Religar

Crónicas 21 maio 2020  •  Tempo de Leitura: 3
O modo de superar, em parte, este distanciamento social foi usar a internet para nos ligarmos. Uma ligação diferente das ligações anteriores.


Antes, cada um ligava-se ao mundo digital, desligando-se do mundo real à sua volta. Víamos gente em massa num transporte público, ou sala de espera, num restaurante, ou até em casa, ligados ao mundo virtual, mas desligados entre si.


Agora, confinados, desejamos de novo estar juntos, ligados entre nós. Desfrutar da riqueza que é a presença do outro. Desejamos religar no sentido mais corporal do termo. De onde nasce este desejo? É o corpo que anseia? É a mente que o pensa? Se restringirmos o que somos ao que experimentamos fisicamente no corpo, ou conscientemente pela mente, colocamos de lado uma terceira dimensão de ser humano, a espiritual. Essa está para além do que sentes ou pensas. Está para além de ti e do mundo à tua volta, mas é inexistente sem ti, os outros e o mundo.


A dimensão espiritual é como o tempo para Santo Agostinho. Se não nos perguntarem sabemos o que é, mas se nos perguntarem, directamente, é difícil encontrar uma explicação aceite por todos. A mais próxima encontrei-a na criatividade. 


O que expressa um poema, uma música, ou uma pintura, senão o que as palavras ou raciocínios dificilmente conseguem explicar? É uma experiência de intimidade. Por isso, se aprofundarmos a experiência espiritual como de uma íntima criatividade, penso que até os não-crentes nessa dimensão humana irão, gradualmente, reconhecê-la em si. Mas, enquanto uma grande parte reconhece a experiência espiritual, muitos rejeitam a experiência religiosa.


Há uma aversão de muitos à religião organizada, mas o que é a religião senão um religar? Um religar de cada um a Deus — pensamos —, e como muitos não acreditam em Deus, deixa para esses de fazer sentido pensar em religião. Se a palavra criatividade ajuda a vislumbrar o que possa ser a dimensão espiritual humana, penso haver, também, uma palavra que ajuda a entender a religião.
 
Comunidade.

É-me cada vez mais difícil entender o valor da religião como organização. A organização surge da vida, não a gera. E a vida surge da experiência da comunidade, dos relacionamentos que construímos, seja ao nível presencial, ou remotamente em tempo de pandemia.


Não tenho memória que ouvir alguém rejeitar a importância que têm as comunidades na vida das pessoas. Muito pelo contrário, se pensarmos, por exemplo, nos períodos de recuperação após desastres naturais, como tsunamis, furacões, ou monções, são as comunidades que levam a vida para a frente. Não será a religião expressão desse religar das pessoas em comunidade através da sua dimensão espiritual?


Oiço muitas pessoas insurgirem-se contra a religião, mas nunca as ouvi como sendo contra as comunidades. O testemunho de comunidade é o melhor que qualquer religião tem para oferecer ao mundo. Um religar que abre o horizonte da experiência sensível e invisível.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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