Equilíbrio

Crónicas 21 abril 2022  •  Tempo de Leitura: 6

É este o desafio de todos os sistemas dinâmicos: procuram o equilíbrio. Quando perturbamos um sistema, esse reage no sentido de contrariar essa perturbação, em busca de um novo equilíbrio. O curioso está quando surgem padrões complexos a partir de situações de não-equilíbrio. Quer isso dizer que, na natureza, o “ponto” não exclui o “contraponto”, mas ponto e contraponto fazem parte de um mundo onde os contraditórios convivem bem quando procuram novos equilíbrios, como acontece entre o que sabemos e o que não sabemos.

Eu sei que beber água sacia a sede, mas não sei se a água contém uma substância sem sabor definido que mantém a minha sede. Eu sei que naquela rua se virar à direita vou na direcção da padaria onde quer comprar pão assim que chegar, mas não sei se há muitas pessoas na fila até ser atendido. Ninguém sabe tudo e ninguém nada sabe. Todos sabemos algumas coisas, desconhecemos outras, e procuramos sempre um equilíbrio entre o que sabemos e o que não sabemos.

Se estou sempre alegre, as pessoas acham estranho. Se estou sempre deprimido, também será de estranhar. Uma pessoa equilibrada, umas vezes está alegre, outras vezes está triste. Diz o provérbio — «nem tanto ao mar, nem tanto à terra.» — e sentimos como é apropriado ao tempo presente, pois, vivemos numa época de alguns exageros. No mundo, por dia, são tiradas por dia 92 milhões de selfies, trocadas por WhatsApp 100 biliões de mensagens, 333.2 biliões de emails são enviados. Porém, alguns estudos mostram uma certa correlação entre quem se conecta mais frequentemente nas redes sociais e a solidão. Onde está a reacção na direcção do equilíbrio? No diálogo.

O diálogo não implica estarmos sempre conectado entre nós, ou chegarmos sempre a uma mesma conclusão, mas existe sempre que procuramos um equilíbrio entre presença e ausência, e entre aquilo que cada um partilha, ainda que seja diferente, ou até esteja em oposição. Quando todos pensamos o mesmo, o saber cristaliza-se. Quando ninguém sabe, realmente, o que está a pensar, o saber “caotiza-se”. Equilibrar estes extremos do saber pode implicar aceitar que a realidade não é sempre como eu a entendo, ou tu a entendes, mas que ambos nos aproximamos da verdade quando dialogamos e reequilibramos juntos o que pensamos.
O resultado do equilíbrio pensamos ser a estabilidade ou, pelo menos, é essa a aspiração. Mas uma boa parte das situações que vivemos colocam-nos em cima de uma corda, e esticando os braços procuramos o equilíbrio permanentemente. Uma desatenção pode ser fatal. Com a intensidade dos fluxos de desinformação que passam pelos nossos olhos todos os dias, horas e até minutos, sinto estarmos a viver um período onde é exigente orientarmo-nos pela verdade no meio de tanta conspiração. Pela minha experiência, a resposta está no equilíbrio entre o que sabemos e o que não sabemos. O que sabemos ajuda-nos a distinguir o trigo do joio. O que não sabemos ajuda-nos a manter a mente aberta, curiosa, impulsionando-a na procura de mais detalhes sobre as coisas e diversificar as fontes de informação para ligar melhor o mundo exterior com o interior. 

Equilibrar o mundo exterior a nós com o nosso interior pode fazer-nos experimentar um certo contraste associado à condição humana. Exteriormente, o mundo parece ser regido por leis causais bem definidas. Disse o conhecido naturalista E. O. Wilson que «se a humanidade desaparecesse, o mundo regenerar-se-ia de novo num rico estado de equilíbrio como existia há milhares de anos. Se os insectos desaparecessem, o ambiente colapsaria em caos.» Wilson provoca-nos no sentido de, por vezes, nos sobrevalorizarmos face ao mais pequeno e esmagável aos nossos pés. Não é a biologia e as leis causais que nos distinguem, mas o que se passa interiormente no ser humano. Dentro da nossa psique experimentamos a possibilidade de uma actividade expontânea passar pela nossa cabeça e dessa criar um novo equilíbrio que nenhuma lei causal poderia prever. Afinal, é possível equilibrar o que é determinado com o indeterminado? Aparentemente, sim, e essa é a razão de haver ordem a partir do caos.

Ao nível microscópico da matéria, tudo vibra e flutua. Uma mesa que à vista desarmada parece estática, se pudéssemos olhar sem limites de resolução para a ínfima matéria de que é feita veríamos como, gradualmente, tudo começa a vibrar até chegar às nuvens probabilísticas das partículas fundamentais que constituem os seus átomos. Uma visão equilibrada impulsiona o nosso pensar, sentir e agir para uma abertura imensa de coração e razão. Mas, como dizia Pierre Reverdy,
«O propósito da vida está em encontrar o equilíbrio naquilo que é inerentemente instável.»
Esta é a essência dinâmica do equilíbrio. Não que a instabilidade seja o ideal, mas ao menos leva-nos a questionar as certezas e a manter-nos em permanente procura pelo esplendor da verdade. 

 


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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