Simpósio 2026: Um mapa nunca mostra tudo.
Um mapa mostra caminhos percorridos, fronteiras conhecidas, lugares que alguém viu e decidiu registar. Mas há sempre zonas por desenhar. Durante muito tempo, os cartógrafos trabalharam assim: com observação, relatos, hipótese e confiança. Talvez educar hoje se pareça muito com isso.
No plenário de encerramento, Da reflexão ao compromisso – apresentação dos compromissos fundamentais, Pedro Valinho Gomes retomou o caminho percorrido no Simpósio «Traçar Mapas Educativos para uma Magnífica Humanização» e lançou uma pergunta que atravessava muito do que tinha sido discutido ao longo daqueles dias: «Como é que se desenha o mapa do que ainda não conhecemos e apenas adivinhamos estar a chegar?»
Não sabemos exatamente como será a escola daqui a dez anos. Não sabemos até onde chegará a inteligência artificial, como mudará o trabalho ou que novas formas de relação surgirão. Educar assim é, de algum modo, navegar à vista. Mas navegar à vista não significa navegar sem direção.
Voltar a escutar
Vivemos depressa. Mudam as tecnologias, mudam os ritmos sociais, mudam os hábitos e parece aumentar, ao mesmo tempo, a dificuldade de parar.
Pedro Valinho Gomes recuperou a ideia de «ressonância»: a capacidade de deixar que alguma coisa ou alguém verdadeiramente nos alcance. Para isso é preciso tempo. Atenção. Disponibilidade. E foi formulado um compromisso educativo muito concreto: criar nas escolas «tempos e lugares de demora e ressonância, onde se escuta sem pressa, sem avaliação, com atenção e cuidado».
Nem todos os momentos escolares precisam de produzir uma nota. Nem todas as perguntas precisam de uma resposta imediata. Nem toda a aprendizagem precisa de ser mensurável no instante seguinte.
Às vezes, educar é deixar uma pergunta ficar. Maria Zambrano foi recordada durante o simpósio: ter um educador não é apenas ter alguém a quem fazer perguntas, mas alguém diante de quem nos podemos perguntar. É uma diferença enorme.
A escola não é apenas o lugar onde encontramos respostas. Também deve ser o lugar onde aprendemos a formular perguntas sobre nós, sobre os outros e sobre aquilo que fazemos com a nossa vida.
Aprender a ver aquilo que falta
Outra palavra apareceu na conferência, estranha à primeira audição: oftalmosofia. Uma sabedoria do olhar.
Não basta ver o que está à frente. É preciso aprender a desconfiar daquilo que parece evidente e procurar aquilo que ficou fora do enquadramento. A história usada para explicar esta ideia é conhecida. Durante a Segunda Guerra Mundial, analisavam-se os aviões que regressavam das missões para perceber onde deveriam ser reforçados. A solução parecia óbvia: proteger as zonas mais atingidas. O matemático Abraham Wald percebeu o contrário. Era preciso olhar para os lugares onde não havia marcas. Os aviões atingidos nesses pontos simplesmente não tinham regressado.
Também a educação precisa desta capacidade. Ver não apenas o aluno que fala, mas aquele que se tornou silencioso. Não apenas a dificuldade evidente, mas aquilo que pode estar escondido atrás dela. Não apenas quem está dentro do nosso círculo, mas quem ficou fora.
Num tempo de polarização, a educação tem ainda outra responsabilidade: impedir que o outro se transforme rapidamente em «eles». O compromisso formulado na conferência foi este: educar um olhar «que procura o que falta, que se deixa corrigir pelo que não vê e que reconhece em cada pessoa alguém com lugar na nossa história».
Talvez uma parte da humanização comece precisamente aqui. No modo como olhamos.
Deixar aparecer caminhos
Há uma imagem belíssima na intervenção. Numa universidade norte-americana, decidiu-se não traçar imediatamente os caminhos de um grande relvado. Deixaram os estudantes atravessá-lo durante meses. As pessoas caminharam. Pouco a pouco, os passos foram desenhando percursos na erva. Só depois esses caminhos foram pavimentados. Chamam-lhes desire paths, caminhos de desejo.
Há qualquer coisa profundamente educativa nesta imagem. Nem todos os percursos precisam de ser decididos antecipadamente. Às vezes é preciso observar onde a vida começa a abrir caminho. Por isso, a esperança não é simplesmente imaginar um futuro longínquo em que tudo correrá melhor. É aprender a imaginar o presente.
Perceber aquilo que já está a nascer. Reconhecer o bem que já acontece. Ajudar um jovem a descobrir que ainda existem possibilidades quando ele próprio deixou de as ver.
Pedro Valinho Gomes insistiu que perante a ansiedade, a exaustão e a perda de sentido, educar também é «oferecer mediações de esperança a cada jovem». Não prometer uma vida sem obstáculos. Ajudar a encontrar caminhos. E há ainda um último território a habitar: o limiar.
Estamos entre um mundo que conhecemos e outro que ainda não sabemos nomear. A inteligência artificial torna essa fronteira particularmente visível. As categorias antigas já não chegam, mas as novas ainda não estão completamente construídas.
Talvez seja por isso que uma educação de inspiração cristã tenha aqui algo de importante a oferecer. Não porque possua respostas prontas para tudo. Mas porque conhece bem a experiência de viver entre promessa e cumprimento, tradição e novidade, pergunta e esperança. A educação precisa de pessoas capazes de permanecer nesse espaço sem fugir imediatamente para uma resposta fácil.
Como foi dito na conferência, talvez o compromisso seja «ficar com as questões longas sem as apressar».
Há perguntas que merecem esse tempo. E talvez educar seja precisamente isto: caminhar com alguém enquanto o mapa ainda está a ser desenhado.