Trinitocracia

Crónicas 20 janeiro 2022  •  Tempo de Leitura: 6

No espírito da renovação desejada com o percurso sinodal, o padre dominicano francês Hervé Legrand referiu como se deveria ponderar a eleição dos bispos em vez da sua nomeação. É claro que isso poderia ser um exemplo de como se pode escolher alguém para um serviço eclesial que pudesse inspirar novas formas de escolher pessoas em política. Mas temo que aconteça o contrário se não acompanharmos esse processo com uma visão diferente de governo: a trinitocracia.



“Cracia” é uma forma de governo e quando antes acrescentamos “demo” (povo) procura expressar que o sistema político assegura o direito de todos os cidadãos à participação política, sobretudo através das eleições onde escolhem quem gostariam de ver ao “serviço” do povo. Mas uma “eleição” no âmbito eclesial possui contornos diferentes porque não é a vontade do povo que está em causa, mas a Vontade de Deus. Mas, quem é Deus?



Pude confirmar com a teóloga Isabel Varanda a sua experiência aquando da discussão do seu Doutoramento em Teologia onde o examinador pergunta-lhe — «quem é Deus?» — ao que Isabel responde com os conhecimentos adquiridos ao longo do curso, mas o examinador continua a insistir na pergunta. Isabel responde sempre com tudo o que aprendeu até que, de certa forma, esgota-se o conhecimento e responde — «Não sei.» — ao que o examinador afirma — «Muito bem! Agora podemos começar.» Ou seja, ninguém sabe quem Deus é, logo, conhecer a Sua Vontade é motivo de oração e escuta profundas, bem como de discernimento comunitário. E o pouco que sabemos de Deus vem de Jesus que nos revelou Deus como Trindade, isto é, como diz o teólogo ortodoxo Ioannis Zizioulas, pessoas-em-comunhão. Logo, os relacionamentos são nucleares na compreensão que Jesus nos convida a fazer de Deus. E só vivendo relacionamentos “trinitários” poderemos vislumbrar qual a Vontade de Deus e eleger alguém no âmbito de uma trinitocracia.



A ideia de todos terem uma voz e pensar-se em eleger os bispos funda-se na igualdadede todas as pessoas. Porém, no Cristianismo, essa igualdade não se abstrai da natureza ou da unicidade que cada pessoa é em si mesma, mas funda-se sobretudo na pessoa enquanto comunhão com Deus e com os outros. Daí a importância dos relacionamentos que nos tornam família em qualquer processo de eleição na Igreja. Na dinâmica da vida trinitária que nos inspira, o poder não está nas capacidades que temos de governo, mas na capacidade de amar e de nos darmos a nós mesmos. A igualdade na vida cristã está no amor como dom-de-si-mesmo. Por isso, como se operacionaliza uma trinitocracia?


Pensando na eleição de um Papa, ou dos responsáveis de muitos movimentos da Igreja, existe algo inicial muito semelhante ao processo sinodal que estamos actualmente a participar. Isto é, existe um momento de auscultação daquilo que está no coração e na mente das pessoas. Depois, seguramente que será necessário recolher e sintetizar tudo aquilo que todos tiveram oportunidade de partilhar e, a partir desses contributos, definir os temas mais importantes que se sobressaem. A ideia é a de que esses temas poderiam ser o mote para reflectir e rezar em formato de assembleia cujo propósito seria o de eleger o bispo. Porquê uma assembleia?


Uma assembleia é mais do que um grupo de pessoas que se junta, mas é a oportunidade de criar um ambiente de família onde podemos viver a comunhão com Deus e com os outros para desenvolver a sensibilidade e capacidade de escuta da voz do Espírito Santo. Não seria tanto um momento de grandes e teológicas reflexões quanto de meditações e comunhão expontânea. Depois, há que conhecer os candidatos ao modo da Trindade. Não tanto os projectos que têm, mas o que sonham nos últimos tempos. Não tanto o curriculum que tenham (embora seja relevante) quando as suas experiências espirituais e comunitárias. Numa eleição civil existem sempre jogos de interesse e a maioria é soberana, mas numa eleição eclesial, os jogos são de amor e o mais humilde, e que não deseja ter determinado empenho, é, muitas vezes, a escolha que Deus suscita no coração e mente das pessoas.



O que vemos em política é o semear das divisões entre partidos, entre regiões e países. Numa democracia funcionam as maiorias, mas essas são falíveis e, como se viu nas eleições americanas de 2016, manipuláveis. A dinâmica eclesial subjacente a uma trinitocracia é completamente diferente.



Uma trinitocracia assenta na unidade que diferencia, como refere o P. Teilhard de Chardin SJ no seu livro “A Energia Humana” (não traduzido); assenta da trinitização (palavra que o teólogo Piero Coda encontra somente em Teilhard de Chardin, Joseph Ratzinger e Chiara Lubich) dos relacionamentos com base na experiência da Palavra — «onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 20), sendo o amor recíproco fruto da presença mística de Jesus entre nós. E só essa presença através de um amor profundo entre as pessoas permite compreender no coração e na mente o que Deus quer.

 


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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