«Católico… e ansioso?»: para corações inquietos que procuram paz
Alguma vez te perguntaste: «Se tenho fé, porque continuo a sentir ansiedade? Se rezo, vou à Missa, comungo e procuro confiar em Deus, porque continua o meu coração inquieto?» Talvez até tenhas tentado reduzir a ansiedade com mais oração e, como ela não desapareceu, tenhas acabado por pensar que há algo de errado contigo ou com a tua fé. Mas e se o problema estiver precisamente em acreditar que uma pessoa que tem fé já não deveria sentir angústia?
Por vezes, sem nos apercebermos, interiorizamos uma ideia errada da vida cristã: a de que quem confia verdadeiramente em Deus deveria estar sempre tranquilo, alegre e sereno. Como se a preocupação, o medo, a tristeza ou a ansiedade fossem sinais de uma fé fraca.
Mas basta olhar para o Evangelho para descobrir que a experiência humana de Jesus foi muito mais profunda.
No jardim de Getsémani, antes da sua Paixão, Jesus sente uma angústia tão intensa que São Lucas descreve a sua oração dizendo que «entrou em agonia» (Lc 22,44). Jesus reza. Jesus confia no Pai. Jesus sabe que a sua vida está nas mãos do Pai. E, no entanto, sente angústia.
Isto é importante: sentir não é o mesmo que deixar de confiar.
Podemos ter fé e sentir medo. Podemos amar a Deus e estar cansados. Podemos rezar e continuar preocupados. Podemos receber a Eucaristia e, algumas horas depois, ter uma crise de ansiedade.
A fé não nos transforma em pessoas de pedra. Pelo contrário, permite-nos viver a nossa humanidade diante de Deus.
Por isso, quando surge a ansiedade, talvez não precisemos de nos perguntar imediatamente: «O que estou a fazer de errado espiritualmente?» Poderíamos começar por outra pergunta: «O que se está a passar comigo e como posso atravessar esta situação com alguém ao meu lado?»
Como reduzir a ansiedade sem transformar a fé numa obrigação?
Quando uma pessoa vive com ansiedade, pode surgir uma segunda angústia: sentir-se culpada por estar angustiada. «Devia confiar mais», «Devia estar tranquilo», «Se tivesse realmente fé, isto não me aconteceria».
E então acontece precisamente o contrário daquilo de que precisamos, pois à ansiedade inicial junta-se a culpa por sentir ansiedade. É aqui que precisamos de recuperar uma verdade muito simples: Deus não nos pede que neguemos aquilo que estamos a viver para lhe demonstrarmos que confiamos n’Ele.
A oração cristã não consiste em apresentarmo-nos diante de Deus fingindo que está tudo bem. Os Salmos estão cheios de pessoas que choram, questionam, reclamam, esperam e voltam a confiar. A oração pode ser precisamente o lugar onde deixamos de esconder aquilo que trazemos dentro de nós.
Por isso, num momento de angústia, talvez a nossa oração não tenha de ser perfeita. Pode ser simplesmente: «Senhor, tenho medo», «Senhor, não sei o que se está a passar comigo», «Senhor, não consigo enfrentar isto sozinho», «Senhor, fica comigo».
Há uma enorme diferença entre pedir a Deus que nos livre imediatamente de todo o sofrimento e aprender a pedir-lhe que permaneça connosco enquanto o atravessamos. Isto não significa resignarmo-nos ao sofrimento. Significa descobrir que a nossa relação com Deus não depende de termos sempre as emoções sob controlo.
A fé e a ajuda profissional não competem entre si
Também precisamos de ultrapassar outro preconceito: pensar que procurar ajuda psicológica ou médica significa ter pouca fé. Não.
O ser humano é uma realidade integral. Temos corpo, emoções, pensamentos, relações, uma história e uma dimensão espiritual. Por isso, quando existe sofrimento psicológico significativo, procurar ajuda profissional pode fazer parte dos cuidados de que precisamos.
Um psicólogo pode ajudar-nos a compreender o que estamos a viver e a desenvolver ferramentas para lidar com isso. Um médico pode avaliar aspetos físicos ou clínicos, quando necessário. Uma pessoa de confiança pode oferecer-nos escuta. Um sacerdote ou acompanhante espiritual pode ajudar-nos a viver a nossa relação com Deus no meio de tudo isto.
Não temos de escolher entre Deus e os meios humanos que nos podem ajudar. Também nos podemos perguntar: porque haveríamos de pensar que Deus só nos pode ajudar de uma maneira?
Por vezes, esperamos um milagre enquanto Deus nos oferece, precisamente, uma pessoa que sabe escutar-nos, um profissional que nos pode orientar, uma família que nos pode acompanhar ou um tratamento que nos pode ajudar.
A fé não elimina a responsabilidade de cuidarmos de nós.
Lembra-te de que não tens de estar bem a toda a hora. Talvez uma das coisas mais libertadoras que podemos aprender seja esta: não temos de estar bem para estar com Deus.
- Podemos chegar à oração cansados.
- Podemos ir à Missa com a cabeça cheia de preocupações.
- Podemos comungar enquanto continuamos a sentir angústia.
- Podemos ajoelhar-nos diante do Santíssimo sem ter palavras.
E o melhor de tudo é que Deus continua presente.
A Eucaristia não é um prémio para quem conseguiu pôr perfeitamente em ordem as suas emoções. É Cristo que se entrega a nós. A oração também não é uma prova em que temos de passar, demonstrando que já não sentimos medo. É um encontro.
Por isso, quando surgir a ansiedade, podemos tentar mudar uma frase: em vez de repetirmos apenas «Meu Deus, tira-me isto», podemos acrescentar: «Meu Deus, acompanha-me nisto».
E talvez essa pequena mudança transforme a nossa maneira de viver o momento.
Não porque a ansiedade desapareça imediatamente, mas porque deixamos de a viver como uma batalha que temos de vencer sozinhos. Deus também está aqui.
Há momentos em que a vida nos faz sentir especialmente vulneráveis. E é precisamente aí que podemos descobrir algo de que talvez nos tenhamos esquecido: a nossa fragilidade não nos torna crentes de segunda categoria.
Todos temos momentos em que precisamos de ser amparados.
Talvez a ansiedade possa até ensinar-nos alguma coisa sobre nós próprios. Pode tornar-nos mais conscientes dos nossos limites, mais capazes de compreender o sofrimento dos outros e mais compassivos com aqueles que travam lutas que não conseguimos ver.
Claro que isto não significa romantizar a ansiedade nem pensar que precisamos de sofrer para crescer. O sofrimento não é bom em si mesmo. Mas, mesmo no meio de uma experiência difícil, Deus pode abrir caminhos de graça.
Então, o que podemos fazer hoje para reduzir a ansiedade?
Um passo concreto para reduzir a ansiedade: falar. Falar com alguém de confiança. Marcar uma consulta com um profissional, se a ansiedade estiver a interferir significativamente com a nossa vida. Procurar acompanhamento espiritual. E, sobretudo, deixar de nos esconder de Deus.
Podemos sentar-nos alguns minutos em silêncio, olhar para um crucifixo e dizer simplesmente: «Senhor, aqui estou. Não sei como resolver isto. Mas não quero vivê-lo sozinho».
Talvez essa oração não mude imediatamente as nossas circunstâncias. Mas pode recordar-nos algo fundamental: Deus não se afasta de nós por estarmos ansiosos.
E talvez seja aí que comece outro caminho para reduzir a ansiedade: não a partir da exigência de nos sentirmos imediatamente bem, mas da certeza de que podemos pedir ajuda, cuidar da nossa humanidade e caminhar com Deus no meio daquilo que estamos a viver.
Porque ter fé não significa que nunca mais voltaremos a sentir medo. Significa que, mesmo quando o medo aparece, podemos continuar a caminhar acompanhados.
[Tradução iMISSIO | Montoya, M. (2026, 19 de outubro). «Católico…¿y ansioso?»: un video para corazones inquietos que buscan paz. Catholic Link. https://catholic-link.com/reducir-la-ansiedad/]