Simpósio 2026: O Lápis ainda está na nossa mão
Falar do futuro da educação pode facilmente transformar-se num exercício de ansiedade. Há mudanças que não controlamos, tecnologias que avançam mais depressa do que conseguimos acompanhar, alunos que chegam à escola com novas fragilidades, novas linguagens e outras formas de estar no mundo. Mas talvez o futuro não tenha de ser apenas aquilo que nos acontece.
Foi precisamente a partir desta tensão que a psicólaga Susana Costa Ramalho, na conferência Que transformações se adivinham/desenham para a Educação?, propôs um olhar sobre aquilo que já está a mudar nas escolas e, sobretudo, sobre a parte desse futuro que ainda podemos ajudar a construir.
Uma expressão ficou a ecoar: desenhar o futuro. E a palavra foi levada a sério. «Desenhar é um verbo de mão [...] é um verbo de quem está ainda num traço incompleto.»
Há qualquer coisa de profundamente esperançoso nesta imagem. O desenho ainda não está terminado. Não sabemos exatamente como será a escola daqui a dez ou vinte anos. Mas «o lápis também está na nossa mão». Há escolhas que continuam a pertencer-nos.
Quando temos informação, mas nos falta discernimento
Os alunos nunca tiveram acesso tão rápido a tanta informação. Um resumo aparece em segundos. Um vídeo explica. Um algoritmo recomenda outro. E depois outro. O problema já não é apenas chegar à informação. É saber o que fazer com ela.
Distinguir um facto de uma opinião. Reconhecer uma notícia falsa. Perceber quando uma ideia procura informar ou manipular. Discernir entre o verdadeiro e o falso, entre aquilo que constrói e aquilo que destrói.
Esse trabalho é particularmente difícil quando grande parte da experiência digital acontece quase sem reflexão. Fazemos scroll. Vemos. Passamos. Voltamos a ver. O algoritmo aprende aquilo que nos prende e oferece-nos mais do mesmo.
A identidade também começa a ser construída dentro deste mecanismo. Um adolescente olha para os outros, compara-se, mede-se por vidas que vê editadas num ecrã e pode acabar fechado numa realidade cada vez mais estreita. A escola não consegue responder a isto oferecendo apenas mais conteúdos. Precisa de oferecer pessoas.
Alguém que saiba o nosso nome
Humanizar a escola não significa baixar a exigência. Esta distinção foi feita com clareza na conferência. Humanizar é olhar para o aluno sem o reduzir às suas dificuldades, às notas, à falta de atenção ou ao comportamento que nos irritou naquela manhã. É trocar uma lógica centrada no défice por outra capaz de reconhecer potencial.
E há uma frase que deveria ficar escrita em muitas salas de professores: «Aprendemos quando nos sentimos vistos e reconhecidos e quando sabemos que alguém sabe o nosso nome e que espera alguma coisa de nós.»
Não há ingenuidade nisto. Um professor pode exigir muito e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade de quem aprende. Pode corrigir sem humilhar. Pode estabelecer limites sem diminuir. Pode mostrar a um aluno que espera mais dele precisamente porque acredita que ele é capaz de mais.
«Ninguém aprende a sentir-se mal», recordou Susana Costa Ramalho a propósito de uma experiência concreta de humilhação em contexto educativo. O medo até pode produzir obediência ou um resultado imediato. Mas isso está longe de significar aprendizagem.
Talvez uma parte importante da transformação educativa passe por aqui. Menos obsessão por criar programas que prometem resolver todos os problemas. Mais atenção à qualidade das relações que já existem dentro da escola. Entre alunos e professores. Entre professores. Entre escola e famílias.
Uma escola também pode perguntar como estão os seus professores. Pode chamar os pais não apenas quando alguma coisa corre mal, mas para os fazer participar. Pode preocupar-se com o bem-estar dos alunos sem considerar que isso diminui a exigência académica. Educar uma pessoa inteira obriga-nos a sair das gavetas.
Dar sentido. Construir esperança.
Há ainda uma pergunta que a escola não pode evitar: para quê? Para que aprendo isto? O que faço com este conhecimento? O que é que ele muda na forma como olho para mim, para os outros e para o mundo?
Para a Educação Moral e Religiosa Católica, esta pergunta tem um peso especial. Não basta transmitir conteúdos sobre religião ou ética. Há um espaço privilegiado para ajudar os jovens a confrontarem-se com a pergunta pelo sentido, precisamente num tempo em que tantos parecem ter dificuldade em encontrá-lo.
E é aqui que surge a esperança. Não uma esperança infantil que repete que tudo acabará bem. «A esperança não é ingenuidade.»
Há situações que não terminam bem. Há perdas, fracassos e acontecimentos que não controlamos. Construir esperança é outra coisa: ajudar alguém a perceber que, mesmo no meio da incerteza, o futuro continua aberto e existe uma parte da história na qual ainda podemos intervir.
Talvez seja essa uma das tarefas mais bonitas da educação: mostrar a uma criança ou a um jovem que existe mais do que um caminho possível e que ele não precisa de fazer o percurso sozinho. Também por isso não basta retirar telemóveis, fechar aplicações ou proibir ecrãs.
A pergunta seguinte é mais difícil: o que colocamos no lugar?
Se desligamos o telemóvel, mas cada pessoa se fecha no seu quarto, pouco ganhámos. Se retiramos o ecrã, precisamos de devolver conversa, presença, tempo partilhado, perguntas feitas sem pressa.
Talvez a educação do futuro precise também disto: continuar a desenhar, corrigir o traço quando for necessário e não esquecer que, no meio de tanta mudança, «na essência é o lugar onde nós nos encontramos».