Cristais

Crónicas 23 dezembro 2021  •  Tempo de Leitura: 5

Estamos atentos às luzes de Natal porque ofuscam o nosso olhar pelas ruas das cidades. Depois, nem todas as cidades podem usufruir (por enquanto) dos climas de invernos com neve, pelo que nem todos temos a mesma sensibilidade para uma das estruturas naturais mais belas do mundo: os cristais de gelo.

A forma dos cristais de gelo difere mediante a temperatura do ar exterior em que se formam e a humidade. Algo que me faz lembrar como o que contribui para a constituição da nossa pessoa são muitas vezes os ambientes em que crescemos. Por outro lado, a imersão de impurezas nos cristais altera o seu crescimento tornando-o mais lento e imperfeito. Também connosco, as impurezas dificultam o nosso crescimento espiritual. Mas quando a água em estado líquido que dará origem aos cristais contém impurezas, apesar da lentidão do processo, essas impurezas são expulsas aquando da formação dos cristais de gelo. Assim, se pensarmos nos processos de amadurecimento pessoal que fazemos através de exames de consciência, verificamos como a lentidão do processo é a necessária para avaliar que impurezas queremos expulsar do nosso interior para que os cristais que formam, metaforicamente, a nossa vida profunda, a purifiquem.

As formas mais complexas dos cristais de gelo mais conhecidos pela sua beleza, os flocos de neve, possuem usualmente seis faces, seja em estruturas simples, como nas mais complexas e repleta de dendrites. Qual a génese desta dominância do número seis, como existe, por exemplo, nos favos de mel da abelhas? Nada de especial. É, simplesmente, a forma com que as moléculas de água se “ajeitam” melhor quando o seu estado físico passa de líquido ao estado sólido. E mesmo que algumas estruturas possuam três ou doze lados, a referência será sempre o número seis. Daí que não tenham cinco ou oito faces como algumas vezes vemos representadas nos efeitos de Natal.

Ken Libbrecht é um físico americano e (talvez) o maior especialista de flocos de neve do mundo. O seu fascínio por estas estruturas, que muitos chamam de hieróglifos do céu, proveio de uma conversa com um aluno num dia de Inverno e da curiosidade em perceber qual a ciência que está por detrás da formação destas insólitas estruturas da natureza. Libbrecht tentou perceber a razão por não haverem dois flocos de neve “precisamente” iguais e concluiu que na forma do cristal estão intrínsecas as condições nas quais cresceu. Como o percurso de cada floco de neve enquanto cai do céu encontra-se em condições ambiente diferentes, o crescimento é único para cada cristal de gelo e essa é a razão de serem todos únicos. Mas, Libbrecht, no seu laboratório construiu um instrumento que faz flocos de neve e, controlando as condições ambiente de temperatura e humidade, consegue “fabricar” flocos de neve na forma que pretende. Daí que este cientista se tenha tornado, também, num artista destes cristais de gelo que serviram de inspiração para selos e lhe mereceram o convite como consultor para o filme da Disney Frozen.
O grau de organização destas formas na ausência de qualquer código genético faz-me pensar como a estrutura e organização é inerente ao mundo que nos rodeia. A variabilidade das formas que os flocos de gelo assumem acaba por ser uma síntese entre o acaso e a ordem, expressando como estas palavras tantas vezes colocadas em oposição, na realidade, são a razão da beleza do mundo.

O facto da ciência explicar o modo como se constroem estas maravilhas da natureza cuja forma faz parte do imaginário natalício, pode levar-nos a pensar que retira alguma magia ao que sentimos quando vemos os flocos pousarem na nossas mãos num dia em que neva sem vento. Mas alguma vez o cubo mágico deixou de o ser só por sabermos como se completam as suas seis faces?

A capacidade de deslumbramento do ser humano diante da beleza que encontra ao contemplar a natureza não desaparece só por compreender a sua origem. Antes, diria que aumenta ainda mais o sorriso que esboçamos diante de um mundo inteligível, isto é, que pode ser conhecido. O curioso é que ninguém pergunta a um astrofísico a razão de estudar buracos negros ou neutrinos, mas a Ken Libbrecht perguntam sempre de que serve estudar estas coisas. Compreender as coisas deste mundo parece sempre necessitar de uma utilidade. Penso que seja da pretensão que temos em querer controlar sempre o que acontece neste planeta. Os cristais de gelos são um convite ao deslumbramento e à compreensão do mundo à nossa volta para descobrirmos como a realidade física, mental e espiritual são um todo feito da unidade de unicidade e diversidade ao modo da Trindade.


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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