Não somos só o que fica depois das perdas
Carregamos ao colo as nossas perdas mais íntimas, embalamos os sonhos que, entretanto, nos morreram. Nunca se tornam apenas fracassos do passado, são feridas que nos continuam a doer e das quais temos de cuidar.
Tornamo-nos responsáveis pelo que amamos, só que muitas das coisas e das pessoas que amamos perdem-se, deixam de estar ou morrem. Há em nós, como crianças que não param de chorar, um conjunto de vazios que reclama a nossa atenção – por mais que isso nada resolva e até acabe, muitas vezes, por agravar a dor.
Amamos ausências e impossibilidades. Entregamo-nos e embalamos muitas realidades que ou já não respiram ou nunca chegarão a fazê-lo.
Mais do que carregarmos as nossas perdas, somos moldados por elas, como se esculpissem a nossa alma, transformando um bloco bruto numa obra-prima.
O que somos nasce do que perdemos, mais até do que daquilo que possuímos.
Alguns desistem e não amam, porque lhes parece que tudo, até o seu amor, é passageiro, substituível e descartável.
Outros amam, apesar de saberem que é quase certo que terão de sofrer por causa disso.
A identidade é o resultado do que se escolhe e do que se renuncia, do que se ganha e do que se perde, do que se entrega e do que se recebe.
A maturidade talvez consista em não negar as perdas, nem fazer delas um altar. Há perdas que nos paralisam e há outras que nos ensinam a amar melhor. O luto pode endurecer o coração ou amaciá-lo.
Não somos apenas o que ficou depois das perdas; somos também a maneira como cuidamos do que sobreviveu. Alguns transformam as ausências em amargura, outros em compaixão. Alguns fecham-se para não sofrer, outros tornam-se mais atentos à dor alheia.
Talvez crescer no interior seja isto: aprender a embalar as perdas sem deixar que elas nos impeçam de voltar a amar. Porque, se o que somos nasce do que perdemos, então o que seremos depende do que, apesar de tudo, ainda formos capazes de decidir amar.