AMA

Crónicas 1 abril 2021  •  Tempo de Leitura: 5
Já reparaste como a sigla SOS se lê da mesma maneira da esquerda para a direita, ou da direita para a esquerda, ou até se rodares a palavra em 180º? O objectivo é o de não perder a sua mensagem, independentemente do modo como é lida. É o que acontece, de certo modo, com a palavra AMA.

Quando se AMA, seja da esquerda para a direita, ou da direita para a esquerda, é a mesma palavra, o que pode significar que o amor vivido numa certa direcção, quando é genuíno, é retribuído, e volta, tornando-se recíproco. Por isso, quem AMA, verdadeiramente, é amado. Por outro lado, penso, também, na letra que liga o “A”mor que vai ao “A”mor que vem, a letra “M”. E a palavra que nasce dentro de mim relacionada com esse “M” e ligada ao amor recíproco é “M”isericórdia.

O amor verdadeiro não tem uma só direcção, mas muitas, pois, se cada pessoa é única, AMA com um amor único outras pessoas, aquilo que faz e o ambiente à sua volta. Mas se o coração que AMA não se encher de Misericórdia, por que razão amar? Esta palavra é a síntese entre miseratio (compaixão) e cordis (coração), por isso, na sua etimologia significa um coração compadecido. Ou seja, o ponto central por onde passa o amor que vai e que vem é o coração. O cerne de nós mesmos. O centro da natureza daquilo que somos. E quem és tu? Sim, tu que lês.

“Quem sou eu?” é uma questão última que parece ser demasiado intelectual para a pessoa comum dar-lhe a devida importância e valor na vida quotidiana. Mas se abraçarmos bem esta questão, começamos a pensar se a nossa vida traduz mais aquilo que somos, ou o modo como queremos que os outros nos vejam. Antes da era digital, esta questão possuía contornos bem definidos, mas com a possibilidade actual de editar o nosso perfil e a imagem que damos de nós, tornou-se numa questão com um novo sabor e importância.

Por que razão se investe tanto na imagem digital que damos de nós próprios se não fosse o desejo profundo de ser amado e desejado? Poderíamos pensar que muitos o fazem para ganhar seguidores, e projectar a sua imagem esperando que o seu estilo de vida os tornem famosos. Mas o que diz isso de mim próprio sobre quem sou? Penso que pode induzir mais a pessoa na ilusão de si do que iludir os outros sobre que ela é na realidade. Pois, se o meu perfil tem 1000 ou 10000 seguidores, existem 1000 ou 10000 ou mais perfis que têm o mesmo número de seguidores. A imagem digital transmite pouco sobre verdade de quem sou. Quem procura amar bem vai para além da imagem que tem.

Quem AMA sente a exigência de não se reduzir à imagem digital que projecta através das redes sociais. 

Quem AMA sabe como isso implica abandonar-se à experiência real dos gestos concretos de proximidade que levam os outros a sentir o bater do seu coração compadecido.

Quem AMA reconhece a incapacidade de pensar somente em si mesmo, ou pensa reunir-se num Zoom para decidir que bem pode fazer à sua volta. Pelo contrário, está atento às necessidades daqueles que lhe estão mais próximos e procura dar um pouco de si para os ajudar.

Que AMA lembra-se da importância que os relacionamentos têm nas escolhas que fazemos, e cuida deles para tomar mais e melhor consciência de sermos uma só família humana, e estendendo à natureza em seu redor, reconhece-se como uma parte inextricável da família da criação.

Quem AMA não sente somente, ou sabe apenas, ou presta atenção apenas ao que lhe interessa, ou é interesseiro nos relacionamentos que estabelece. Pois, o amor que vai e vem centrado na misericórdia abre o nosso horizonte, tantas vezes confinado ao que pouco interessa. Mas quem sou eu para falar do que é amar? Talvez a pessoa menos adequada. Mas há alguém que seja especialista no amor? No amor não há especialidades, mas escolhas.

Teilhard de Chardin, um jesuíta paleontólogo, considerava o amor como a força mais transformativa existente no universo. E o facto de nós, seres humanos, mudarmos, literalmente, a face do planeta, mostra aquilo que uma espécie auto-consciente é capaz de fazer quando coloca as suas capacidades ao serviço daquilo que lhe interessa. Todos podem amar, mas nem todos estão interessados nisso. Porém, será sempre uma escolha ao alcance de cada pessoa, e de cada coração. Basta ter a coragem de abraçar a vulnerabilidade de dar o primeiro passo.

 
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Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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