. O tom de voz faz a diferença, assim como as próprias palavras. Quantas não são redundantes, mas quanta redundância não confere à mensagem comunicada a paisagem, os sons de fundo, as sombras, isto é, o ambiente que influencia profundamente o modo como acolhemos a mensagem. Será esse acolhimento importante?
Uma palavra acolhida é um quantum transformativo. É o menor valor que um pensamento pode oferecer para nos transformar a partir do nosso interior. E essa parece-me ser a razão das palavras existirem. Existem para transformar a nossa interioridade, de modo a que essa entre em consonância com a nossa identidade. E o processo que nos leva a essa experiência transformativa através do pensar que emerge das palavras, e nos move, possui quatro níveis fundamentais.


O primeiro nível é o do próprio. Tu. Eu. Cada pessoa. Dentro de cada pessoa existe um mundo imenso e invisível de razões, emoções e espírito. As primeiras palavras são as que pronunciamos dentro. O nosso cérebro é o espaço físico de uma rede “infinitamente complexa” de sinapses que, misteriosamente, desenham o sentido e significado das experiências que fazemos. Por isso, existem palavras que possuem um efeito especial quando encarnadas no interior único de cada pessoa. Este é o nível da liberdade absoluta por ser o único lugar onde os filtros são aqueles que colocamos a nós próprios. É a base onde as palavras se relacionam antes de fazerem sentido através da linguagem gestual, desenhada, pronunciada ou escrita. Mas o que fica dentro, morre dentro. Daí que a autêntica transformação ocorra apenas quando as palavras são partilhadas a um nível mais elevado: os outros.


O nível dos outros é o que nos faz sentir na pele a existência e a realidade. O isolamento é anti-humano porque tudo o que existe neste universo existe para a relação. Os outros são aqueles a quem partilhamos ideias, pensamentos e as histórias que se desenrolam interiormente. Muitas vezes fazem sentido, outras vezes nem por isso. Mas sem os outros para acolher as nossas palavras restaria o vazio que as consome e sucumbe. As palavras que partilhamos transformam os outros e, consequentemente, quando os outros partilham palavras connosco somos transformados pela reciprocidade. Dizia Mahatma Gandhi que “tu e eu, nós somos um. Não posso ferir-te, sem ferir a mim mesmo.” A ferida é dor que se sente, como se sente qualquer palavra quando a vivência deste nível se faz de mente aberta, abrindo-nos a um terceiro nível: a finitude.


O nível da finitude corresponde a tudo o que existe no mundo. Nós, a fauna, a flora, as rochas, os planetas, as estrelas, tudo no universo. A finitude é a fronteira através da qual se configura a nossa existência. Não é mau ser finito e descobrir as palavras que expressam essa finitude. Nelas podemos encontrar a sabedoria para dar o passo seguinte no nosso caminho. Mas dentro de nós, entre nós, e no meio do mundo, nasce um desejo inexplicável de absoluto. É a percepção de sermos mais do que pensamos ser. A consciência da existência de um nível mais elevado: o infinito.


O infinito representa uma realidade matemática? Uma incapacidade de conceber qualquer limite? Deus? Interiormente, sentimo-nos seres infinitos que fazem experiências finitas. Mas nascemos e um dia morreremos — materialmente pelo menos. Será essa intuição de infinitude um desejo abstracto desencarnado? Talvez as palavras ajudem a traduzir a infinitude em nós ao algo palpável, finito sem perder o horizonte de infinitude, ainda que de modo imperfeito.


São inúmeras as palavras que fazem parte destes quatro níveis fundamentais. Neste livro partilho algumas. Cada palavra é um passo no caminho da história que construímos com a nossa vida. Palavras que expressam o entrelaçar do comum com o incomum. Caminhos como o meu e o teu. Espero que estas palavras sejam somente um ponto de partida, um vale imenso que se abre e te impulsione a descobrir tantas outras palavras.

Excerto do livro “palavras” (Edição de Autor) a ser lançado em Junho 2022 em exclusivo na Amazon.

 

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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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