Dia de Todos os Santos: a história e o significado de uma celebração
No dia 1 de novembro, a Igreja celebra pessoas cujo nome ninguém conhece. Nunca tiveram uma estátua, uma festa própria ou uma página nos livros de história. Para os cristãos, porém, também elas são santos.
Mas como nasceu uma celebração dedicada a uma multidão anónima? E porque é que, em Portugal, o mesmo dia evoca o Pão-por-Deus, as visitas aos cemitérios e uma das maiores tragédias da nossa história, o terramoto de Lisboa de 1755?
A história do Dia de Todos os Santos ajuda a compreender estas ligações e a descobrir o verdadeiro sentido de uma festa que, para lá das tradições populares, fala sobretudo de santidade, esperança e vida eterna.
Porque existe um Dia de Todos os Santos?
Nos primeiros séculos do cristianismo, as comunidades cristãs recordavam sobretudo os mártires, pessoas que tinham morrido por causa da sua fé. O aniversário da sua morte era entendido como o nascimento para a vida eterna, conhecido pela expressão latina dies natalis.
Com o passar do tempo, o número de mártires venerados aumentou. A memória cristã passou também a incluir pessoas que, sem terem sofrido o martírio, se tinham distinguido pela forma como viveram o Evangelho. Surgiu, assim, a necessidade de uma celebração comum, que não dependesse de cada santo ter um dia próprio no calendário.
As primeiras festas coletivas em honra dos santos desenvolveram-se nas comunidades cristãs do Oriente, pelo menos desde o século IV. Eram celebradas em datas diferentes, frequentemente associadas ao tempo pascal.
Em Roma, um acontecimento importante ocorreu em 609 ou 610, quando o Papa Bonifácio IV dedicou o antigo Panteão à Virgem Maria e a todos os mártires. A celebração dessa dedicação realizava-se a 13 de maio.
A escolha do dia 1 de novembro consolidou-se mais tarde. No século VIII, a data já era observada nas Ilhas Britânicas. Durante o pontificado de Gregório III (731-741), foi também dedicada a todos os santos uma capela na Basílica de São Pedro, em Roma.
No século IX, a celebração ganhou maior difusão no Ocidente. Em 835, durante o reinado de Luís, o Piedoso, tornou-se obrigatória no reino dos Francos, provavelmente por iniciativa do Papa Gregório IV.
A festa que hoje conhecemos resulta, portanto, de um desenvolvimento histórico de vários séculos. Não surgiu num único momento nem foi celebrada sempre na mesma data.
Celebrar todos os santos, incluindo os que ninguém conhece
Quando se fala de santos, é natural pensar em São Francisco de Assis, Santa Teresa de Ávila, Santo António ou outras figuras reconhecidas oficialmente pela Igreja.
Mas a solenidade de 1 de novembro tem um alcance muito maior.
Segundo a fé católica, a santidade não está limitada às pessoas canonizadas. A canonização é o reconhecimento público, pela Igreja, de que determinada pessoa vive na glória de Deus e pode ser proposta aos fiéis como exemplo e intercessora.
O Dia de Todos os Santos celebra também aqueles que, tendo alcançado essa plenitude de vida em Deus, nunca foram formalmente reconhecidos. Pessoas que viveram discretamente, que cuidaram dos outros, que permaneceram fiéis em circunstâncias difíceis e cuja história talvez seja conhecida apenas por quem conviveu com elas.
É esta dimensão universal que distingue a solenidade de uma simples comemoração de grandes figuras religiosas.
Na liturgia, a celebração tem o grau de solenidade. A cor litúrgica é o branco, associada à alegria pascal e à glória de Deus.
As leituras bíblicas ajudam a compreender a razão da festa. O livro do Apocalipse apresenta uma multidão incontável, proveniente de todas as nações, povos e línguas, reunida diante de Deus (Ap 7, 9-14). A Primeira Carta de São João recorda a condição dos crentes como filhos de Deus (1 Jo 3, 1-3).
No Evangelho, Jesus proclama as Bem-Aventuranças (Mt 5, 1-12a). São chamados felizes os pobres em espírito, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os perseguidos por causa da justiça.
Esta escolha não é casual. A santidade cristã não é apresentada como uma conquista reservada a pessoas extraordinárias, mas como um caminho de vida orientado pelo amor a Deus e ao próximo.
O que significa a comunhão dos santos?
A celebração de Todos os Santos está profundamente ligada a uma das afirmações do Credo: «Creio na comunhão dos santos».
Na doutrina católica, esta expressão refere-se à união espiritual de todos os que pertencem a Cristo. Inclui os fiéis que vivem na terra, aqueles que se encontram em purificação depois da morte e os que já participam plenamente na vida de Deus.
A tradição teológica descreveu estas realidades através das expressões Igreja Militante, Igreja Padecente e Igreja Triunfante. Embora diferentes, não são entendidas como três Igrejas separadas.
O Catecismo da Igreja Católica, nos números 946 a 962, explica que esta comunhão envolve tanto a participação nos bens espirituais da Igreja como a união entre os seus membros.
É neste enquadramento que se compreende a intercessão dos santos. Na fé católica, os santos não substituem Deus nem possuem um poder independente dele. A sua intercessão é entendida como uma participação na oração da Igreja, fundada na união com Cristo.
A comunhão dos santos permite também compreender por que razão a Igreja associa a celebração da santidade à memória dos falecidos, sem confundir as duas realidades.
Todos os Santos e Fiéis Defuntos: qual é a diferença?
Embora os dois dias estejam intimamente ligados, o calendário litúrgico distingue-os.
A 1 de novembro celebra-se a Solenidade de Todos os Santos, dedicada àqueles que, segundo a fé cristã, já vivem na plenitude de Deus.
A 2 de novembro assinala-se a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, tradicionalmente conhecida como Dia de Finados. Nesta data, a Igreja recorda especialmente os falecidos e reza por aqueles que ainda necessitam de purificação.
A comemoração de 2 de novembro está associada a Santo Odilão, abade de Cluny. Em 998, determinou que os mosteiros dependentes da sua abadia celebrassem uma memória litúrgica de todos os fiéis defuntos. O costume difundiu-se progressivamente pela Igreja ocidental.
A oração pelos mortos, contudo, é muito anterior. Existem testemunhos desta prática desde os primeiros séculos do cristianismo.
Na vida das famílias portuguesas, os dois dias acabaram por se aproximar. Muitas pessoas visitam os cemitérios a 1 de novembro, aproveitando o feriado nacional para limpar as sepulturas, colocar flores e recordar os familiares falecidos.
Este hábito não altera a distinção litúrgica. O Dia de Todos os Santos é, fundamentalmente, uma celebração da vida eterna e da santidade. A comemoração do dia seguinte coloca a atenção na oração pelos defuntos.
O que une ambas é a esperança cristã na ressurreição e na vida para além da morte.
Porque se visitam os cemitérios e se reza pelos mortos?
A visita aos cemitérios durante os primeiros dias de novembro tornou-se uma das práticas mais visíveis deste período.
Na tradição católica, rezar pelos defuntos é considerado um gesto de caridade espiritual. A Igreja ensina que a morte não interrompe a comunhão dos fiéis em Cristo e que a oração pode ajudar aqueles que ainda se encontram em purificação.
É também neste contexto que surgem as indulgências concedidas em sufrágio dos falecidos.
De acordo com as normas da Igreja, entre 1 e 8 de novembro, os fiéis podem obter uma indulgência plenária, aplicável aos defuntos, mediante uma visita devota ao cemitério acompanhada de oração por aqueles que morreram.
No dia 2 de novembro, existe igualmente a possibilidade de obter uma indulgência plenária através da visita a uma igreja ou oratório, com a recitação do Pai-Nosso e do Credo, nos termos estabelecidos pela Igreja.
Estas práticas não dispensam as condições espirituais habituais, entre as quais a confissão sacramental, a comunhão eucarística, a oração pelas intenções do Papa e o desapego interior do pecado.
A indulgência não deve ser confundida com uma forma automática de garantir a salvação de alguém. Na doutrina católica, está relacionada com a remissão da pena temporal devida por pecados cuja culpa já foi perdoada.
O terramoto de 1755: quando o Dia de Todos os Santos ficou marcado pela tragédia
Em Portugal, há um acontecimento que tornou o dia 1 de novembro particularmente significativo na memória histórica: o terramoto de Lisboa de 1755.
Na manhã dessa solenidade, por volta das 9h40, um violento sismo atingiu Lisboa e outras regiões do país.
Por ser dia santo, muitas pessoas encontravam-se nas igrejas ou tinham saído para participar nas celebrações religiosas. O desabamento dos edifícios provocou numerosas vítimas. Ao terramoto seguiram-se um maremoto e grandes incêndios, que agravaram a destruição da capital.
Entre os edifícios atingidos encontravam-se a Basílica Patriarcal, o Convento do Carmo e o Hospital Real de Todos os Santos.
A catástrofe marcou profundamente a história portuguesa. A reconstrução da cidade, conduzida politicamente pelo Marquês de Pombal, transformou o espaço urbano de Lisboa. O terramoto suscitou também debates filosóficos e religiosos sobre o sofrimento humano, a providência divina e as explicações naturais das catástrofes.
A coincidência com uma das maiores solenidades cristãs contribuiu para intensificar essas questões.
Para muitas pessoas da época, a destruição de igrejas e a morte de fiéis reunidos em oração levantavam interrogações difíceis. A tragédia tornou-se, assim, não apenas um acontecimento histórico, mas também um marco na reflexão europeia sobre o mal e a condição humana.
A data de Todos os Santos conservou, por isso, em Portugal, uma dimensão de memória que ultrapassa o seu significado estritamente litúrgico.
O que nos diz hoje o Dia de Todos os Santos?
A solenidade de Todos os Santos foi ganhando diferentes expressões ao longo da história. Começou por estar particularmente ligada à memória dos mártires, alargou-se à celebração de todos os que vivem na glória de Deus e acabou por se integrar profundamente na cultura de numerosas comunidades.
Em Portugal, a data reúne memórias muito diversas. Há quem a associe às igrejas e às celebrações litúrgicas, quem se recorde das visitas aos cemitérios e quem ainda tenha presente a alegria de pedir o Pão-por-Deus com um saco de pano.
São experiências distintas, mas que ajudam a perceber o lugar que este dia ocupa na vida coletiva.
Para os cristãos, o seu significado principal permanece ligado à santidade e à esperança na vida eterna.
A festa recorda que os santos não constituem apenas uma coleção de figuras do passado. São, segundo a fé da Igreja, testemunhos de uma vida que encontrou a sua plenitude em Deus.
E há uma consequência importante nesta celebração: a santidade não é apresentada como uma possibilidade reservada a pessoas de outra época ou a quem vive afastado das preocupações quotidianas.
As Bem-Aventuranças apontam precisamente para a vida concreta: a misericórdia perante o sofrimento, a procura da justiça, a construção da paz e a fidelidade ao bem, mesmo quando isso implica dificuldades.
Celebrar Todos os Santos é, por isso, mais do que recordar pessoas que viveram antes de nós. É reconhecer aquilo que a fé cristã considera possível para cada vida humana.
Entre os santos conhecidos e os que permaneceram anónimos, a Igreja celebra a mesma esperança: a de que nenhuma vida vivida no amor fica esquecida diante de Deus.
Fontes e referências para aprofundamento
- Vatican News, Solenidade de Todos os Santos. Enquadramento histórico e litúrgico.
- Agência ECCLESIA, Igreja celebra ciclo dedicado a Todos os Santos e Fiéis Defuntos. 31 de outubro de 2026.
- Catecismo da Igreja Católica, números 946-962. Doutrina da comunhão dos santos.
- Penitenciaria Apostólica, Decreto de 22 de outubro de 2020. Regime habitual das indulgências pelos defuntos e disposições extraordinárias aplicadas durante a pandemia.
- Oliveira, Ernesto Veiga de. Festividades cíclicas em Portugal. Publicações Dom Quixote, 1984; 2.ª edição, 1995. Particularmente o capítulo «Manjares cerimoniais de Todos os Santos e Fiéis Defuntos».
- Diário da República, Código do Trabalho, artigo 234.º. Enquadramento legal do feriado.
- iMISSIO, Pão por Deus e Halloween: o que estamos realmente a celebrar?. Leitura complementar sobre as tradições culturais e religiosas de finais de outubro e início de novembro.