Relationis

Crónicas 2 dezembro 2021  •  Tempo de Leitura: 6

Estava em 2009 e tinha diante de mim o Pde. Tanzella-Nitti, sacerdote, astrónomo, e pessoa há muito tempo dedicada ao diálogo entre ciência e fé. Havia uma ideia nova que tinha em mente e resolvi partilhá-la com ele, pela primeira vez, naquela conferência sobre Darwin, organizada pelo P. Alfredo Dinis SJ (1952-2013). Estava a pensar qual seria o impulso primordial do salto que a nossa espécie deu para chegar à consciência-de-si e disse-lhe que talvez fosse pelo relacionamentos que as pessoas tinham umas com as outras. Isto é, o nosso salto evolutivo teria sido relacional. Disse-me — «talvez» —, sorriu, mas não me pareceu muito convencido. Não me conhecia, nem eu tinha credibilidade naquela área. Ao ler um artigo recente na New Scientistpercebi que tinha razão.

Em ”Survival of the friendliest? Why Homo sapiens outlived other humans”, Kate Ravilious escreve que antes pensávamos ser o nosso desenvolvimento cerebral, ou a linguagem, ou ainda a pura sorte que nos teria levado a sobreviver neste planeta, mas — «uma nova ideia começou a ganhar impulso para explicar o nosso domínio. Ironicamente, poderá ter sido uma das nossas, aparentemente, mais profundas vulnerabilidades - ser dependentes dos outros, sentir compaixão e experienciar a empatia - que nos terá dado uma vantagem.» Ou seja, a nossa capacidade para a relação.

Esta ideia da relação como chave impulsionadora de evolução provinha da uma compreensão relacional de pessoa que explorava na altura em que me encontrei com Tanzella-Nitti para desenvolver e explorar um novo tipo de relacionamento entre nós e a natureza. Assumindo termos sido criados à imagem de Deus, se Deus é Trindade, isto é, Pessoas-em-Comunhão, a imagem do “-em-“ parecia-me ser o “-como-“. E se nós somos Pessoas-como-comunhão, que outra génese haveria do passo da ausência de consciência para a presença senão por via dos relacionamentos?

Todos os relacionamentos são transformativos. A única forma de alguém não evoluir ou transformar-se a todo o instante é excluir da sua vida todos, mas todos os relacionamentos. Aliás, o resultado poderia ser a dúvida-última da sua própria existência. Porém, nem todos os relacionamentos são positivos no nosso crescimento pessoal. Dividir as pessoas acontece através de relacionamento conflituosos, mas quando nos amamos, e, por isso, ajudamo-nos reciprocamente, somos compassivos (sofremos-com), e empáticos (colocamo-nos na pele do outro), a complexidade daquilo que nos transforma aumenta substancialmente até que, pensava eu, a consciência-de-si poderia emergir.
Sentir o que os outros sentem não é um tormento, mas cria um sentido de comunidade e família que nos transforma interiormente e faz crescer em nós a resiliência necessária para sobreviver as adversidades do ambiente que nos rodeia. Cuidar de cada um é cuidar de todo o grupo porque são as particularidades criativas e únicas presentes em cada pessoa que tecem um conjunto de relações conferentes de identidade ao grupo a que pertence. Numas escavações arqueológicas encontraramum homem de Neanderthal que não tinha um braço e uma mão, mas que terá vivido entre 10 a 15 anos com essa condição física. Isso só seria possível se houvesse uma comunidade à sua volta que cuidasse dele e o protegesse, como se o indivíduo e a comunidade fossem um só, apesar de distintos.
Todos estes desenvolvimentos fazem-me pensar se não haveria espaço para reconhecer que a nossa espécie é mais homo relationis do que sapiens. E parte deste sucesso deve-se às redes relacionais que estabelecemos entre povos, partilhando dicas de sobrevivência. Mas há quem tenha explorado a vertente genética desta maior sensibilidade para a socialização. Vários investigadores estão convictos de que existe um gene, o BAZ1B, que de entre muitos efeitos que lhe estão associados, um deles é a redução dos níveis de medo que leva a um comportamento hiper-social. Mas por muitas explicações genéticas que possa haver para esta capacidade que temos para a relação, a pergunta mais profunda mantém-se: por que razão somos feitos para a relação?

Estou ciente de que a visão cristã proveniente da experiência religiosa de um Deus-Trindade não é uma explicação universal aceite por todos. Talvez porque Deus-Trindade não é uma explicação sequer, mas um convite. 

Quem aceitar o convite e procurar aproximar-se de Deus para fazer com Ele uma experiência trinitária, o melhor modo é começar a amar. E todos somos capazes de amar porque a base do amor é o homo relationis que nos constitui psicossomaticamente. Quando nos desviamos da experiência religiosa, perdemos a oportunidade de aprofundar o conhecimento da dimensão espiritual que nos torna, realmente, humanos. E compreendo que são diversas as experiências religiosas possíveis, mas isso é um bem, pois, se não houver diversidade, não há evolução. Aliás, para evoluirmos espiritualmente, só a diversidade de experiências religiosas o torna possível.

 


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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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