Há crianças que deixam de tentar por medo de errar

EMRC 7 novembro 2026  •  Tempo de Leitura: 15

Uma resposta errada não deveria fazer uma criança sentir-se incapaz. A forma como os adultos corrigem pode influenciar a confiança, a participação e a vontade de voltar a tentar. Educar exige firmeza, mas também respeito pela dignidade de quem está a aprender.

 

Há crianças que sabem a resposta, mas não levantam o braço. Outras começam a falar e ficam a meio da frase, com receio de dizer alguma coisa errada. E há aquelas que, perante uma tarefa mais difícil, dizem logo que não sabem ou que não querem fazer, sem sequer tentar.

 

É fácil interpretar estas atitudes como falta de conhecimento, desinteresse ou preguiça. Mas nem sempre é isso que acontece. Às vezes, por detrás do silêncio, está simplesmente o medo de falhar.

 

Talvez aquela criança ainda se lembre do dia em que os colegas se riram da sua resposta. Talvez tenha medo de voltar a ouvir que já devia saber aquilo. Ou talvez, depois de várias experiências semelhantes, tenha aprendido que ficar calada é mais seguro do que mostrar que tem dificuldades.

 

Claro que nem todas as crianças que evitam participar têm medo de errar. Há muitas razões para esse comportamento. Ainda assim, vale a pena perguntar: quantas oportunidades de aprendizagem se perdem quando uma criança começa a sentir vergonha dos seus erros?

 

Quando o medo de errar interfere com a aprendizagem

 

Numa entrevista publicada na revista EDUCACIÓN 3.0, a 7 de novembro de 2026, Eli Delacour, especialista em aprendizagem, desenvolvimento e educação emocional, chama à atenção para a ligação entre aquilo que as crianças sentem e a forma como aprendem.

 

Aprender, recorda a entrevistada, não é uma atividade exclusivamente intelectual. A motivação, a confiança e o stress também têm influência na maneira como os alunos participam nas aulas, enfrentam desafios e desenvolvem as suas capacidades.

 

Uma criança que receia ser ridicularizada ou julgada pode ter mais dificuldade em fazer perguntas, experimentar uma solução diferente ou admitir que ainda não percebeu determinado assunto.

 

E, quando deixa de participar para evitar o risco de se enganar, perde mais do que a oportunidade de dar uma resposta. Perde também ocasiões para experimentar, esclarecer dúvidas e aprender com os outros.

 

Pensemos numa situação comum: uma criança engana-se ao resolver um exercício. Se a reação do adulto for de impaciência ou troça, é possível que, da próxima vez, pense duas vezes antes de responder. Mas, se encontrar alguém que a ajude a perceber onde se enganou, terá melhores condições para continuar a tentar.

 

Isto não quer dizer que o medo esteja na origem de todas as dificuldades escolares, nem que qualquer situação de stress prejudique a aprendizagem. Aprender implica esforço, exigência e, muitas vezes, algum desconforto. A dificuldade surge quando o receio de falhar ganha tanto peso que a criança começa a evitar precisamente as experiências de que precisa para aprender.

 

O que uma criança aprende com a reação dos adultos?

A investigação educativa tem procurado perceber de que forma o ambiente da sala de aula influencia a maneira como os alunos encaram os seus erros.

 

Um estudo longitudinal publicado em 2024 no British Journal of Educational Psychology acompanhou 1641 alunos de 69 turmas de Matemática, ao longo de dois anos. Os investigadores verificaram que, nas turmas em que os alunos tinham uma perceção mais positiva do ambiente perante os erros, as suas reações quando se enganavam apresentavam uma evolução menos negativa.

 

Estes resultados não permitem afirmar que a atitude do professor determine, por si só, a confiança de uma criança. Mostram, porém, que o ambiente educativo está relacionado com a forma como os alunos aprendem a lidar com as dificuldades. E esse ambiente constrói-se todos os dias, muitas vezes em momentos aparentemente insignificantes.

 

Quando um aluno dá uma resposta errada, o professor pode explicar novamente, fazer uma pergunta que o ajude a pensar ou convidá-lo a rever o raciocínio. Mas também pode reagir com um comentário depreciativo, compará-lo com outro colega ou repreendê-lo à frente da turma.

 

Em ambos os casos, o erro foi identificado. O que muda é a forma de o corrigir e, sobretudo, a mensagem que chega à criança.

 

Há uma diferença considerável entre ouvir «Outra vez errado? Já expliquei isto tantas vezes!» e «A resposta não está correta. Vamos perceber onde te enganaste». Nenhuma destas frases esconde que houve um erro. Mas a segunda convida a criança a compreender o que aconteceu e a procurar uma solução. O problema está na resposta, não na pessoa que a deu.

 

É uma distinção que merece ser levada a sério. Afinal, as crianças aprendem com aquilo que lhes ensinamos, mas também observam a maneira como reagimos quando não correspondem às nossas expectativas.

 

Corrigir não é humilhar. E respeitar não é deixar passar tudo.

Quando se fala da importância da segurança emocional na educação, surge frequentemente uma preocupação legítima: não estaremos a proteger demasiado as crianças? Não correremos o risco de as tornar menos capazes de lidar com a frustração? Tudo depende daquilo que entendemos por proteger.

 

As crianças precisam de perceber que nem todas as respostas estão certas, que os seus comportamentos têm consequências e que existem regras para cumprir. Precisam de aprender a persistir quando alguma coisa é difícil e a aceitar que nem sempre conseguem o que desejam. Mas nada disto exige que sejam humilhadas.

 

Podemos estabelecer limites sem recorrer ao medo, exigir esforço sem desvalorizar a pessoa e corrigir com firmeza sem lhe ferir a dignidade. A investigação sobre o feedback educativo ajuda-nos a perceber porquê.

 

Nas suas orientações para melhorar a aprendizagem através do feedback, a Education Endowment Foundation salienta a importância de dar aos alunos informação que os ajude a compreender as dificuldades e a progredir. Dizer a uma criança que a resposta está errada pode ser necessário, mas é insuficiente. Ela precisa também de perceber onde falhou, o que pode melhorar e como o fazer. E isso não diminui a sua responsabilidade. Pelo contrário, convida-a a participar na correção e a assumir um papel ativo na própria aprendizagem.

 

Se um aluno se engana num cálculo, devemos ajudá-lo a encontrar o erro. Se magoa um colega, precisamos de o levar a reconhecer o que fez, a compreender as consequências e a procurar reparar o dano. São situações diferentes, que exigem respostas distintas, mas têm algo em comum: corrigir deve servir para ajudar a crescer. Também nós, adultos, temos limitações.

 

Um professor pode chegar ao fim de várias horas de aulas completamente cansado. Um pai ou uma mãe pode perder a paciência depois de repetir, pela décima vez, uma indicação que lhe parece óbvia. Quem educa conhece bem estes momentos. Seria irrealista exigir que todos reagíssemos sempre com serenidade. E seria igualmente errado concluir que uma reação menos feliz compromete, inevitavelmente, o desenvolvimento de uma criança.

 

O que podemos fazer é reconhecer que a maneira como exercemos a autoridade tem consequências. E aceitar que, por vezes, também precisamos de corrigir a nossa forma de agir.

 

Quando um adulto admite que falou injustamente e pede desculpa, não está necessariamente a perder autoridade. Pode estar, pelo contrário, a ensinar uma das coisas que mais exige aos outros: reconhecer um erro e assumir a responsabilidade pelo que fez.

 

Jesus e a possibilidade de recomeçar

A tradição cristã oferece-nos uma perspetiva particularmente rica sobre a relação entre o erro, a responsabilidade e a dignidade de cada pessoa.

 

No Evangelho de São João, encontramos o relato do encontro entre Jesus ressuscitado e Pedro (Jo 21, 15-19). Pedro tinha negado conhecer Jesus por três vezes, num dos momentos mais difíceis da sua vida. Depois da ressurreição, os dois voltam a encontrar-se.

 

É um diálogo exigente. Jesus pergunta-lhe repetidamente se O ama. Pedro responde, consciente da fragilidade da sua posição. E, apesar daquilo que aconteceu, Jesus volta a confiar nele, entregando-lhe uma missão: cuidar dos seus.

 

Naturalmente, não podemos comparar diretamente esta situação com o que acontece numa sala de aula. Negar alguém por medo e dar uma resposta errada num exercício são realidades muito diferentes. Mas há neste encontro uma atitude que merece a nossa atenção.

 

Jesus não reduz Pedro àquilo que fez. A negação não é ignorada nem apagada da sua história, mas também não passa a definir definitivamente quem ele é. Pedro continua a ter uma missão, responsabilidades e um caminho pela frente. Na Carta aos Sacerdotes, de 2001, São João Paulo II recorda este encontro, relacionando a missão confiada a Pedro com a consciência da sua fragilidade e com a misericórdia de Cristo.

 

Talvez possamos retirar daqui uma ideia importante para a educação: reconhecer que alguém errou não nos obriga a definir essa pessoa pelo erro que cometeu. Com as crianças, esta diferença manifesta-se em palavras e gestos muito concretos.

 

Dizer «fizeste uma coisa errada» é muito diferente de dizer «és incapaz». Podemos corrigir um comportamento sem humilhar quem o praticou. Podemos pedir a uma criança que se esforce mais sem lhe retirar a confiança de que é capaz de melhorar. Na perspetiva cristã, a dignidade de cada pessoa não depende de acertar sempre ou de nunca falhar. O seu valor permanece, mesmo quando erra.

 

Educar a partir desta convicção não significa desvalorizar os erros ou ignorar as consequências dos comportamentos. Significa acreditar que a correção deve abrir espaço ao crescimento, em vez de se esgotar na censura.

 

Que memória deixamos nas crianças quando as corrigimos?

Quase todos guardamos a memória de alguém que nos ensinou alguma coisa importante. Talvez um professor que teve paciência para explicar aquilo que não conseguíamos compreender. Um familiar que nos encorajou a tentar outra vez. Ou alguém que nos corrigiu com firmeza, sem nunca nos fazer sentir inferiores.

 

Mas também podemos lembrar-nos de palavras que nos fizeram duvidar das nossas capacidades. De comparações que custaram a esquecer. De momentos em que teríamos preferido ficar calados para não voltar a passar pelo mesmo.

 

Nenhuma destas experiências determina, por si só, aquilo em que nos tornamos. Mas ajudam-nos a perceber a importância que as relações têm na educação.

 

Não conseguimos controlar tudo o que uma criança sente. Haverá momentos em que ficará envergonhada, frustrada ou com medo, mesmo que tenhamos procurado agir da melhor maneira. Também não podemos garantir que uma correção seja sempre interpretada como desejávamos.

 

Há, contudo, coisas que estão ao nosso alcance. Podemos ter mais cuidado com as palavras que escolhemos e com a maneira como as dizemos. Podemos tentar compreender uma dificuldade antes de a classificarmos como falta de esforço. Podemos evitar comparações humilhantes, reconhecer os progressos que realmente existem e dar novas oportunidades para melhorar. E podemos, acima de tudo, ajudar as crianças a perceber que o respeito não é uma recompensa reservada a quem acerta.

 

Uma boa educação não se reconhece pela ausência de erros. Reconhece-se também pela forma como ajudamos quem está a aprender a compreender as próprias dificuldades, a assumir responsabilidades e a encontrar caminhos para progredir.

 

Talvez por isso valha a pena recordar a última vez que corrigimos uma criança. O que terá ficado dessa conversa? A compreensão daquilo que precisava de mudar? Uma orientação concreta para fazer melhor? Ou, sobretudo, o receio de voltar a enganar-se?

 

Uma criança precisa de saber quando erra. Mas também precisa de sentir que o seu erro não diminui o seu valor enquanto pessoa.

 

Conseguir transmitir estas duas mensagens, sem abdicar de nenhuma delas, diz muito sobre a forma como entendemos a educação.

 


[García López, L. (2026, 7 de novembro). El cerebro no aprende aislado de lo que siente, un niño que tiene miedo a equivocarse difícilmente podrá mostrar todo su potencial. EDUCACIÓN 3.0. https://www.educaciontrespuntocero.com/entrevistas/inteligencia-emocional-en-la-educacion-eli-delacour/]

 

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