Retorno

Crónicas 9 setembro 2021  •  Tempo de Leitura: 6
No hospital aguardava com o meu filho que nos chamassem para uma consulta. Estava sentado nos bancos pequenos de madeira que o hospital pediátrico dispõe para os jovens e os pais, mas destinam-se, sobretudo, aos mais novos. Estava a trabalhar um pouco e, por isso, distraído. Uma mãe pede-me para dar lugar aos seus filhos. — «Claro!» — e lá fiquei em pé. Queria escrever e estava a ficar cansado das pernas. Encostei-me de cócoras na parede e continuei a escrever. Estava distraído quando aquela mãe que ia levar os miúdos à consulta oferece-me novamente o lugar. Retorno. O amor que vai e que vem. 

No final do semestre de trabalho ansiava pelas férias. A ideia este ano foi a de não ter ritmos senão aqueles que o momento presente nos sugeria. Lia, escrevia, passeava com a família, fazíamos refeições ou arrumava a cozinha, mas tudo sem os ritmos típicos do ano lectivo. Mas as férias têm sempre um ponto final. No início de setembro chegou o momento do retorno. Voltar aos ritmos, às crónicas, à logística familiar das actividades dos filhos e ainda não começaram as aulas. O retorno aos ritmos ajuda-nos a avaliar se os nossos hábitos positivos de organização estão ou não interiorizados. Este retorno ajuda no devido ajuste a esse respeito.

No início de setembro, o Papa Francisco, uma vez mais, convidou a Igreja à celebração ecuménica do Tempo da Criação. Porquê? Alguma vez nos afastámos do mundo natural? Impossível! Vivermos imersos nele e com ele partilhamos o mesmo planeta. Mas talvez o nosso coração estivesse afastado. O conforto da técnica e da comunicação desvia sistematicamente o nosso olhar. O Tempo da Criação é um convite à oração pelo retorno de um maior relacionamento com a natureza. Um relacionamento feito de actos concretos para estabelecer uma presença construtiva e contemplativa. Um retorno que pode aproximar-nos da experiência da presença de Deus que se manifesta pela beleza natural. 

Nem sempre o retorno é positivo. Este ano tive projectos científicos recusados para financiamento, candidatos a doutoramento que iria orientar com a sua bolsa recusada, e — o retorno que mais doeu— vi uma proposta de livro com meditações revistas, ampliadas e inéditas recusado por uma editora católica e outra a-confessional. O retorno com a recusa foi um convite à humildade, à resiliência e a persistir no sonho. O retorno negativo é difícil de digerir, mas se acolhido pode ajudar-nos a estar sempre na posição de melhorar. Aliás, a minha sábia mãe bem recordava que a história que conhece dos grandes escritores é precedida de longos períodos deste retorno-recusa, pelo que me consolava dizendo que estava no bom caminho. Sem que não sou um grande escritor, mas este é indubitavelmente um pensamento válido que mostra como o maior obstáculo à realização dos sonhos está no nosso ponto de vista.

Uma vez estava a ouvir um Podcast sobre uma solução de produtividade que muitas pessoas têm negligenciado sem aproveitar as suas grandes potencialidades. O que Michael Hyatt dizia ressoou com a minha experiência.
 
”sou um grande fã de tecnologia. (…) estou constantemente à procura de novas apps, novos dispositivos que podem tornar-me (e a ti) mais produtivo. Bem, neste podcast estou entusiasmado por partilhar umas das minhas tecnologias favoritas. Usar este aparelho leva-te a poupar imenso tempo. Pode melhorar a tua concentração, ajudar a pensar mais cuidadosamente, e reforça o teu compromisso com as tarefas mais importantes. Mais ainda, ajuda a tua memória.”
 
Depois de usar outras expressões e palavras como “tecnologia revolucionária”, “disruptiva”, “controversa”, Megan Hyatt-Miller, a filha de Hyatt com quem dialoga no podcast pergunta-lhe – «Pai, estás a falar do papel?» Sim, falava do retorno do papel.

A Dra. Gail Matthews da Universidade Dominicana nos Estados Unidos realizou um estudo que mostrou como as pessoas que escrevem à mão os seus objectivos têm uma maior probabilidade de os concretizar em 40% relativamente aos que não escrevem. Escrever à mão é possível nos tablets, mas, por alguma razão, parecia fazer mais sentido fazer essa experiência em papel. David Sax no seu livro ”The Revenge of Analog” inclui o papel como uma das tecnologias que todos pensavam estar no fim até que experiências como o Moleskine demonstraram o contrário. Sax escreve que
 
“A vingança do papel mostra como a tecnologia analógica pode superar a digital em tarefas específicas, e utilização a um nível muito prático. Enquanto o uso do papel diminuiu em certas áreas desde a introdução das comunicações digitais, em outros tipos de utilização e propósitos, o valor emocional, funcional e económico do papel aumentou. Podemos usar menos papel, mas onde cresce a sua utilização, o papel vale mais.”
Esta foi a experiência que fiz. O papel encontrava o seu retorno à cultura humana, e nos aspectos que nos ajudam a ser mais produtivos.

Retorno. Parece ser uma palavra de quem volta atrás no seu caminho e nas suas decisões, mas talvez seja precisamente o contrário. Nunca retornamos ao mesmo sítio porque no mundo está sempre em transformação. Por isso, o retorno é a experiência de quem volta a andar para a frente.
 
 
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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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