800 anos depois, São Francisco ainda nos desarma

Pastoral da Comunicação 4 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 5

Francisco morreu no chão. Na noite de 3 de outubro de 1226, na Porciúncula, depois de abençoar os irmãos, morreu estendido sobre a terra nua. O dia seguinte ficaria ligado para sempre à sua memória. Em 2026, o 4 de outubro é vivido com o peso particular do VIII centenário daquele trânsito.

 

A imagem resiste ao tempo: um homem sem nada para segurar, entregando a última coisa que nenhum de nós consegue possuir — a própria vida.

 

Oito séculos dão tempo suficiente para romancear um santo. Francisco cabe facilmente entre pássaros, flores, presépios e histórias de mansidão. Fica próximo. Também pode ficar inofensivo. O Papa Francisco percebeu esse risco. Em 2022, ao falar do centenário que então se preparava, confessou que escolhera o nome de um santo «muito popular, mas também muito incompreendido».

 

A pobreza de Francisco não era gosto pela miséria, a relação com a criação não era ecologia sem Evangelho e a paz não era uma disposição simpática. No centro estava Cristo.

A paz não é uma imagem bonita

Em Assis, a 4 de outubro de 2013, o Papa Francisco foi direto: «A paz franciscana não é um sentimento piegas. Por favor, este São Francisco não existe!»

 

Em plena Quinta Cruzada, 1219, Francisco atravessou as linhas de guerra para se encontrar com o sultão al-Malik al-Kamil. Não conhecemos com segurança as palavras trocadas entre os dois. Sabemos que houve encontro onde havia combate.

 

Leão XIV recuperou essa imagem na carta com que abriu o VIII centenário: Francisco atravessou «desarmado [...] as linhas de guerra e de incompreensão». E explicou por que razão ele continua a falar a um tempo ferido por conflitos: «Não porque oferece soluções técnicas, mas porque a sua vida indica a fonte autêntica da paz.»

 

Essa paz começa antes de uma mesa de negociações. Começa quando deixamos de usar a verdade para esmagar alguém. Num grupo de mensagens onde recusamos a humilhação fácil. Numa comunidade cristã onde autoridade não significa vencer todas as discussões. Numa família onde pedir perdão vale mais do que preparar a defesa perfeita.

 

Pobreza é deixar de possuir o mundo

Também a pobreza de Francisco é fácil de a tornar romântica. Mas não há romantismo na experiência do leproso, na renúncia aos privilégios ou na decisão de viver sem transformar as coisas e as pessoas em propriedade.

 

Na Laudato si’, o Papa Francisco encontrou aqui uma chave decisiva. A austeridade do santo, escreveu, era «uma renúncia a fazer da realidade um mero objecto de uso e domínio». A frase vai muito além do consumo. Podemos possuir objetos. Tentamos muitas vezes possuir também tempo, atenção, reputação, relações, até a versão dos acontecimentos que nos deixa sempre do lado certo.

 

Francisco desarruma esta lógica. A criação deixa de ser matéria disponível. O pobre deixa de ser problema a resolver à distância. O outro deixa de ser adversário a derrotar. Tudo começa a ser recebido como relação.

 

Chamar irmã àquilo que não controlamos

No fim da vida, Francisco acrescentou ao Cântico das Criaturas o louvor pela «irmã morte corporal». Não estava a fazer da morte uma coisa bonita. Estava a aproximar-se do fim. Chamá-la irmã era reconhecer que nem a morte escapa à condição de criatura.

 

Hoje, no Angelus de 4 de outubro de 2026, Leão XIV voltou ao coração da questão. Recordou Francisco como alguém que reparou a Igreja «sanando as fissuras da discórdia com o testemunho do amor fraterno» e afirmou: «O carisma de São Francisco continua a dar frutos ainda hoje, após oito séculos».

 

Talvez esses frutos se reconheçam menos nas comemorações do que nas escolhas que elas provocam. Interromper uma corrente de desprezo. Pedir desculpa sem acrescentar uma justificação. Repartir uma tarefa que caiu sempre sobre a mesma pessoa. Consumir menos. Aproximar-se de alguém que já reduzimos a um rótulo. Recusar a violência verbal quando seria fácil receber aplausos por ela.

 

Francisco morreu sem nada nas mãos. Oito séculos depois, continua a questionar-nos de quantas coisas precisamos de nos desarmar para receber e dar  a paz.

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