Começo

Crónicas 10 junho 2021  •  Tempo de Leitura: 6
Acordo. Levanto-me. Dirijo-me à sala. Olho para o caderno das minhas páginas pessoais. Abro-o. Pego na caneta de tinta permanente e nunca sei por onde começar. Por isso, dedico as primeiras palavras ao começo do dia. Olho para a janela e descrevo a paisagem. Todos os dias a minha cabeça volta-se para a mesma janela, mas as palavras que uso são diferentes. Em cada dia, eu, tu, todos somos diferentes. Pois, tudo o que vale a pena viver tem sempre um começo. Será que tudo o que assegura a existência teve um começo?

O universo teve um começo. É verdade que ninguém estava lá para saber como aconteceu. Temos apenas o que os modelos físicos e matemáticos nos descrevem, mas basta que o modelo mude e pode mudar a nossa percepção. Antes, a crença comum apontava para um universo estático e sem começo. Depois, o Padre George Lemaître chegou à conclusão de que aplicando condições iniciais ao modelo de Einstein, o universo teria um começo. E sem esse começo primordial, nada existiria. 

A nossa vida para o mundo não começa com o primeiro respiro? E antes disso, de uma relação íntima entre o pai e a mãe? Cada momento de transformação significativa na nossa história foi marcada pelo começo de algo. Nesse sentido, todo o começo é um ponto de viragem de uma narrativa cujo fim desconhecemos. 

Existem começos que não dependem de nós, mas das circunstâncias ou da decisão dos outros. E existem, também, começos que dependem das escolhas que fazemos. Há coisas que começam sem acabar quando deviam, e outras que acabam, felizmente, por sentirmos que nunca deviam ter começado. O começo e o fim marcam a linha de vida de projectos, pessoas, actos e processos. E precisamos tanto de coragem para começar algo que tenha valor, como para terminar o que começámos se for necessário.

Muitas vezes vivemos de sonhos sem nunca os realizar pela dificuldade que temos em começar. O primeiro passo de algo que nos tira da zona de conforto é sempre difícil. Mas depois de dado, torna-se mais fácil encontrar o ritmo. É o que chamamos de inércia. Se tiveres uma caixa pesada que deves deslocar para um outro local, só precisas de dar o primeiro impulso para começar a mover. E quando chega ao seu destino, não começa sempre uma próxima tarefa ou etapa? Porém, a multiplicidade de novos começos pode bloquear-nos como diante de uma folha em branco a partir da qual começa um momento de pausa.

Os momentos de pausa antes de qualquer começo são preciosos e tensos. Será que sigo esta linha de pensamento ou aquela? Será que esta ideia vai resultar ou a outra? Conseguirei aguentar o barco se disser que sim ou vê-lo partir por ter dito não? Pontos de interrogação que nos deixam suspensos até começarmos a viagem da vida a partir de cada instante. E se falhar?

Começar de novo.

A tormenta de ter começado um caminho que não nos deixa felizes é o remorso do começo não ter levado ao encontro daquilo que desejámos inicialmente. Pode ser um texto que a meio perdemos o entusiasmo e sentimos ter perdido tempo para nada. Pode ser um caminho que nos arrependemos a meio por não nos levar a lado algum. Pode ser uma conversa que se desviou do trajecto inicial e magoa mais do que enriquece a relação. Mas quem nos impede de re-começar senão um preconceito qualquer dentro de nós próprios? Não receemos começar de novo.

Haverá alguma garantia de que novos começos resultem em desfechos diferentes e melhores? Quantas pessoas não começam determinados relacionamentos e acabam sempre sozinhas porque não resultam. Por que razão começar de novo? E porque não?

Todos os dias nasce o Sol, mas um dia, e só nesse dia, nasceste tu. Cada começo é único porque não há instante que não seja único. Podemos cometer os mesmos erros, mas lembremo-nos da possibilidade que cada começo representa. A possibilidade de experimentarmos a unicidade da nossa história. 

Por fim, questionei se tudo o que assegura a existência teve um começo. Muitos de nós pensamos em Deus como Aquele e o único capaz de assegurar toda a existência. Logo, teve Deus um começo sendo eterno? Parece haver aqui uma inconsistência. Os que não crêem em Deus concluem da inconsistência que Deus não existe. E os que crêem concluem que a minha frase é inconsistente porque Deus se Deus é eterno, não faz sentido ter começo. E agora? 

Penso que Deus não assegura a existência por ser, Ele mesmo, existência. Daí a impressão de que, talvez, Deus não exista, como tudo o resto existe, por não fazer muito sentido dizer que a existência existe. Mas o que será esse “tudo” que assegura a existência se é o próprio Deus é existência? Que confusão.

Talvez a minha questão fosse inconsistente e pudesse ter, também, um novo começo como - tudo o que assegura a compreensão do que existe teve um começo?
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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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