Crónica de uma luz (a história de um padre em sombras)

Crónicas 30 setembro 2026  •  Tempo de Leitura: 5

É um homem de fé,

voz firme, mãos gastas de benzer,

pároco de aldeias onde o sino ainda ressoa

e a porta da sacristia é chave do coração.

 

Falava do Evangelho como quem o colhe do chão,

com a humildade dos campos,

com a ternura de quem escuta antes de julgar.

Era presença nas noites frias,

coluna nas horas frágeis.

 

Mas um dia, o brilho dos seus olhos

começou a ceder lugar a um nevoeiro denso.

Já não cantava no adro com as crianças,

já não sorria no confessionário,

e nas homilias, o fogo parecia em cinza.

 

- “É cansaço”, dizia ele.

Mas o cansaço não explica o vazio que cala.

Nem o medo da manhã, nem o peso de existir.

Nem a ausência de si mesmo.

 

O Bispo, homem de Deus e de ciência,

viu para além da batina.

Leu nos silêncios mais do que nas palavras,

e, com carinho e zelo,

guiou o padre ao meu hospital, à casa dos que curam a alma.

 

Foi-lhe dito: "É depressão".

Não castigo, não fraqueza,

mas uma ferida invisível,

de causas diversas, de raízes fundas,

às vezes biológicas,

às vezes histórias não contadas.

 

E ali, naquele quarto branco,

o pastor tornou-se ovelha,

e o homem tornou-se corpo que dói,

mente que se fecha.

 

Foi a médica psiquiatra quem nos apresentou.

"Está em depressão", disse ela com cuidado,

"precisa de acompanhamento... e de alguém que o compreenda também no que crê."

 

Mas havia mais dor no que vinha depois.

 

A vergonha.

O medo de voltar.

A ideia de ter falhado como pastor.

O receio do olhar dos paroquianos:

- “O que pensarão de mim?”

- “Verão ainda em mim o padre… ou só a doença?”

 

Pensou mesmo que a morte seria um descanso,

que talvez Deus compreendesse o cansaço

que já nem o sono aliviava.

 

Falámos sobre isso com reverência.

Muitas vezes na sua Unidade,

muitas mais vezes no meu gabinete.

 

Sentava-se devagar, olhava o chão.

As mãos cruzadas como em oração...

 

Falámos com verdade e sem pressa.

Porque o desespero, quando se instala,

não é fraqueza.

É dor que transborda, é silêncio que grita.

 

Disse-lhe:

 

“Padre, a depressão não se pede nem é falta de fé.

Não se escolhe como se escolhe um caminho.

A depressão é uma doença, não é um pecado.

Ela é democrática e cruelmente justa:

não escolhe géneros, batinas, profissões ou estatutos.

E vem, por vezes, sorrateira,

assim como uma sombra que aparece num dia claro.

E vem não porque és fraco,

mas porque és humano.

Não és menos padre por esta dor.

 

Nem Jesus escapou à angústia.

No Horto suou sangue.
E na cruz, gritou o abandono.

Tu não estás só.

És talvez, agora, mais próximo do crucificado.”

 

E o tempo passou.

Não como milagre.

Mas como processo.

 

Com terapias e palavras,

com remédios e silêncios,

com fé e com lágrimas.

Com dias melhores e dias por dentro do escuro.

 

E foi num desses nossos encontros - não sei dizer qual -

que percebi que ele começava a voltar.

Não para o altar. Não ainda.

Mas para si.

Para o nome que Deus lhe deu antes do mundo ser mundo.

Para a vida, mesmo entre escombros.

 

Disse-me, num dia:

 

“Talvez o verdadeiro pastoreio comece agora…

Quando descubro que também eu preciso de ser cuidado.”

 

Quando teve alta voltou à sua paróquia 

e entrou de novo na sua igreja,

sem pressa,

sem certezas absolutas,

mas com um novo olhar.

 

Fez-se silêncio quando o viram.

E depois,

uma idosa levantou-se, caminhou até ele

e disse apenas:

- “Padre, estávamos à sua espera. Bem-vindo.”

 

E foi ali que entendeu:

o rebanho conhece o seu pastor.

Mesmo quando este regressa ferido.

 

 

---

 

 

Hoje, ele fala da depressão como quem fala do deserto:

lugar duro, mas onde Deus também habita.

E na homilia, entre palavras e pausas,

há um novo tom:

mais humano, mais inteiro.

 

Porque por vezes,

até os que apontam o céu

precisam de quem os ampare na terra.

 

E isso… também é graça.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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