O cristão de Alfândega da Fé.
A proclamação do Evangelho não pode depender apenas da simpatia pessoal. Seria um alicerce demasiado frágil! No entanto, este traço humano serve como canal privilegiado pelo qual a Boa Nova pode chegar ao coração de todo o ser humano.
Se muitas vezes, a simpatia é uma característica pessoal dedicada a todos os que encontramos na vida, outras, é uma mera afinidade pessoal com alguém em concreto e está sujeita às nossas oscilações de humor. Esta realidade mostra que ela é insuficiente para construir relacionamentos estáveis e centrados no Evangelho. Portanto, a capacidade de nos relacionarmos com os outros deve ser guiada pelo Espírito Santo e enriquecida pelos seus frutos: amor, alegria, paz, magnanimidade, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão e autodomínio (…), ou seja, mais próximo da empatia do que da simpatia.
Todo o cristão, e não apenas o padre, é chamado a cultivar relações positivas, cordiais e fraternas, mesmo com aqueles que despertam sentimentos de antipatia. Pequenos gestos de gentileza, cordialidade e boas maneiras ajudam-nos a ser mais autênticos na proclamação do Evangelho. Um leigo de temperamento azedo, um sacerdote rude ou uma religiosa amarga dão um péssimo testemunho do Evangelho.
Um cristão que possui um carisma que o torna querido e procurado pelos seus conterrâneos, tem um dom que serve o seu ministério. Que isso reverta para a maior glória de Deus e para a edificação das pessoas que com ele caminham para a pátria celeste. Caber-lhe-á empregar esse talento com sabedoria evangélica, garantindo que seja uma mais valia para o Evangelho porque, para alcançar o coração do ser humano, também são necessários os dons humanos.
Esta minha reflexão resulta da passagem por Alfândega da Fé, no sábado passado, por causa 1.º Encontro de Missionários Digitais: «Acho que o mais importante de tudo foi conseguir sentar, pela primeira vez, à mesa e juntos, quem trabalha na área da comunicação, no digital, da nossa igreja. Desde redações, produtores de conteúdos, influencers, membros da Santa Sé…» disse o padre Manuel Ribeiro, pároco de Alfândega, presidente da Fundação Cónego Manuel Joaquim Ochôa e dinamizador do projeto, convencido de que «inquietou e provocou os presentes», o suficiente para os colocar a caminho.
Comigo, conseguiu-o!
É verdade que existe o risco real de confiar excessivamente nos próprios talentos naturais e transformar o ministério num trampolim para o sucesso pessoal, em detrimento da missão. Por isso, o cristão deve vivenciar a sua própria fragilidade e as suas limitações enquanto cultiva uma vida espiritual profunda. É Jesus Cristo, na intimidade da oração, no diálogo com os irmãos e na leitura dos sinais dos tempos, quem guiará sobre as formas mais adequadas de pôr esses dons naturais ao serviço da evangelização.
A fidelidade a nós mesmos, à nossa vocação e aos talentos que nos foram confiados exige, por vezes, a coragem de ir contra a corrente e de enfrentar incompreensões: «Felizes sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois a vossa recompensa será grande no Céu.» (Lc 6,22-23a).
Boa missão para todos!