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Crónicas 24 junho 2021  •  Tempo de Leitura: 5

Com o retirar de um pequeno acento, mudamos aquilo que somos convidados a fazer para nos levantarmos, pormo-nos a caminho e fazer toda a diferença. O mundo precisa mais do “anuncio Jesus” do que do “anúncio de Jesus”. Qualquer um o pode fazer, mas ninguém o faz da mesma maneira e a razão é simples. Penso não haver melhor forma de anunciar Jesus que não seja através da nossa vida e não há vidas iguais. Como é que anuncio Jesus? O que significa ser aquilo que anuncio?

O primeiro pensamento em relação a anunciar Jesus pode ser o de que o sucesso exige a conversão daquele a quem anunciamos. Mas essa é mais uma pretensão da nossa parte do que um resultado de quando anuncio Jesus. Na minha experiência, um encontro com Deus é pessoal e ninguém consegue estar plenamente dentro do outro. Quando falamos de Jesus não fazemos a mínima daquilo que se está a passar no interior da outra pessoa. Por isso, diria que o sucesso garante-se mais se a nossa vida for testemunho daquilo que anunciamos do que esperar inspirar o outro com as palavras que pronunciamos.

A Nova Evangelização é uma exigência de todos os tempos e penso ter percebido a razão. Quanto mais conhecemos Jesus e procuramos conformar a nossa vida à d’Ele, mais nos damos conta de haver ainda tanto para conhecer e mais ainda que pode mudar. Jesus é uma fonte inesgotável de vida profunda. E quando olho para a minha vida, se quiser que essa seja anúncio d’Ele para os outros, sinto ter ainda um longo caminho a percorrer. Depois, a cultura humana evolui. Por isso, a evolução humana não terminou, encontrando-se ainda no seu dever ser, pelo que ser anúncio acompanha os tempos porque a cultura daqui a dez anos será diferente. Porém, o desafio está naquilo que anuncio de Jesus hoje.

Se Deus está mais próximo de nós do que nós relativamente a nós próprios — isto para dizer que a presença de Deus é imensamente íntima — anuncio-O se estiver próximo do outro. Se Jesus nos disse que estaria connosco até ao fim dos tempos, anuncio-O se acompanhar o outro no seu caminho para Ele. Mas apesar da proximidade e do acompanhamento que possa fazer, isso nada tem a ver com a conversão do outro. Depois, há quem escolha outras vias para dedicar a sua a vida a anunciar Jesus.
Há que dedique a sua vida aos eventos que pretendem anunciar Jesus, mas como estar próximo de cada pessoa quando temos diante de nós um mar de gente? E há quem dedique a sua ao desenvolvimento cultural com pensamentos e escritos que pretendem anunciar Jesus, mas como acompanhar o percurso que os outros podem fazer com base nas ideias que desenvolvemos? Anunciar Jesus com a vida talvez exija de nós explorarmos uma faceta mais relacional dessa missão que Ele nos confiou, levando-me a pensar sobre o conteúdo.
Se Deus é Amor, eu anuncio-O se amar. Se a verdadeira vida está em Deus, eu anuncio-O se depositar n’Ele toda a confiança, em vez de contar apenas com as minhas capacidades e forças. Se Deus nos fez livres, eu anuncio-O se deixar o outro livre de querer, ou não, saber mais sobre o que me move. Se a vontade de Deus é que sejamos felizes, eu anuncio-O se fizer o outro feliz. Se Deus perdeu a Sua vida por cada um de nós, eu anuncio-O se souber perder a minha vontade para acolher a Sua no outro, a minha razão para acolher a Sua razão no outro, e até mesmo o meu viver para acolher plenamente o viver n’Ele presente no outro. Assim, da nossa relacionalidade, somos um só anúncio d’Ele.

Nem sempre os outros notam que a minha vida é diferente e querem saber mais. Talvez por não sentir poder ser um outro Jesus para cada pessoa que encontro. O caminho de anunciar Jesus com a vida é árduo e, por vezes, ingrato. Também Ele foi escarnecido quando dava tudo o que tinha e não tinha. Mas valeu-lhe o consolo do bom ladrão que não conhecendo-O, acreditou n’Ele.

Eu anuncio Jesus se O encontrar naquele que não o conhece ou acredita n’Ele. Pois, isso convida-me sair do meu modo de ser e estar para acolher o modo de ser e estar do outro, excepto quando isso me afastar da experiência de amar, ou quando divide em vez de unir. 
A tendência de pensar que o mundo precisa do anúncio de Jesus, e da nossa Nova Evangelização, é grande, mas talvez sejamos nós os primeiros a precisar desse anúncio para sermos com a vida aquilo que Jesus quiser dizer ao mundo.

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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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