Padrões

Crónicas 17 setembro 2020  •  Tempo de Leitura: 4
Enquanto aguardava pelo aspirador para tratar da sala, olhei para as cadeiras dispostas em cima da mesa e reparei que faziam um padrão. Não era regular, mas também não era irregular. Uma imagem simples que me levou a pensar em como são os padrões que orientam muito a nossa vida.

Quando passeamos por uma rua com árvores notamos que o seu espaçamento é regular, mas se formos a uma floresta selvagem, não há qualquer regularidade. Porém, qual a ideia de colocar árvores num passeio senão a de trazer um pouco da natureza para o meio urbano? Mas o modo como o fazemos implica regularidade, ordem em vez de caos, e os padrões são expressão do nosso desejo de viver com ordem.

O ser humano aprecia os padrões porque esses trazem beleza para o nosso campo de visão e uma certa sensação de controlo. Os tapetes contêm padrões, as simetrias nas decorações da nossa casa, a disposição nos espaços de restaurante, os jardins, tudo o que é fruto da cultura humana está permeada de padrões.

Os padrões são — diria — a motivação fundamental de qualquer investigação científica. Eles são o sinal de existir algo com um propósito, um sentido e, em última análise, um significado. Não experimentamos o medo, a desorientação, na ausência de significado?

Quando não existem padrões, experimentamos o caos através da sensação da incerteza que nos coloca fora da zona de conforto. Entra nas emoções o receio; a dúvida desconstrutiva que nos bloqueia e leva a hesitar; ficamos imóveis e numa escuridão que conduz ao sofrimento e sensação de morte. Mas o caos engana. Pois, existe ordem a partir do caos.

 
Os peixes ciclídeos adultos ensinam os mais novos a navegar com o cardume através de movimentos aleatórios, isto é, caóticos. A razão está no aumento do número de contactos dos ciclídeos entre si que essa aleatoriedade induz, aumentando, também, a intuição de copiar o movimento do peixe que está mais próximo, e o resultado é a ordem a partir deste caos.

Até mesmo um jogo pode ajudar a entender como a ordem pode surgir do caos. Imagina um triângulo grande numa folha A4. O vértice superior está ligado aos valores 1 e 2, o inferior esquerdo ao 3 e 4, e o inferior direito aos valores 5 e 6. Depois, desenha um ponto qualquer no interior desse triângulo. Por fim, lança um dado e vê que valor sai. Esse valor está associado a um dos três vértices. Agora, desenha o próximo ponto a metade da distância entre o ponto anterior e o vértice do valor do dado. Ao fim de alguns lançamentos, a imagem que obtemos é um padrão a partir de um jogo caótico que tem o nome de triângulo de Sierpinski (1882 - 1969, matemático polaco).
 
Alguns poderiam pensar que não passam de truques matemáticos porque, no universo, a entropia está a aumentar, logo, a desordem e tudo está destinado a um frio espaçoso de morte. Mas esquecemos uma coisa. A finalidade do mundo (qualquer que essa seja) está ligada a tudo o que flui (energia, líquidos, gases, pessoas, ideias, etc.), e flui por onde fluir melhor. O resultado? Os padrões que vemos na natureza nas ramificações das árvores, semelhantes às bacias hidrográficas, e aos vasos pulmonares.

Os padrões não são sinal de uniformidade, mas da diversidade que surge da liberdade que as coisas têm de se movimentar e ritmar. É como se todo o universo tendesse para a geração de ritmos traduzidos pela diversidade de padrões. Daí que seja relativamente natural notar quando algumas coisas são estranhas. Pois, saem dos padrões, sendo algo positivo para nos reorientar, ou mostrar que existem caminhos novos a explorar.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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