És feliz?

Crónicas 16 janeiro 2020  •  Tempo de Leitura: 4

Felicidade. O desejo mais antigo da humanidade que atravessa raças, culturas, tempo ou lugar. Não há quem não deseje ser feliz. Não é fácil definir esta palavra, mas a maior parte de nós está de acordo em ser um estado psicossomático-espiritual de bem-estar e realização. E todos os dias, tudo o que fazemos, umas vezes mais evidente, outras vezes menos, concorre para nos aproximarmos da felicidade. O desafio está nas escolhas e caminhos percorridos. Um desses caminhos é o biológico.

 

Quando fazemos bem alguma coisa, seja o que for, o nosso cérebro liberta uma substância química neurotrasmissora que nos dá um sentido de realização: a dopamina. É o recurso a essa biologia humana que fazem as redes sociais com estratégias como o botão Gosto no caso do Facebook, ou o coração no caso do Instagram. Dão-nos um sentido de realização pela validação que sentimos da parte dos outros e, independentemente do significado que possam ter os gostos, verdadeiro ou falso, fazem-nos sentir - de certo modo - felizes, mas só aparentemente. Depois, quando não obtemos tantos gostos como gostaríamos segue-se a ressaca e verificamos como a felicidade era aparente, revelando-se mais um vício do que uma virtude. A biologia é um caminho real, mas insuficiente para chegar à felicidade. Um outro caminho é o intelectual.

 

Através dos pensamentos que temos, dos textos que lemos, podemos experimentar a felicidade. Seria a felicidade do sentido e significado que as ideias dão à nossa vida. Este caminho envolve o biológico, com a dopamina, mas vai além do nosso corpo e atinge a nossa mente. A clareza de uma ideia pode ser uma razão para se ser feliz. Mas quando nos apercebemos de que a ideia era errada podemos experimentar a desilusão. Logo, o caminho intelectual para a felicidade é insuficiente. Um terceiro caminho é o espiritual.

 

É muito frequente ouvir numa eucaristia, durante uma homilia, a questão - "o que é a felicidade?" - mas ninguém se surpreende já quando o sacerdote diz - "é Deus." Ainda que o crente tenha interiorizado de que a verdadeira felicidade encontra apenas em Deus, será que acredita realmente nisso? Não chega ouvir, mas sem uma experiência relacional do amor de Deus, corremos o risco de não fazer caminho. E um caminho espiritual para a felicidade, sem o intelectual ou biológico, é coxo.

 

Pensando bem, talvez haja apenas um caminho para a felicidade e não três. Um caminho que envolve o nosso corpo, a mente e o espírito que são uma coisa só em cada ser humano que nasce. Não há receitas que nos permitam dar uma resposta afirmativa quando nos perguntam se somos felizes. O que há são gestos quotidianos que nos revelam pouco a pouco o caminho para a felicidade. Esse envolve tudo. Dopamina, clareza, mas o essencial será mesmo Deus. Um exemplo.

 

Imagina que o teu esposo ou esposa, pai ou mãe, ou mesmo um irmão ou familiar, escreve-te um bilhete e coloca-o em cima do telemóvel na tua mesa de cabeceira para o leres assim que te acordas. Esse bilhete diz - "Obrigado por existires e seres quem és." - o que sentes? É claro? Sabes, realmente, quem to disse?

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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