Crónica de uma luz (a história de um padre em sombras)
É um homem de fé,
voz firme, mãos gastas de benzer,
pároco de aldeias onde o sino ainda ressoa
e a porta da sacristia é chave do coração.
Falava do Evangelho como quem o colhe do chão,
com a humildade dos campos,
com a ternura de quem escuta antes de julgar.
Era presença nas noites frias,
coluna nas horas frágeis.
Mas um dia, o brilho dos seus olhos
começou a ceder lugar a um nevoeiro denso.
Já não cantava no adro com as crianças,
já não sorria no confessionário,
e nas homilias, o fogo parecia em cinza.
- “É cansaço”, dizia ele.
Mas o cansaço não explica o vazio que cala.
Nem o medo da manhã, nem o peso de existir.
Nem a ausência de si mesmo.
O Bispo, homem de Deus e de ciência,
viu para além da batina.
Leu nos silêncios mais do que nas palavras,
e, com carinho e zelo,
guiou o padre ao meu hospital, à casa dos que curam a alma.
Foi-lhe dito: "É depressão".
Não castigo, não fraqueza,
mas uma ferida invisível,
de causas diversas, de raízes fundas,
às vezes biológicas,
às vezes histórias não contadas.
E ali, naquele quarto branco,
o pastor tornou-se ovelha,
e o homem tornou-se corpo que dói,
mente que se fecha.
Foi a médica psiquiatra quem nos apresentou.
"Está em depressão", disse ela com cuidado,
"precisa de acompanhamento... e de alguém que o compreenda também no que crê."
Mas havia mais dor no que vinha depois.
A vergonha.
O medo de voltar.
A ideia de ter falhado como pastor.
O receio do olhar dos paroquianos:
- “O que pensarão de mim?”
- “Verão ainda em mim o padre… ou só a doença?”
Pensou mesmo que a morte seria um descanso,
que talvez Deus compreendesse o cansaço
que já nem o sono aliviava.
Falámos sobre isso com reverência.
Muitas vezes na sua Unidade,
muitas mais vezes no meu gabinete.
Sentava-se devagar, olhava o chão.
As mãos cruzadas como em oração...
Falámos com verdade e sem pressa.
Porque o desespero, quando se instala,
não é fraqueza.
É dor que transborda, é silêncio que grita.
Disse-lhe:
“Padre, a depressão não se pede nem é falta de fé.
Não se escolhe como se escolhe um caminho.
A depressão é uma doença, não é um pecado.
Ela é democrática e cruelmente justa:
não escolhe géneros, batinas, profissões ou estatutos.
E vem, por vezes, sorrateira,
assim como uma sombra que aparece num dia claro.
E vem não porque és fraco,
mas porque és humano.
Não és menos padre por esta dor.
Nem Jesus escapou à angústia.
No Horto suou sangue.
E na cruz, gritou o abandono.
Tu não estás só.
És talvez, agora, mais próximo do crucificado.”
E o tempo passou.
Não como milagre.
Mas como processo.
Com terapias e palavras,
com remédios e silêncios,
com fé e com lágrimas.
Com dias melhores e dias por dentro do escuro.
E foi num desses nossos encontros - não sei dizer qual -
que percebi que ele começava a voltar.
Não para o altar. Não ainda.
Mas para si.
Para o nome que Deus lhe deu antes do mundo ser mundo.
Para a vida, mesmo entre escombros.
Disse-me, num dia:
“Talvez o verdadeiro pastoreio comece agora…
Quando descubro que também eu preciso de ser cuidado.”
Quando teve alta voltou à sua paróquia
e entrou de novo na sua igreja,
sem pressa,
sem certezas absolutas,
mas com um novo olhar.
Fez-se silêncio quando o viram.
E depois,
uma idosa levantou-se, caminhou até ele
e disse apenas:
- “Padre, estávamos à sua espera. Bem-vindo.”
E foi ali que entendeu:
o rebanho conhece o seu pastor.
Mesmo quando este regressa ferido.
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Hoje, ele fala da depressão como quem fala do deserto:
lugar duro, mas onde Deus também habita.
E na homilia, entre palavras e pausas,
há um novo tom:
mais humano, mais inteiro.
Porque por vezes,
até os que apontam o céu
precisam de quem os ampare na terra.
E isso… também é graça.