Porque consigo ver 40 TikToks, mas não ler 5 versículos do Evangelho?

Razões para Acreditar 25 outubro 2026  •  Tempo de Leitura: 10

Quantas vezes já te aconteceu estares a passar por uma situação difícil, teres medo, ansiedade, decisões a tomar ou simplesmente demasiadas coisas a passar-te pela cabeça e pensares: «Preciso de rezar»? Sabes que precisas de falar com Deus, mas antes decides distrair-te «só um bocadinho» para acalmar a mente. Abres o TikTok, os Reels do Instagram ou os Shorts do YouTube e, quando voltas a olhar para o relógio, passaram uma ou duas horas. A oração nunca chegou a acontecer e vais dormir com exatamente as mesmas preocupações. Talvez isto também seja uma forma de défice de atenção espiritual.

 

O curioso é que conseguimos ver 20, 30 ou 40 vídeos seguidos sem sentirmos que estamos a fazer um grande esforço, mas abrir o Evangelho t6nbhge ler cinco versículos pode parecer-nos interminável.

 

Porquê? Creio que parte da resposta está em algo que treinámos sem nos apercebermos: a nossa forma de prestar atenção.

 

Quando o défice de atenção espiritual também tem a ver com os nossos hábitos

 

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Não quero demonizar as redes sociais. Também as utilizo. Divertem-nos, informam-nos e até podemos encontrar nelas conteúdos que nos aproximam de Deus. O problema começa quando habituamos a nossa mente a receber novos estímulos de poucos em poucos segundos e depois pretendemos passar imediatamente desse ritmo para o silêncio profundo da oração.

 

As plataformas de vídeos curtos assentam numa experiência muito simples: deslizas o dedo pelo ecrã e há sempre algo novo. Não sabes se o próximo vídeo te fará rir, te surpreenderá, te ensinará alguma coisa ou se simplesmente passarás rapidamente ao seguinte. Essa incerteza favorece os mecanismos de aprendizagem por recompensa que nos levam a querer repetir uma ação. Investigações sobre o comportamento nas redes sociais descobriram precisamente que as recompensas sociais podem reforçar o nosso comportamento e levar-nos a regressar uma e outra vez.

 

Além disso, o TikTok reconhece que sinais como o tempo que passamos a ver um vídeo, se o vemos até ao fim, se o partilhamos ou se passamos rapidamente ao seguinte ajudam o seu sistema a aprender que conteúdos nos deve recomendar a seguir. Ou seja, enquanto nós aprendemos a deslizar o dedo pelo ecrã, o algoritmo aprende connosco.

 

E há algo ainda mais interessante. Um estudo publicado em 2023 comparou uma pausa passada a utilizar o TikTok, o Twitter, o YouTube ou simplesmente a descansar. Os participantes expostos ao formato de vídeos curtos e rápidos apresentaram depois um pior desempenho ao recordarem uma tarefa que tinham por realizar. Investigações posteriores apontaram, em particular, a mudança constante e rápida de contexto como um dos possíveis fatores.

 

Isto não significa que o TikTok nos tenha destruído o cérebro, nem que já não consigamos concentrar-nos. Significa algo muito mais simples: a atenção também se treina.

 

E, se durante horas treinamos a nossa mente para esperar algo diferente de poucos em poucos segundos, não deveria surpreender-nos que depois nos custe permanecer dez minutos diante de Deus, em silêncio.

 

Deus não funciona como um scroll

 

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Aqui está, para mim, a parte mais importante. A oração tem outro ritmo. Deus nem sempre responde em quinze segundos. Não muda de assunto quando nos aborrecemos. Não precisa de nos surpreender de cinco em cinco segundos para manter o nosso interesse, pois a vida espiritual está cheia de processos lentos.

 

Uma semente precisa de tempo para crescer. Uma ferida precisa de tempo para sarar. Uma relação precisa de conversas, silêncios, encontros, espera. E a nossa relação com Deus não é diferente.

 

Talvez seja por isso que Jesus tantas vezes Se retirava para lugares solitários para rezar. Não porque precisasse de fugir da realidade, mas porque havia coisas que só podiam ser escutadas no silêncio.

 

O nosso problema é que, muitas vezes, começamos a rezar à espera de sentir imediatamente algo extraordinário. Se não sentimos paz, consolo ou uma resposta clara nos primeiros minutos, pensamos que «não aconteceu nada». Mas permanecer também é oração.

 

Ler o mesmo Evangelho duas vezes porque, da primeira vez, a nossa mente estava noutro lugar também é oração.

 

Dizer-Lhe: «Senhor, não consigo concentrar-me, mas aqui estou» também é oração. Nem todos os encontros com Deus têm de provocar uma emoção imediata para darem fruto.

 

Não precisas de começar por rezar uma hora para superar esse défice de atenção

 

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Creio que aqui podemos aprender algo interessante com a ciência do comportamento, sem reduzir a oração a um simples «truque de dopamina».

 

Se a nossa atenção se habituou pouco a pouco à rapidez, também podemos educá-la gradualmente para regressar à profundidade. Não precisas de começar por dizer: «A partir de amanhã, vou dedicar uma hora por dia à oração». Provavelmente, ao fim de três dias, já terás desistido.

 

Começa com pouco.

  1.         Prepara o lugar na noite anterior. Deixa a Bíblia aberta, um crucifixo ou o teu caderno num sítio onde o possas ver ao acordar. Que o ambiente à tua volta te recorde, antes do telemóvel: «Deus primeiro».
  2.         Começa com três minutos. Sim, três. Senta-te e diz a Deus exatamente o que se passa dentro de ti. Não procures palavras perfeitas. «Tenho medo». «Tenho muitas preocupações». «Não sei o que fazer». «Obrigado por isto». Começa por aí.
  3.         Lê apenas um pequeno trecho do Evangelho. Cinco versículos são suficientes. Lê-os uma vez. Respira. Volta a lê-los. Pergunta a ti próprio: «Que palavra me chamou a atenção?» Não precisas de terminar um capítulo inteiro.
  4.         Reduz o ruído antes de rezar. Procura que o TikTok, o Instagram, as mensagens e os e-mails não sejam a primeira coisa que te entra na cabeça ao acordar. Não porque o telemóvel seja mau, mas porque queres oferecer à tua mente alguns minutos sem mudar de estímulo de poucos em poucos segundos.
  5.         Aumenta gradualmente. Depois de alguns dias, passa de três para cinco minutos. Depois para sete. Depois para dez. O objetivo não é bater um recorde espiritual, mas voltar a aprender a permanecer.

Esse défice de atenção espiritual não significa necessariamente que amemos pouco a Deus. Às vezes, significa simplesmente que estamos a tentar encontrar-nos com Ele com uma mente habituada a viver a uma velocidade completamente diferente.

Experimenta isto durante uma semana

 

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Durante os primeiros três dias, oferece a Deus três minutos antes de veres as redes sociais. Do quarto ao sexto dia, tenta dedicar-Lhe cinco minutos e acrescenta esses cinco versículos do Evangelho. No domingo, procura reservar dez minutos de verdadeiro silêncio.

Podes tomar o teu café depois, acompanhar este momento com um cântico de adoração ou escrever uma frase que queiras recordar ao longo do dia. E, se te distraíres, regressa. Se voltares a distrair-te, regressa novamente.

A contemplação não consiste em nunca nos distrairmos; muitas vezes, consiste precisamente em aprender a regressar. Porque, por detrás de tudo isto, há algo muito maior do que simplesmente melhorar a nossa concentração: há um Deus que quer encontrar-Se contigo.

Talvez andes há semanas a pedir-Lhe uma resposta. Talvez tenhas uma decisão que não sabes como tomar. Talvez estejas a passar por uma fase de cansaço, preocupações ou precises de orientação. E Ele continua ali. Não à espera de que chegues com uma mente perfeita, mas simplesmente à espera de que chegues.

Podemos reeducar a nossa atenção. Podemos voltar a aprender a fazer silêncio. Podemos reduzir, pouco a pouco, essa necessidade de estímulos constantes e curar o nosso défice de atenção espiritual.

Não porque queiramos tornar-nos especialistas em concentração, mas porque há uma voz que vale a pena aprender a escutar.

E talvez amanhã, antes de deslizares o dedo pelo ecrã à procura de algo que acalme, por alguns segundos, aquilo que trazes dentro de ti, possas experimentar algo muito mais simples:

Abre o Evangelho, lê cinco versículos, permanece três minutos e diz-Lhe: «Senhor, aqui estou. Ensina-me de novo a escutar-Te, ámen».

 

[Espinosa, G. (2026, 2 de outubro). ¿Por qué puedo ver 40 TikToks, pero no leer cinco versículos del Evangelio? Catholic Link. https://catholic-link.com/deficit-de-atencion-espiritual/]

O portal iMissio é um projeto de evangelização iniciado em 2012, que tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem.

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