D. António Vitalino: da paróquia de bairro ao «púlpito digital»

Crónicas 10 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 10

A proximidade às comunidades, a renovação pastoral e a utilização dos meios digitais marcaram o percurso de um bispo que procurou encontrar novas formas de servir e evangelizar.

 

António Vitalino Dantas, carmelita e bispo emérito de Beja, morreu a 9 de outubro de 2026, aos 84 anos. No seu percurso sacerdotal e episcopal, há uma dimensão que merece ser recordada com particular atenção: a capacidade de reconhecer as mudanças do seu tempo e de procurar respostas pastorais adequadas a novas realidades.

 

Essa atitude não nasceu com a Internet. Já nos anos 1970, quando trabalhou pastoralmente em Santo António dos Cavaleiros, o então padre Vitalino procurava responder a problemas concretos da população. O bairro crescia, muitos adultos passavam o dia fora a trabalhar e crianças e jovens tinham poucas alternativas para ocupar os tempos livres. A resposta passou pela criação de atividades culturais, festas populares e um conjunto musical. Dessa experiência nasceu também uma relação de proximidade com pessoas de diferentes convicções religiosas e políticas.

 

A preocupação era simples: a missão pastoral não podia ficar limitada ao interior da igreja. Era preciso conhecer a vida das pessoas e participar na construção da comunidade. Essa maneira de entender o sacerdócio acompanhou-o nas etapas seguintes.

 

Em 1996, João Paulo II nomeou-o bispo auxiliar de Lisboa. Três anos depois, foi chamado a assumir a Diocese de Beja, onde permaneceu até 2016. Encontrou uma diocese extensa, com comunidades dispersas e desafios pastorais, sociais e económicos próprios do Alentejo. Procurou dar continuidade ao trabalho dos seus antecessores, promovendo a participação do clero e dos leigos, as visitas pastorais e a cooperação entre dioceses da província eclesiástica de Évora.

 

A realização do primeiro Sínodo Diocesano, a dinamização dos órgãos de participação e a preocupação com a formação do clero fizeram parte desse caminho. No testemunho que deixou à revista Família Carmelita, explicou que procurou manter os instrumentos de participação e comunhão previstos para a vida diocesana, ouvir os seus responsáveis e recorrer a diferentes meios de comunicação.

 

Foi também neste contexto que a tecnologia ganhou importância no seu trabalho.

 

02

 

A Internet como espaço de evangelização

António Vitalino percebeu cedo que a comunicação da Igreja não podia ignorar os meios digitais. Em dezembro de 2008, a Agência ECCLESIA noticiou a publicação de uma mensagem de Natal sua no YouTube, referindo que já tinha utilizado a plataforma anteriormente.

 

Numa época em que este tipo de comunicação ainda não fazia parte da prática habitual da maioria das dioceses, o recurso ao vídeo permitia-lhe chegar a pessoas que não estavam fisicamente presentes nas celebrações e criar outra forma de contacto com os diocesanos.

 

Em 2011, numa entrevista ao Diário de Notícias, defendeu que a Igreja deveria utilizar cada vez mais a Internet, a que chamou o «grande púlpito da era digital». A expressão traduz bem a sua compreensão do problema: a evangelização precisava de acompanhar os lugares onde as pessoas comunicavam, procuravam informação e construíam relações.

 

Não se tratava de substituir a comunidade presencial por uma presença virtual. Tratava-se de reconhecer que os meios digitais já faziam parte da vida contemporânea e que a Igreja tinha de aprender a utilizá-los.

 

Por isso, embora não esteja documentalmente estabelecido que tenha sido o primeiro bispo português a recorrer ao YouTube, há fundamento para o considerar um dos pioneiros desta forma de comunicação pastoral.

 

04

 

Informatizar para servir melhor

A sua atenção às novas tecnologias não se ficou pela divulgação de mensagens. Durante o seu ministério em Beja, promoveu a informatização dos serviços da cúria e das paróquias, procurando melhorar a organização administrativa e a circulação da informação.

 

Em entrevista ao Correio Alentejo, explicou o trabalho realizado na reorganização da comunicação diocesana, na introdução de programas informáticos e na preparação dos colaboradores para a sua utilização. A preocupação era prática: tornar os serviços mais funcionais e facilitar o trabalho de quem assegurava a vida quotidiana das comunidades.

 

Esta visão estendeu-se à cooperação entre dioceses. Um projeto de informatização das dioceses do Sul de Portugal procurou facilitar a troca de documentos e informações, incluindo dados relativos a batismos, matrimónios e crismas. A utilização de sistemas em rede podia reduzir dificuldades administrativas e tornar mais simples a comunicação entre estruturas eclesiais.

 

É um aspeto importante do seu legado, porque mostra que a modernização digital não era entendida apenas como uma questão de imagem ou de presença pública. Também podia melhorar o funcionamento interno da Igreja e o serviço prestado aos fiéis.

 

08

 

Da comunicação audiovisual à missão digital

O percurso de D. António Vitalino incluiu igualmente uma ligação à Logomédia e à comunicação audiovisual católica. A experiência neste campo ajuda a enquadrar a sua abertura a diferentes linguagens e meios de comunicação, embora seja necessário distinguir esse percurso das iniciativas de informatização realizadas posteriormente na Diocese de Beja.

 

A sua ligação à missão da Igreja no ambiente digital, corresponde a uma preocupação que marcou o seu ministério: perceber como anunciar o Evangelho num mundo em transformação e como colocar os instrumentos disponíveis ao serviço dessa missão.

 

A nota de pesar publicada pela Arquidiocese de Évora após a sua morte destacou precisamente o seu trabalho pastoral e missionário com recurso aos meios digitais e informáticos, a nível local e nacional.

 

Este reconhecimento permite compreender que a tecnologia não foi um interesse marginal na sua atividade. Fez parte de uma reflexão pastoral mais ampla sobre a comunicação, a organização da Igreja e a necessidade de chegar às pessoas através de linguagens que compreendessem.

 

Um legado que interpela a Igreja

O percurso de D. António Vitalino reúne experiências que, à primeira vista, parecem distintas: o trabalho com os jovens em Santo António dos Cavaleiros, o acompanhamento de uma diocese extensa, a criação de estruturas de participação e a aposta nos meios digitais. Em todas elas encontramos uma preocupação comum: procurar formas concretas de responder às necessidades das comunidades.

 

A tecnologia, por si só, não garante proximidade, tal como a presença física não dispensa a capacidade de comunicar. O desafio está em perceber para que servem os instrumentos disponíveis e como podem contribuir para uma Igreja mais acessível, organizada e atenta às pessoas.

 

É neste ponto que a sua experiência continua a ser relevante, a missão digital não consiste apenas em publicar conteúdos ou acompanhar tendências. Exige discernimento, conhecimento das linguagens contemporâneas e uma compreensão clara de que os meios são instrumentos ao serviço do encontro e do anúncio do Evangelho.

 

António Vitalino procurou responder a esse desafio numa fase em que a transformação digital ainda estava longe de ter a dimensão atual. Fê-lo através de experiências concretas, da reorganização de serviços e da utilização de novos meios de comunicação pastoral.

 

Recordá-lo é também reconhecer o valor de quem não esperou que as mudanças se tornassem inevitáveis para começar a pensar nelas. O seu percurso deixa à Igreja uma pergunta que permanece atual: como utilizar os recursos do nosso tempo para chegar às pessoas sem perder aquilo que dá sentido à missão?

 

Obrigado, D. António!

Nuno Sousa: casado e pai de um filho. Encontrou na Teologia e na reflexão sobre o fenómeno religioso um dos caminhos para compreender melhor o mundo e as pessoas. Licenciado em Teologia. Encontro-se atualmente a concluir o Mestrado em Ciências Religiosas pela Universidade Católica Portuguesa.

Apaixonado pela música, com um carinho especial pelo Cante Alentejano - essa voz coletiva que, na sua simplicidade e autenticidade, guarda a memória, a identidade e a alma de um povo. Gosta de cinema e de viajar, sempre à procura de novas histórias, lugares e perspetivas que inspirem e o ajudem a olhar o mundo a partir de outros prismas.

Entre a fé e a cultura, a atualidade e o quotidiano, procurará escrever com proximidade, sentido crítico e, sobretudo, com humanidade.

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail