A coragem de ser verdadeiro sem deixar de amar
Nem sempre é fácil dizer o que pensamos. Sobretudo quando sabemos que a verdade pode desagradar. Mas será possível ser fiel à consciência sem deixar de cuidar dos outros?
Numa reunião, alguém faz um comentário injusto sobre uma pessoa que não está presente. Percebes a injustiça, mas os outros riem e acabas por sorrir também. A conversa termina, mas aquele sorriso continua a incomodar-te. Noutras ocasiões, aceitas mais uma tarefa, escondes uma discordância ou dizes que está tudo bem, simplesmente para evitar problemas. Nem sempre é falta de coragem. Há silêncios que nascem da prudência e outros que nos protegem de consequências reais. Mas quantas vezes concordamos apenas porque temos medo de desagradar?
No Angelus de 18 de outubro, o Papa Leão XIV recorda o episódio em que tentam apanhar Jesus em contradição, perguntando-lhe se é lícito pagar o imposto a César. Jesus não cai na armadilha. Não procura agradar nem responde para conquistar aplausos. A propósito desta passagem, o Papa lembra que somos chamados a viver «livres de más ambições e de interesses injustos». Uma exigência que também se aplica às nossas pequenas escolhas quotidianas.
Leão XIV resume esse caminho numa expressão tão simples quanto desafiante: «ser verdadeiro, sem subserviência nem hipocrisia, livre para o bem». Ser verdadeiro não significa dizer tudo o que nos passa pela cabeça, muito menos usar a sinceridade para magoar. Mas amar também não significa concordar sempre, esconder as nossas convicções ou aceitar aquilo que reconhecemos como injusto.
Talvez a verdadeira coragem esteja precisamente aí: saber dizer não sem humilhar, discordar sem deixar de escutar e reconhecer quando somos nós que estamos enganados. Nem sempre o conseguiremos. Mas a liberdade cristã constrói-se nessas escolhas, tantas vezes discretas, em que procuramos ser fiéis à verdade sem esquecer quem está à nossa frente. Porque não precisamos de escolher entre a verdade e o amor. Precisamos de aprender a viver ambos.