O meu som preferido é o balido
Hoje fala-se muito de verdade e autenticidade. Talvez se fale menos daquilo que realmente nos faz falta: saber escutar.
É mais fácil escutar em rebanho, no conforto do ajuntamento, onde tantas vozes se misturam e ecoam pela planície verde, vestida de esperança. Mas será que, no meio de tanto ruído, estamos verdadeiramente atentos?
As ovelhas têm uma linguagem própria. O balido permite-lhes comunicar entre mães e crias, manifestar fome, medo ou desconforto e reencontrar o grupo quando se afastam. Já o berro, mais forte e repentino, pode servir de alerta perante uma ameaça. São sons que revelam necessidades, fragilidades e a procura de proximidade.
Também nós, seres humanos, temos os nossos balidos. Quando nos sentimos perdidos, assustados ou desorientados, procuramos uma voz que nos reconheça. Nem sempre sabemos explicar o que sentimos; por vezes, precisamos apenas que alguém nos escute.
É neste contexto que ganha particular significado a Parábola da Ovelha Perdida, narrada nos Evangelhos de Lucas e Mateus. Jesus conta-a perante as críticas dos fariseus e escribas, incomodados por Ele conviver e comer com pecadores e marginalizados.
A mensagem é simples, mas profundamente transformadora: um pastor não desiste de uma ovelha perdida. Deixa as noventa e nove e parte à procura daquela que falta. Quando a encontra, não a castiga. Coloca-a aos ombros e regressa com alegria.
Jesus fala da vulnerabilidade humana e de um Deus que não abandona quem se afasta. A iniciativa pertence ao Pastor: é Ele quem procura, quem encontra e quem acolhe. A graça de Deus começa precisamente nesta certeza de que somos procurados, mesmo quando já não sabemos regressar.
É também esta confiança que reencontro nos versos de «O Bom Pastor», cântico tradicional alentejano, onde Cristo surge como guia e amparo:
Quando Te encontro descanso,
Tu reconfortas minha alma.
Cristo Senhor és o guia,
O Bom Pastor que me conduz,
Minha vida e minha luz.
A parábola faz-me ainda pensar na vida como um dom. Ninguém dá a si próprio a existência. Recebemos dos nossos pais a vida, a língua, o corpo, as raízes e uma história que nos precede. Mas aquilo que recebemos também nos responsabiliza. Crescer é reconhecer essa origem, aceitar os limites e construir, através das nossas escolhas, o caminho que nos cabe percorrer.
Talvez seja essa a grande lição da ovelha perdida: ninguém fica definitivamente reduzido aos seus erros ou à distância a que se encontra dos outros. Há sempre uma possibilidade de reencontro.
Por isso, quando penso na escuta de um rebanho, confesso que o meu som preferido é o balido. Não o berro de alarme, nem o ruído de tantas vozes que se confundem no ajuntamento. Gosto desse chamamento que procura alguém, que denuncia uma ausência e que, mesmo frágil, insiste em fazer-se ouvir.
Talvez escutar seja precisamente isto: perceber que por detrás de um som existe alguém, uma necessidade, uma história ou um pedido de presença.