Simpósio 2026: Saber estar com IA. E saber estar sem IA.

Pastoral da Comunicação 3 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 10

Se a inteligência artificial consegue escrever, traduzir, resumir, programar, criar imagens e responder quase imediatamente às nossas perguntas, porque continuamos a precisar de aprender?

 

A resposta talvez não esteja naquilo que uma máquina consegue fazer. Está naquilo em que nós nos tornamos enquanto aprendemos.

 

Foi uma das provocações centrais lançadas pelo Dr. João Couvaneiro, na conferência Uma educação humanista na era da Inteligência Artificial: perceber que esta tecnologia não está apenas a transformar as ferramentas que usamos. Está também a obrigar-nos a regressar às perguntas mais essenciais da educação: o que significa ensinar, aprender e, em última análise, continuar humanos.

 

Estamos perante algo profundamente novo. Não apenas porque surgem ferramentas novas quase todos os dias, mas porque começamos a conviver com sistemas capazes de criar textos, imagens, música, código e outros produtos culturais. Até agora, a cultura era produzida por pessoas e ajudava a moldar sociedades humanas. Hoje, também as máquinas começam a participar nessa produção.

 

A pergunta deixa, por isso, de ser apenas tecnológica. O que acontece connosco quando começamos a entregar às máquinas aquilo que sempre considerámos profundamente humano?

 

Aprender precisa de tempo

Talvez a primeira coisa que a inteligência artificial nos obrigue a recuperar seja precisamente aquilo que ela parece dispensar: o tempo.

 

Na conferência, a afirmação surgiu sem rodeios:

«O tempo é absolutamente essencial. A aprendizagem é um exercício lento. É um exercício difícil.»

 

Vivemos, porém, rodeados pela promessa contrária. Tudo deve ser rápido. A resposta deve chegar imediatamente. O texto deve ficar pronto. A imagem deve aparecer. O problema deve ser resolvido.

 

Mas aprender não acontece dessa maneira.

Há perguntas com as quais precisamos de viver durante algum tempo. Há erros que precisamos de cometer. Há caminhos que temos de experimentar antes de encontrar uma resposta. Há aquele momento em que algo finalmente se torna claro e percebemos que não recebemos apenas uma informação: compreendemos.

 

É por isso que uma das frases mais importantes da conferência talvez tenha sido esta:

«A simplificação do processo não se traduz na aprendizagem. A qualidade do produto não se traduz em aprendizagens efetivas.»

 

Um aluno pode entregar um trabalho extraordinário e ter aprendido muito pouco. Esta realidade não nasceu com o ChatGPT. Sempre houve atalhos, cópias e trabalhos feitos com ajuda excessiva dos outros. A inteligência artificial apenas tornou o atalho extraordinariamente mais rápido, sofisticado e difícil de reconhecer.

 

Entre os dados e a sabedoria

Nunca tivemos tantos dados. Deixamo-los quando pesquisamos, compramos, viajamos, vemos um vídeo, ouvimos música ou simplesmente transportamos um telemóvel no bolso.

 

Mas a conferência introduziu aqui uma distinção decisiva:

«Os dados não são conhecimento.»

 

Os dados podem transformar-se em informação. A informação pode ajudar-nos a construir conhecimento. Mas há ainda outra dimensão, mais difícil de medir e quase impossível de automatizar: a sabedoria.

 

A sabedoria pergunta pelo significado. Não pergunta apenas o que posso fazer?, mas devo fazê-lo? Não procura apenas uma resposta plausível. Procura perceber as suas consequências, os seus limites e o lugar que essa resposta ocupa na vida.

 

É também por isso que a literacia em inteligência artificial não pode consistir apenas em aprender a escrever bons prompts. Precisamos de ensinar os jovens a perguntar de onde vem uma resposta, que interesses existem por detrás de uma plataforma, que dados são recolhidos, que perspetivas podem estar ausentes e até que ponto aquilo que parece convincente é verdadeiro.

 

E precisamos de recuperar uma competência antiga, talvez cada vez mais preciosa: a dúvida.

 

A palavra mais importante é «relação»

Quando se fala de inteligência artificial na educação, a discussão acaba muitas vezes por chegar à mesma pergunta: o professor continuará a ser necessário? A conferência respondeu-lhe de uma maneira particularmente humana.

 

Ao falar da «relação pedagógica», o Dr. João Couvaneiro chamou à atenção para aquilo que tantas vezes passa despercebido:

«A palavra mais importante é a primeira desta expressão: a palavra mais importante é a relação.»

 

Uma máquina pode explicar um conceito. Pode adaptar uma atividade. Pode produzir exercícios diferentes para cada aluno. Pode até responder com paciência infinita. Mas não conhece verdadeiramente aquele aluno. Não percebe um silêncio como o percebe alguém que acompanha. Não reconhece da mesma forma um olhar, uma ausência, uma mudança de comportamento. Não partilha uma história. Não acredita num jovem antes de ele próprio acreditar em si.

 

É aqui que o professor se torna insubstituível. Não porque tenha todas as respostas, mas porque entra numa relação. E porque pode fazer outra coisa extraordinariamente humana: entusiasmar.

 

Um professor que ama aquilo que ensina não transmite apenas informação. Dá alma ao conhecimento. Faz com que alguém tenha vontade de descobrir mais.

 

Aprender é tornar-se humano

Talvez seja também por isso que a pergunta «se a IA consegue fazer, porque é que eu tenho de aprender?» não tenha uma resposta meramente utilitária. Não aprendemos Matemática apenas para resolver cálculos. Não estudamos História apenas para decorar datas. Não escrevemos apenas porque um dia teremos de produzir textos. Aprendemos porque o próprio processo nos transforma.

 

Na conferência, a ideia foi formulada de forma particularmente forte:

«A aprendizagem é um processo de desenvolvimento humano. E por isso aprender é uma forma de nos tornarmos humanos.»

 

Aprender obriga-nos a persistir, lidar com a frustração, imaginar, relacionar, interpretar, comunicar e descobrir aquilo de que somos capazes. Se delegarmos sistematicamente nas máquinas tudo o que exige esforço, talvez obtenhamos melhores produtos. Mas podemos perder parte do processo que nos constrói. Eficiência e crescimento humano não são necessariamente a mesma coisa.

 

Saber estar com IA. E saber estar sem ela.

Não vale a pena fingir que a inteligência artificial vai desaparecer. A escola terá de ensinar sobre IA. Terá de ensinar com IA. Terá de ajudar os alunos a perceber como funcionam estas ferramentas, quais são os seus limites e como podem ser usadas para criar, investigar e aprender.

 

Mas há uma terceira dimensão que talvez seja ainda mais importante.  Ser sem IA. A expressão apareceu quase no final da conferência e talvez concentre grande parte daquilo que estava em causa. Há momentos em que precisamos de pensar sem assistência. Escrever sem sugestão automática. Conversar sem um algoritmo entre nós. Estar em silêncio. Criar sem perguntar primeiro à máquina. Aceitar a dificuldade de ainda não saber.

 

Porque, como foi dito:

«A aprendizagem daquilo que significa ser humano é na relação com o outro.»

 

É uma ideia simples e, ao mesmo tempo, profundamente desafiante. Podemos construir máquinas cada vez mais capazes de nos imitar, aconselhar, acompanhar e até antecipar aquilo de que gostamos. Mas aprender a ser pessoa continua a exigir outras pessoas. Talvez seja este o verdadeiro desafio educativo da inteligência artificial. Não escolher entre humanidade e tecnologia. Mas garantir que, ao aprender a viver com máquinas cada vez mais inteligentes, não desaprendemos aquilo que significa viver uns com os outros. Afinal, a escola nunca foi apenas um lugar onde se distribui informação.

 

«A escola, tal como a universidade, não é uma rede de informação apenas, não é um supermercado intelectual, é uma instituição humanista.»

E talvez seja precisamente disso que mais precisaremos no futuro.

Texto elaborado pelo iMISSIO a partir dos apontamentos recolhidos durante a conferência do Dr. João Couvaneiro, «Uma educação humanista na era da Inteligência Artificial», apresentada no Simpósio «Traçar Mapas Educativos para uma Magnífica Humanização».

O portal iMissio é um projeto de evangelização iniciado em 2012, que tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem.

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