Tocado

Crónicas 30 abril 2020  •  Tempo de Leitura: 3

Quando podia estar junto da comunidade e com ela celebrar a Eucaristia, no momento da consagração - momento alto - queria tocar-Lhe, mas não podia. Então, pensava que O tocava pelas mãos do sacerdote.

 

Hoje, ao participar diariamente na Eucaristia via streaming por estarmos em época de pandemia, acabo por fazer a mesma experiência, mas percebi melhor o seu sentido e significado. O propósito não era tocar-Lhe, mas ser por Ele tocado. 

 

Não sou eu que toco Deus, mas é Ele que me toca. 

 

Toca-me pelas circunstâncias do momento, pelas oportunidades abertas de poder estar mais tempo em diálogo com Ele, reconhecendo-O naqueles que nos são mais próximos.

 

Ele toca-me através do que leio, rezo, escuto e faço. E não importa o que sinto ou penso. Importa apenas a consciência de que, de algum modo, sou por Ele tocado.

 

A sensibilidade ao toque não se restringe ao sentido físico do termo, mas estende-se ao sentido mental e espiritual por sermos indivíduos.

 

Há pouco tempo li que a origem da palavra individual é indivisível e compreendi melhor o facto de sermos uma unidade sem divisão ou confusão de corpo, mente e espírito. Pois, em Deus, há uma unidade indivisível entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

 

Somos tocados na nossa individualidade, mas enquanto o mundo transformou o sentido desse termo para algo que nos volta para nós próprios, penso que vale a pena recuperar algo da sua indivisibilidade. Pois, quando Ele me toca, toca-me totalmente em tudo o que me faz ser.

 

Ser tocado, assim, faz-nos descobrir a nossa própria totalidade que não se restringe ao corpo, ou à mente, ou ao espírito, mas entrelaça todas essas dimensões em cada um de nós.

 

Por isso, quando a visão da totalidade d’Ele no pão Eucarístico entra pela minha visão através de um ecrã, sou tocado na totalidade porque a Sua totalidade não se limita a uma presença física e não cessa de encontrar os modos mais criativos de nos tocar.

 

Desejemos ser tocados para que desse momento misterioso surja uma pequena luz. A luz suficiente para iluminar a escuridão da impossibilidade de O tocar e aumentar em nós, ainda mais, o desejo de sermos tocados.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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