Compaixão

Crónicas 18 junho 2020  •  Tempo de Leitura: 4

Podes separar a palavra em com-paixão, mas importa lembrar que a paixão é mais do que o sentimento positivo de Eros. É muito mais. É ágape. Por isso, paixão encontra a sua imagem perfeita na de Jesus a caminho do calvário. Contudo, a etimologia da palavra associa-se mais a sofrer-com. Mas ninguém gosta de sofrer. 



O sofrimento é indesejável. Tudo o que pudermos fazer para o aliviar ou superar, devemos fazer. Ninguém no seu perfeito juízo deseja o sofrimento de alguém. Por que razão, então, encontramos a imagem perfeita de sofrimento em Jesus a carregar uma cruz? Por que razão o Pai não interveio? Onde estava?



Questões legítimas porque também Jesus as fez. Mais duramente, talvez, ao questionar a razão do abandono do Pai. Não eram Ele e o Pai, Um? Se era Um só com o Pai, por que razão se dirige a Ele como “meu Deus”?



As realidades ocultas no amor-ágape, amor de quem se dá totalmente, são verdadeiros mistérios que não podem ser compreendidos sem serem vividos. Mas teremos de sofrer como Ele sofreu para entender? Quando Deus se faz um de nós, não negou o sofrimento. Por isso, não quererá isso dizer que sofrer não é uma opção para tudo o que existe neste universo? E se não é opcional, ou ninguém o deseja, por que razão sofremos?


Nenhum sofrimento tem sentido. Mas quando procuramos um sentido para o sofrimento, encontramos, o que torna tudo mais estranho ainda. Parece existir um paradoxo existencial em relação ao sofrimento. Sem esse não existimos, mas quantos não desejam deixar de existir quando o experimentam? E que sentido é possível encontrar para o sofrimento?



Um dos mais procurados é o sentido de utilidade. Quando sofremos porque nos dói a barriga, por exemplo, é sinal de que algo pode não estar bem connosco e podemos ir ao médico. Ou seja, o sofrimento foi útil como sinal de alerta de uma possível doença.



Outro, mais profundo, é o sentido de entrega. Estamos doentes, e sofremos com dores, ou sofremos por não nos podermos mover. Faltam-nos as forças, mas vivemos este sofrimento por algo maior do que nos. Pode ser pela paz, como Ghandi nas suas greves de fome. Pode ser para relativizar o sofrimento dos outros, dando-lhes alento ao olharem para nós e verem um sorriso onde não era suposto. São actos concretos de entrega do sofrimento para relativizar a visão trágica do mundo em muitas pessoas.



Por último, penso no sentido transformativo. Um bebé chora quando nasce porque o seu sofrimento é sinal de transformação profunda na transição de um ambiente protegido para um ambiente completamente diferente. Um doente terminal vê a sua perspectiva de vida transformada pelo sabor que tem cada segundo de vida. Uma dor relacional pode inspirar-nos a mudar o nosso modo de ser e estar por nos mostrar quem somos e o quanto mais poderemos ser. É no sentido transformativo que a compaixão se experimenta como um “sofrer com.” Parece ser o modo universal de evoluir. Por isso, um mundo sem sofrimento, seria uma mundo sem compaixão, ou qualquer evolução. Alguém gostaria de viver num mundo assim?

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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