Fragmentação

Crónicas 12 maio 2022  •  Tempo de Leitura: 6
«Aquela cidade ficou a chamar-se Babel, porque foi lá que Deus confundiu as línguas da humanidade e foi lá que os dispersou por todo o mundo»(Gn 11, 9) Babel, como disse o sociólogo Jonathan Haidt, «não é uma história de tribalismo. É a história da fragmentação de tudo.» Quer isso dizer que Deus divide quando pensávamos que, sendo “Um”, a experiência de Babel seria expressão de termos sido criados à Sua imagem? Estranho.

Hoje falamos de fraternidade universal, de sermos uma só família humana e desejamos caminhar em direcção à unidade. Sonhamos com um mundo mais unido como a semana a que lhe dedicaram os Jovens para o Mundo Unido. Mas o início do relato da torre de Babel pode deixar-nos perplexos, — «Naquele tempo a humanidade falava uma única língua, e todos usavam as mesmas palavras.» (Gn 11, 1) — ou seja, a humanidade estava unida e começou a construir uma cidade com uma grande torre até ao céu. Seria para dar corpo à impressão de estarem mais próximos de Deus que habitava nos céus? Não. — «pois temos de ficar famosos, antes que tenhamos de nos dispersar pelo mundo.» (Gn 11, 4). A humanidade percepcionava que se deveria dispersar pelo mundo. Mas o Senhor vai ter com eles, vê o que fazem, e faz algo de estranho quando contrastada com a noção que Jesus nos dá de Deus que deseja que sejamos um como Ele e o Pai são um. Deus dispersa e sociólogos com Haidt entenderam que Deus fragmenta. Porquê?
«Eles são um só povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.» (Gn 11, 6-7).

Com a impressão em massa de Gutenberg no século XV, e a internet no século XX, a humanidade supostamente fragmentada pelo mundo começou a unir-se de novo. E com o tradutor do Google lançado em 2006 e presente nos nossos smartphones, superámos a cacofonia de Babel, desfazendo a acção de Deus. Mas será que os escritores do Génesis perceberam mal o que Deus fez e colocaram na Sua boca palavras e acções que nunca teria dito ou feito? Ou será que confundimos fragmentação com dispersão?

Uma das ferramentas que surgiu da internet para unir as pessoas foram as redes sociais. Nas redes sociais, a unidade experimenta-se através da partilha da vida de cada um aos seus “amigos”. Muitas pessoas totalmente desconhecidas, de repente, por causa da exposição da sua intimidade criaram algo de novo: a dinâmica viral. E as redes sociais intensificaram essa dinâmica. Pessoas que do nada se tornaram influencers, famosas como era o desejo do povo de Babel. Mas somos mais felizes? Somos mais unidos? Ou estamos ainda mais fragmentados?
Quando se analisa em detalhe a vida dos influencers, como fez Olivia Yallop no seu livro “Break the Internet”, percebemos como vivem duas vidas completamente fragmentadas. E depois de terem fragmentado a sua vida, acabam por fragmentar a vida daqueles que lhes estão mais próximos. Teria Deus compreendido este desfecho e, por isso, dispersou a humanidade com uma intenção paradoxal que encontrasse a unidade? Talvez dispersar não seja o mesmo que fragmentar.
Unidade é diferente de uniformidade. Ter uma única língua vai contra a nossa natureza rica em diversidade, como a própria biodiversidade no mundo natural expressa de muitos e maravilhosos modos. Depois, quando Jesus nos revelou Deus como Trindade, unidade na diversidade, mostrou, parece-me, que a dispersão é a condição necessária para nos reconhecermos distintos uns dos outros. Só a partir do reconhecimento da nossa diversidade de línguas, costumes e culturas, aparentemente dispersas (não fragmentadas), a unidade inicia um processo de maturação humana que exige esforço de compreender o outro tal qual é e não como eu desejaria que fosse. 

A história da fragmentação da cultura humana tem sido contradita pela uniformização cultural, expressa pela presença mundial, por exemplo, das cadeias de fast-food. Antes, visitar uma cidade diferente num outro país era um encontro com a cultura local, sobretudo, através da gastronomia. Mas, agora, se passarmos por um McDonalds, muitos têm dificuldade em resistir à batata frita, hambúrguer e baixo preço. O sabor em Praga é igual ao de Lisboa. A dispersão relatada no Génesis estimularia a riqueza que a diversidade cultural pode oferecer à humanidade, ao contrário da uniformidade de Babel. Nesse sentido, não partilho da conclusão de Haidt de que Babel é a história da fragmentação de tudo, mas parece-me ser a história da salvação da diversidade.

Quando noto como as pessoas se isolam enquanto caminham cabisbaixas a olhar para o seu ecrã, sinto o efeito fragmentador da capacidade de prestar atenção à dinâmica social que se desenrola à sua volta. Salvar a diversidade cultural passa pelo estímulo a uma cultura do encontro com a riqueza do outro, promovendo a comunhão de experiências de vida diferentes e poderemos nunca voltar a falar uma única língua, mas talvez descubramos como o amor que nos une é uma linguagem única. No amor a experiência fragmentária converte-se em comunitária.


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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