Reacção

Crónicas 11 junho 2020  •  Tempo de Leitura: 4
«Já viste? Tive 400 reacções ao meu artigo!» - disse em casa. Mas será real? Talvez. Por isso, referi-me àquele número como “reacções.” Podem até ter lido, mas se não houver quem comente, fico sem saber. Por outro lado, a minha frase foi também uma reacção ao sentimento de validação que liberta a bendita dopamina no meu cérebro e faz-me experimentar, fisicamente, o sentido de realização. Mas...


Partilhei no Linkedin, com tristeza, a partida inesperada de um colega e amigo. Fi-lo com a intenção de dar a conhecer a outros colegas, mas recebi 12 “Likes”... “Likes”!? Reagiram. Pois, se tivessem pensado na minha tristeza teriam antes escrito qualquer coisa como comentário. Algo mais pessoal e concreto. Mas...


Vivemos num fluxo imenso de informação, onde o gesto reaccionário é sinal da pressa com que consumimos o que nos é dado a conhecer. Gestos que se tornam inapropriados e superficiais. Gestos que mereciam ser pensados, mas falta o tempo ou perdemos, simplesmente, a sensibilidade para dedicar tempo ao outro. Bastaria um minuto. Mas...


Reagir é fácil. Parar, pensar e agir construtivamente demora mais tempo, mas o efeito dura e transforma.
Não tenho dúvidas de que as oportunidades que hoje temos de manifestar o que pensamos ou estar próximos dos outros, através da internet, são imensas e disponíveis para todos. Mas as reacções que preenchem o tempo de muitas pessoas serão sinal de uma vida profunda e plena?


Reagir é dar um sinal à “máquina algorítmica” da importância que pode ter a informação que despertou essa reacção. Nos rankings, essa informação ganha importância e começa a ser visualizada por aqueles que reagem como nós. O resultado parece ser o de que a internet adivinha, cada vez melhor, o que me interessa, colocando para último tudo o que pode ser menos interessante para mim. Algo que deixei de ser eu a decidir, mas a internet faz isso por mim. Os algoritmos é que decidem o poderia despertar em mim novas emoções e transformações. E assim, com as nossas reacções, gradualmente, deixamos a “máquina” orientar o nosso pensar.


As reacções que obtemos vão além de serem um sistema de validação pessoal (que o é, hoje), e acabam por ser, também, um sistema de uniformização gerador de bolhas de interesse comum que, dificilmente, nos tirarão da zona de conforto para continuarmos o caminho de evolução pessoal, social e cultural que poderíamos percorrer.


O que podemos fazer para readquirir - diria ousadamente - vontade própria, e evitar ceder tanto à máquina reaccionária virtual? Talvez ser mais lento.


A lentidão é sinal de ponderação.


Pode parecer que iremos sofrer com a ausência de reacção, quer do ponto de vista de quem a dá, como de quem a recebe. Pois, actualmente, são as reacções que medem o interesse que os conteúdos têm, mas esse receio pelos efeitos da ausência de reacção podem ser infundados. E a lentidão pode ajudar-nos a sair do vício das reacções recuperando uma das nossas maiores capacidades. Ser curiosos.


Um modo de despertar a curiosidade adormecida consiste em notar em coisas novas. Ou seja, em vez de andarmos de reacção em reacção, de forma automática e desprovida de pensamento, procurar notar em coisas novas. Olha para a tua direita e nota se existe alguma coisa que nunca te tivesses dado conta. Depois olha para a esquerda e faz o mesmo. Sim, assim tão simples. Com o tempo começamos a transitar do notar ao questionar. E...
 
«O importante é não parar de questionar. A curiosidade tem a sua própria razão de existir.» (Albert Einstein)

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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