O meu som preferido é o balido

Crónicas 2 novembro 2026  •  Tempo de Leitura: 3

Hoje fala-se muito de verdade e autenticidade. Talvez se fale menos daquilo que realmente nos faz falta: saber escutar.

 

É mais fácil escutar em rebanho, no conforto do ajuntamento, onde tantas vozes se misturam e ecoam pela planície verde, vestida de esperança. Mas será que, no meio de tanto ruído, estamos verdadeiramente atentos?

 

As ovelhas têm uma linguagem própria. O balido permite-lhes comunicar entre mães e crias, manifestar fome, medo ou desconforto e reencontrar o grupo quando se afastam. Já o berro, mais forte e repentino, pode servir de alerta perante uma ameaça. São sons que revelam necessidades, fragilidades e a procura de proximidade.

 

Também nós, seres humanos, temos os nossos balidos. Quando nos sentimos perdidos, assustados ou desorientados, procuramos uma voz que nos reconheça. Nem sempre sabemos explicar o que sentimos; por vezes, precisamos apenas que alguém nos escute.

 

É neste contexto que ganha particular significado a Parábola da Ovelha Perdida, narrada nos Evangelhos de Lucas e Mateus. Jesus conta-a perante as críticas dos fariseus e escribas, incomodados por Ele conviver e comer com pecadores e marginalizados.

 

A mensagem é simples, mas profundamente transformadora: um pastor não desiste de uma ovelha perdida. Deixa as noventa e nove e parte à procura daquela que falta. Quando a encontra, não a castiga. Coloca-a aos ombros e regressa com alegria.

 

 

Rebanho sob sobreiros ao sol 

 

Jesus fala da vulnerabilidade humana e de um Deus que não abandona quem se afasta. A iniciativa pertence ao Pastor: é Ele quem procura, quem encontra e quem acolhe. A graça de Deus começa precisamente nesta certeza de que somos procurados, mesmo quando já não sabemos regressar.

 

É também esta confiança que reencontro nos versos de «O Bom Pastor», cântico tradicional alentejano, onde Cristo surge como guia e amparo:

 

Quando Te encontro descanso,
Tu reconfortas minha alma.
Cristo Senhor és o guia,
O Bom Pastor que me conduz,
Minha vida e minha luz.

 

A parábola faz-me ainda pensar na vida como um dom. Ninguém dá a si próprio a existência. Recebemos dos nossos pais a vida, a língua, o corpo, as raízes e uma história que nos precede. Mas aquilo que recebemos também nos responsabiliza. Crescer é reconhecer essa origem, aceitar os limites e construir, através das nossas escolhas, o caminho que nos cabe percorrer.

 

Talvez seja essa a grande lição da ovelha perdida: ninguém fica definitivamente reduzido aos seus erros ou à distância a que se encontra dos outros. Há sempre uma possibilidade de reencontro.

 

Por isso, quando penso na escuta de um rebanho, confesso que o meu som preferido é o balido. Não o berro de alarme, nem o ruído de tantas vozes que se confundem no ajuntamento. Gosto desse chamamento que procura alguém, que denuncia uma ausência e que, mesmo frágil, insiste em fazer-se ouvir.

 

Talvez escutar seja precisamente isto: perceber que por detrás de um som existe alguém, uma necessidade, uma história ou um pedido de presença.

tags: Nuno sousa

Nuno Sousa: casado e pai de um filho. Encontrou na Teologia e na reflexão sobre o fenómeno religioso um dos caminhos para compreender melhor o mundo e as pessoas. Licenciado em Teologia. Encontro-se atualmente a concluir o Mestrado em Ciências Religiosas pela Universidade Católica Portuguesa.

Apaixonado pela música, com um carinho especial pelo Cante Alentejano - essa voz coletiva que, na sua simplicidade e autenticidade, guarda a memória, a identidade e a alma de um povo. Gosta de cinema e de viajar, sempre à procura de novas histórias, lugares e perspetivas que inspirem e o ajudem a olhar o mundo a partir de outros prismas.

Entre a fé e a cultura, a atualidade e o quotidiano, procurará escrever com proximidade, sentido crítico e, sobretudo, com humanidade.

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