Não somos só o que fica depois das perdas

Crónicas 5 março 2026  •  Tempo de Leitura: 2

Carregamos ao colo as nossas perdas mais íntimas, embalamos os sonhos que, entretanto, nos morreram. Nunca se tornam apenas fracassos do passado, são feridas que nos continuam a doer e das quais temos de cuidar.

 

Tornamo-nos responsáveis pelo que amamos, só que muitas das coisas e das pessoas que amamos perdem-se, deixam de estar ou morrem. Há em nós, como crianças que não param de chorar, um conjunto de vazios que reclama a nossa atenção – por mais que isso nada resolva e até acabe, muitas vezes, por agravar a dor.

 

Amamos ausências e impossibilidades. Entregamo-nos e embalamos muitas realidades que ou já não respiram ou nunca chegarão a fazê-lo.

 

Mais do que carregarmos as nossas perdas, somos moldados por elas, como se esculpissem a nossa alma, transformando um bloco bruto numa obra-prima.

 

O que somos nasce do que perdemos, mais até do que daquilo que possuímos.

 

Alguns desistem e não amam, porque lhes parece que tudo, até o seu amor, é passageiro, substituível e descartável.

 

Outros amam, apesar de saberem que é quase certo que terão de sofrer por causa disso.

 

A identidade é o resultado do que se escolhe e do que se renuncia, do que se ganha e do que se perde, do que se entrega e do que se recebe.

 

A maturidade talvez consista em não negar as perdas, nem fazer delas um altar. Há perdas que nos paralisam e há outras que nos ensinam a amar melhor. O luto pode endurecer o coração ou amaciá-lo.

 

Não somos apenas o que ficou depois das perdas; somos também a maneira como cuidamos do que sobreviveu. Alguns transformam as ausências em amargura, outros em compaixão. Alguns fecham-se para não sofrer, outros tornam-se mais atentos à dor alheia.

 

Talvez crescer no interior seja isto: aprender a embalar as perdas sem deixar que elas nos impeçam de voltar a amar. Porque, se o que somos nasce do que perdemos, então o que seremos depende do que, apesar de tudo, ainda formos capazes de decidir amar.

Artigos de opinião publicados no site da Agência Ecclesia e Rádio Renascença.

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