Frágil

Crónicas 16 julho 2020  •  Tempo de Leitura: 3
Quando não quebramos o ritmo, o ritmo quebra-nos. Somos frágeis e pensamos que reconhecê-lo é um sinal de fraqueza. Diria antes ser um sinal de humildade.

 
O que é frágil sê-lo-ia menos, se ao menos dobrasse. Aprender a lidar com a nossa fragilidade talvez passe por desenvolver a capacidade de dobrar. Ser flexível. Menos rígido com os outros e, sobretudo, connosco próprios.

 
Queremos mostrar-nos fortes, mas sentimos os mesmos receios que os outros. Somos humanos e a humanidade exige humildade. Somos todos limitados e enquanto não aceitarmos as nossas limitações, dificilmente descobriremos quem realmente somos, para perceber o que mais poderemos ser.

 
A fragilidade não é o fim, mas o princípio que abre a porta da nossa criatividade para a possibilidade de usarmos as nossas limitações na superação dos obstáculos interiores que nos fecham sobre nós próprios. Obstáculos como o perfecionismo; falar muito e escutar pouco; dizer a tudo que sim, ou dizer não a tudo; recusar a ajuda dos outros; e quantas outras barreiras interiores intransponíveis pela falta de reconhecimento da nossa fragilidade.

 
Frágil. Como um vaso de porcelana que se quebra ao mínimo embate no sítio errado. Mas quanto não é o amor dos outros quando revelamos os cacos e são para nós o ouro que nos junta de novo, como a técnica japonesa do kintsugi.

 
Frágil. Como aquela massa de esparguete isolada que facilmente se quebra, mas que junta a muitas outras massas frágeis permanecem mais fortes durante mais tempo.

 
Não tenhas medo da fragilidade. 

 
Estou cada vez mais convicto da fragilidade fazer parte da grandeza humana quando se sujeita a dobrar por amor, mostrando quanta grandeza há na humildade de aceitar ser-se quem é.

 
Repito. Podemos sofrer com a fragilidade, mas se aprendermos a dobrar a língua, as exigências, os ritmos acelerados, podemos não voltar à posição inicial porque as tensões podem dobrar-nos acima do ponto crítico, mas será esse o momento de recomeçar e encontrar o novo “normal.”

 
Recordo aquelas pessoas idosas das aldeias com as costas dobradas de tanto se dobrar ao longo dos anos para sustentar os outros e fazê-los felizes. Parece que o corpo deformado é sinal de fragilidade, mas talvez o grau de dobragem seja proporcional à quantidade de amor. E quando perguntamos pelas histórias escutamos quando sofrimento está por detrás das costas encurvadas. Dobraram para não quebrarem, ajudando a manter de pé os frágeis que estavam próximos de si e à sua volta.

 
Quem sabe ser frágil é resiliente no seu saber.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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